Sorriso de Maria… 99 flores

3 de setembro de 2010 às 17:04 - Comentar
Por Ednar Andrade

sorriso de maria

Nasceu Maria na Primavera ou no prenúncio dela. Sorrisos de Maria… Que já não vejo. Mesa posta, família reunida e onde havia sorriso, agora vejo: É preciso viver antes que a vida anoiteça… Antes que a escuridão vede as alegrias.

“Tolo é o homem que não vive, com intensidade, o seu abstrato”. “Tolo é o homem para quem a felicidade é palpável” (pois a felicidade é invisível…) Não há como encontrar no outro a sua felicidade. Simples assim: é olhar para dentro de si e ser feliz, não importando em que hemisfério gira a maldade. Mas o homem, em vão guarda mágoas e chora e deixa de viver e ser feliz… Assim é o “homem”. Durante um longo tempo pensei e, olhando aquele olhar sisudo, boca cingida de não mais sorrir… Olhos postos no nada… Seus dedos brincam com a ponta do pano, tecendo algum pensamento que só a ela pertence, talvez sejam seus últimos segredos que a ninguém confessa e que jamais serão editados. Que desenha em pensamento? Alguma flor? Lá fora, na entrada do terraço, está o seu jardim, feito com esmero e capricho, entre rosas e pequenos cactos, teceu um poema que mais parece um quadro que lembra a Primavera. Entre flores vermelhas e rosas cálidas, o seu roseiral perfuma e presenteia a todos que ali chegam.

Maria não mais sorri, seu olhar parado parece em mármore esculpido, indiferente a tudo e a todos. Ali, Maria está! Sentada, posta. Seu pensamento é um Paraíso inabitado. Maria, agora silenciada pelo tempo, é simplesmente Maria. Divago: tolo é o homem que passa pela vida sem viver, que não sorve com intensa felicidade e gratidão a sua história, e em seus poucos dias apega-se tanto às asneiras… Vaidade, vaidade! E nessa busca vã, o homem alimenta-se de forma mesquinha, faz da vida, tão simples, um coquetel de dor. Detive-me olhando para Maria. “Marias” estavam todas reunidas: Ana Maria…, Ana Elisa…, como calaram… E quando falam, dizem-me coisas fora do seu tempo, como crianças sem noção do real. Já não pensam em certezas, nem em ter falta de esperanças. Felizes como anjos, ainda permeiam entre nós. Maria contou em seus ramos, ontem, 99 flores. Mas já não se dá conta desta matemática. Festa onde o bolo e o manjar é a sua presença. Indiferente a qualquer calendário, quase se despede do seu jardim. Sábia Maria que cantava como um sabiá livre. Hoje, já não voa; não se refresca ao vento…

A vida passa como uma estação, mas diferente das quatro estações, não volta. É preciso viver o Verão sem reclamar do calor do Sol; é preciso saber fazer do frio o motivo para o agasalho e selecionar boas sementes para ter frutos no Outono e quando a Primavera da vida passar, que ela possa deixar rastros, mesmo em sépia, das belas flores que plantamos em nosso jardim. Mas o homem egoísta, cego, tolo, esquece-se que esta viagem curta tem hora para acabar. Seu calendário oculto traz uma surpresa no tempo: ser feliz é urgente!

Bendita seja Maria que soube dar alegria, que soube dar amor… De Maria, carregarei sempre, no coração e na lembrança, os carinhos recebidos no tempo da minha infância. Falava-me sempre com ternura. No seu olhar nunca faltou o carinho. Suas mãos, feitas para cuidar das flores, nunca se cansaram de cuidar do seu jardim. Plantou em todos, como fez com suas flores, um santuário, onde até hoje seus filhos, como fieis religiosos, a veneram e com ela rezam uma canção de amor.

Não deixe meu Deus, que se disperse de mim a felicidade de mirar o verde, de ouvir o canto das aves, o barulho das águas e ver o colorido das flores. Conserva em minha alma a Maria que também mora em mim.

Homenagem ao sorriso de Tia Maria, na passagem dos seus 99 anos (2 de setembro de 2010).

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    NAN GOLDIN
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    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Jarbas Martins: Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente