Sou o que leio

28 de fevereiro de 2010 às 15:37 - Comentar
Por João da Mata

A Zé Mindlin

Uma viagem pelos livros com o Catalão Enrique Vila-Matas

Leio com grande prazer os livros do Vila-Matas. Livros que falam de livros e de sua leitura, não-leitura e síndromes. Muitas síndromes e mortes. Uma literatura do não. Muitas citações de autores consagrados e outros inventados. Claro é, que para leitores mais exigentes, os livros ficam na superfície. As tardes planas nas ramblas de Barcelona, de que fala o escritor, são como as nossas vidas sem sal e novidades.

Para o autor, o essencial da realidade se encontra nos livros. Somos o que lemos. A vida sai dos livros e – por isso mesmo, é necessário ler os grandes autores e correr das toupeiras que abundam o cimo do monte. Os maus livros são um veneno intelectual que destrói o espírito, citando Schopenhauer. Às vezes tenho impressão de que surjo do que escrevi ( in Viagem Vertical).

Em o Mal de Montano ( todos os livros que leio do Vila são da CosacNaify) o escritor escreve um belo diário com os grandes personagens Rosa, Rosário Girondo ( auter-ego) e o feio Tongoy (numa alusão injusta ao grande Sancho Pança). O autor viaja por feiras de livros e festivais literários para saber de suas nulidades quando têm a pretensão de formar novos leitores. Vários escritores são referenciados e fazemos uma bela viagem pelos Açores, Lisboa, Barcelona, Budapeste, etc. Muitas citações dos diários de Gide, Walser, Musil, Kafka, F. Pessoa, Montaigne, etc. “ Desejo ser a memória da literatura”. Sofremos – também sofro- do mal da Montano. Do Mal que nos refugia na literatura. Ela, a literatura, nos oferece uma fuga da tirania da política, don trabalho e da família. E eu acrescento: das mulheres. O amor é uma ilusão. Depois das bodas de ouro de casamento, o protagonista de “A viagem Vertical”, é posto para fora de casa pela mulher e seu mundo desmorona. Os filhos não socorrem.

Por outro lado, o grande escritor portoriquenho Juan Ramon Jimenez, perde o prazer de viver depois que sua esposa Zenóbia falece. “Minha melhor obra é ao arrependimento da minha obra”. Nos livros existem muitas interseções e repetições, por vezes cansativas. São muitos escritores que entram no labirinto do não (Bartleby e companhia). Alguns escritores escrevem só um livro e deixam de escrever. A síndrome de Bartleby acometeu Rimbaud, Salinger e muitos outros grandes escritores.

Outros não escreveram nada, esses são os mais felizes. Na oficina OuLiPo
participam Perec, Queneau, Calvino, etc. Para eles a literatura em sai não afirma nada. Quem a procura, procura aquilo que lhe escapa. O grande escritor russo Tolstoi via a literatura como uma maldição no final de sua vida. Para o comedor de ópio Thomas de Quincey, era esse elemento a sua síndrome de Bartleby. Para Lobo Antunes, escrever é como se drogar, começa-se por puro prazer, e acaba-se organizando a vida como os drogados.

Marcel Maniere escreveu o “ Inferno Perfumado”, considerado o “ Quixote
da literatura do não”. E você caro leitor, de que sofre. Da síndrome de Bartleby ou de O Mal de Montano?

Também tem o paranóico que acha que todas as suas idéias são roubadas
pelo Saramago. Musil de “ O Homem sem qualidade” oferece um consolo para
todos nós, homens “pordiosero” (mendigos). A mais profunda associação do
homem com seu semelhante é a dissociação.

Só o sofrimento nos singulariza. “Enquanto se tem um sofrimento, tem-se
uma opinião própria (Lichtenberg). Meu sofrimento ninguém ver, sou diplomado na escola de sofrer, diz a letra de um grande samba. O Monsieur Teste do Paul Valéry é um dos livros mais citados pelo Villa-Matas. Para Valéry, a inteligência completa, equilibrada, fecunda sempre foi um caso insólito. . Na metafísica de Savínio, o homem divide seu afeto entre a inteligência (a amante, a grande desejada) e a estupidez ( a esposa, melhor, a consorte). Quem sou eu para discordar.

Fui. Ou melhor, li. E você caro leitor, prefere viver ou a literatura?

Comentários fechados.

AGENDA

  • O dia em que os manicacas caem na folia

    Prévia da troça Manicacas no Frevo ocorre hoje, com concentração às 18h no Bar de Pedrinho, no centro da cidade.

    aqui

  • Lançamento da Palumbo será hoje na Quinta Viva do Samba, no Centro Histórico

    Por Sérgio Vilar
    NO DIÁRIO DO TEMPO

    Todas as quintas-feiras têm sido motivo de samba no pé e boemia no Centro Histórico. E hoje não será diferente. O grupo Arquivo Vivo se iniciou timidamente no Buraco da Catita, subiu a ladeira até as adjacências do Beco da Lama para tocar de graça no Bar de Fátima e hoje ganhou a simpatia do público em frente ao Bar de Nazaré, onde fincou “morada” em mesa postada no meio da rua e sob as bênçãos de São Jorge. A partir das 19h o som começa. Tudo de graça e no gogó.

    mais informações »

  • Os vencedores do Prêmio Hangar 2012

    O Prêmio Hangar de Música 2012 promoveu uma solenidade à altura da importância conquistada pelo premiação nestes dez anos. Uma verdadeira celebração da música potiguar.

    aqui

  • OUTROS EVENTOS

POESIA

    Vagalume da Paz
    04-02-2012 às 8:12 - 2 Comentários
    Por Romana Alves

    Vaga vagalume
    Venha em cardume
    O mundo está escuro!
    Vire luz
    Traga paz

    COMENTÁRIOS

    • Anne Guimarães: Um poema ensolaradamente gris em tons de azul.... A vida simples e sagrada de quem encontra no mar a sua honra, a sua luz. Admiro tudo que eleva a vida de um pescador.... Lindos versos, bela vida natural potiguar! :) - Tarrafas
    • Anne Guimarães: Poeta Anil.... Sempre bom ler seus poemas.... Ouvir sua voz, receber sua alma.... "Abracei novas incertezas /Sussurro, nem sempre é gozo/ Só o agora é urgente" afff mexeram aqui dentro, rsrs. Esse também é o papel da poesia, motivar, emocionar, contar aquilo que a gente não disse , mas viveu ou vive - em silêncio - na quietude dos sentimentos mais intensos.Você sabe bem o que isso significa, vive poesia e respira versos na beleza do cotidiano sagrado. Beijos,querida! :) - Fio de luz
    • Anchieta Rolim: ...só o agora é urgente...Belo poema, Ednar. - Fio de luz
    • Anne Guimarães: Querida poeta-flor! ô coisa lindaaaa.... Lembrei agora de um poema de Carlos Nejar para sua filha Carla, em um dos versos sábios ele diz: " é no simples que as coisas são completas." É isso mesmo, quanto mais simples, mais doce, mais prazer nessa vida breve vida. Estarei sempre contigo, menina! Suas palavras serenas me mostram que - de uma forma ou de outra - é especial cada segundo de leitura aqui. Beijos no espírito. :) - Vagalume da Paz
    • Anchieta Rolim: Romana, é justamente isso que falta no mundo minha amiga, luz e paz. Bela poesia! Parabéns ! - Vagalume da Paz
    • Anchieta Rolim: Beleza de texto J. Paiva. Só espero que os meninos de hoje também sonhem com um Brasil melhor...Pois ainda há muito a ser feito.Parabéns! - Política de menino
    • Paulo César: Sr. Tácito, Pelo que eu saiba jornais não permitem a transcrição de artigos da forma como o senhor vem fazendo no seu site. Colocar um link é uma coisa, transcrever e fazer o leitor continuar no seu site, quando o artigo tem direitos autorais e está hospedado em outro local e tem regras de uso.O utilização da forma como o senhor vem fazendo denota pirataria, palavra muito em voga e contraditória, mas ainda passível de sanções pelas atuais leis do país. Não alerto apenas por alertar, mas sugiro consultar - se me permite a sugestão - um advogado para entender a sua situação atual(devidamente gravada e arquivada para uso, mesmo que esse e outros conteúdos sejam retirados do ar imediatamente). Com muito respeito, Paulo César - Viajantes e apaixonados em transe
    • Jarbas Martins: Qualquer seleção de poemas, antologia, florilégio, ou que outro nome tenha, sempre passou, no período histórico chamado de Modernidade, pelo crivo da parcialidade. Baudelaire, que além de poeta, era crítico de poesia, e da arte de um modo geral, sabia disso.O poeta e antologista Paul Éluard,à época da festiva revolução surrealista, tanto sabia que lançou a sua parcialíssima seleção - "Le Meilleur choix de poèmes est celui que l'on fait pour soi- 1818-1918". (A Melhor seleção de poemas é aquela feita para si mesmo -1818-1918"). Nestes rasos tempos da Pós-Modernidade - o prestígio, uma espécie de capital simbólico, segundo Bourdieu (e viva as lições do meu colega e amigo, professor-doutor Emmanuel Barreto), teria que entrar como um critério.O mercado assim determina.Daí a razão porque Ferreira Itajubá e Jorge Fernandes (mesmo com o aval de nomes como Luís da Câmara Cascudo,Mário de Andrade e Manuel Bandeira) - sempre são "esquecidos" das antologias feitas no preconceituosíssimo e longínquo Sudeste. Pobres, marginalizados e insulados em sua província submersa - não contam com uma "fortuna crítica" que merecem. - A identidade do verso brasileiro
    • Jairo llima: Fernando Monteiro está no centro do cânone de nossa literatura. Fico feliz de ser contemporâneo e conterrâneo deste artista. - As asas da noite que surgem (1)
    • Fernando Monteiro: Belo hai-cai, Poeta -- obrigado! -- com essa certeza, sempre, de haver sido LIDO, sim, quando o ouvido apuradíssimo da LEITURA (raridade rara - tautologia necessária) é não menos que o do Poeta que sucedeu, aí, em grandeza lírica, o querido (saudade!) Luís Carlos Guimarães: JARBAS MARTINS. - As asas da noite que surgem (1)