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Sol

Eu tinha fascínio pelo sol. Passava muito tempo pensando em como chegar perto do sol.
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Qual seria a aproximação possível antes que a matéria se desintegrasse? O corpo fervesse em mil pedaços e nos fundíssemos com esse outro corpo supremo e poderoso que é o sol.
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Se bem que eu não pensava em “supremo” ou usava termos mais rebuscados da língua mater porque eu era muito pequena mesmo. E as coisas ainda não tinham tantos nomes. Tinham mais sensações e coisas dentro das coisas como aquelas bonequinhas russas.
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Eu achava que Deus poderia ser o sol. Porque você já tentou olhar para o sol? Simplesmente não dá para suportar tanta imensidão! Deve ser como Deus, eu pensava. Eu até vi uma vez no Fantástico um homem olhando para o sol. Horas e horas olhando fixamente para aquele ponto perturbadoramente brilhante. E era tanto o esforço dentro de sua loucura de fitar o infinito dos olhos de Deus que ele se abraçava e se apertava para suportar aquela façanha. Parece que ele ficou cego. Agora eu acho que ele preferia mesmo não olhar para as coisas do mundo. E sendo assim, olhar para o sol e ficar cego são o mesmo caminho.
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Eu tentei olhar para o sol. Mas a minha cegueira só chegou até à miopia.
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Dizem os interpretaços que pessoas crianças míopes tornam-se assim porque não querem ver coisas que as cercam. Talvez fosse o meu caso.
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Porque eu queria ser filha do sol e olhar para o mundo de lá de cima. Abraçar-me nas chamas, sentir o corpo deixar de ser corpo e virar somente energia.

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Sheyla Azevedo

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