Sua Incelença Ricardo III

27 de novembro de 2010 às 10:27 - 4 Comentários

A obra de Shakespeare tem vilões para todos os gostos. Difícil é apontar qual o maior deles. Ricardo III, certamente, se destaca em qualquer lista que se fizer. A sordidez e carnificina que ele comanda são impressionantes. Não tenho certeza, mas acho que nenhum outro personagem shakespeareano é responsável pelo assassinato de crianças. Ricardo III, você lembra, manda matar, entre outros, os dois sobrinhos para reinar absoluto.

Ontem à noite fui assistir “Sua Incelença Ricardo III”, encenada pelo premiado Clowns de Shakespeare, com direção de Gabriel Vilela (ao lado do barracão do grupo, no final da Av. Amintas Barros, em Nova Descoberta). Permanece em cartaz hoje e amanhã (27 e 28) às 20 horas. Não perca, é um espetáculo ousado e que dará muito o que falar no país – em breve, o grupo inicia tournée nacional. Chegue cedo porque pode não ter lugar sentado, ontem estava superlotado. A encenação está ocorrendo num grande terreno, embaixo de três vistosas árvores, o que cria uma atmosfera meio mágica, de circo popular com teatro de rua.

A alteração no nome da peça e a foto que abre esse texto, com os atores rindo, dão pistas de que esse é um espetáculo diferente. É provável que deixe os shakespeareanos ortodoxos de cabelo em pé. Como não tinha lido nada a respeito da encenação levei um choque tremendo. Não são poucas as liberdades tomadas com relação à montagem. Da trilha sonora, que junta rock com o forró, a presença em cena do cangaceiro Jararaca. Os elementos cênicos, preponderantemente, remetem à realidade nordestina.

O que me causou mais espanto foi a diluição da tragicidade da peça original. Não há do que rir nesse texto de Shakespeare. No entanto, a platéia se diverte bastante em vários momentos. Principalmente, com a rainha Elizabeth, que encarna uma perua desbocada e que maltrata a língua portuguesa sem pena.

A peça surpreende desde o início, com as pinturas nos rostos e a dança inicial, ambas sinistras. Curioso é que esse impacto vai sendo suavizado no decorrer da montagem. As ignomínias e o banho de sangue provocados por Ricardo III, em alguns momentos arrancam… risos. E não lágrimas como seria de se esperar. O espírito alegre de um certo teatro de rua vigora na peça.

Escrevendo agora, lembrei-me dos filmes de Tarantino, principalmente, “Bastardos Inglórios”, onde o terror e a violência aparecem de uma maneira que nos incomodam de uma forma diferente da convencional como é geralmente mostrada na arte.

Visualmente, a montagem é muito bonita, figurinos de nuances fortes, que lembram as cores dos bois-de-reis. Gostei de todos os atores.

Embora não tenha repertório para uma crítica abalizada, portanto não se deixe levar por meus comentários, vá lá, assista e tire suas próprias conclusões, achei tudo muito massa e recomendo com entusiasmo.

Na saída, encontrei com o poeta Moacy Cirne, e trocamos algumas impressões. Seria ótimo se ele enviasse um comentário sobre o que achou da encenação. (TC)

No link abaixo tem um texto de Dib Carneiro Neto, publicado no Estadão, além de uma galeria de fotos do espetáculo.

aqui

4 Comentários

  1. Fernando Monteiro
    27 de novembro de 2010

    Viva!
    Tudo faz crer — inclusive pelas impressões do Merten, no seu blog do “Estadão”, a respeito do espetáculo — que essa montagem potiguar recoloca Natal numa das pontas avançadas do teatro brasileiro. Precisamos de mais releituras assim, de Shakespeare e outros clássicos, aqui no Nordeste — e de menos “estéticas de cangaços” e outras mofadas coisas já cansadas neste começo do século 21…

  2. 27 de novembro de 2010

    vi, não entendo nada de teatro e achei genial. Sem contar que não conhecia nada do texto, fora o que todos já conhecem: shakespeare, narrativa rebuscada, drama e violência e por aí vai.

    lindo, recomendo e tenho orgulho dos clowns.

  3. 29 de novembro de 2010

    Valeu Tácito, lindo post. Estamos muito felizes com esse trabalho e eu fiquei muito honrada e feliz de te ter na platéia, vc sabe o quanto te admiro. Beijo imenso.

  4. 29 de novembro de 2010

    Titina, não pude ir. Favor avisar quendo da próxima apresentação.
    Gostaria muito de assistir

Postar Comentário

AGENDA

Esposição de Ana Prata - Instituto Tomie Ohtake

A artista apresenta tanto telas pequenas, como também trabalhos grandiosos, usando o efeito de escorrido; até agora não acho razão para que alguns [leia mais]

Recital de piano com Guilherme Rodrigues nesta quinta - Entrada grátis

O professor da Escola de Música da UFRN Guilherme Rodrigues apresenta recital de piano esta quinta-feira no auditório da EMUFRN. O recital começa [leia mais]

Oboé, Música de Câmara e Tecnologia, de quarta a sábado na EMUFRN

Acontece de quarta a sábado desta semana na Escola de Música da UFRN o evento Oboé, Música de Câmara e Tecnologia. Na ocasião, [leia mais]

Exposição "Quixote com Rosas", será aberta quinta, na Galeria Newton Navarro

Será aberta quinta-feira, 17, às 18 horas, na Galeria Newton Navarro (sede da Fundação José Augusto - Rua Jundiaí, 641 - Tirol) a [leia mais]

Festival “Thomaz Babini” da Escola de Música da UFRN – 22 a 25 de maio

No mês de Maio um evento histórico acontecerá na cidade de Natal. Italo Babini (FOTO), violoncelista natalense, considerado um dos mais importantes violoncelistas [leia mais]

"Mattinata", de Fernando Monteiro, será lançado em Natal quinta-feira, 17

Anote aí na agenda: na próxima quinta-feira, dia 17, a partir das 19 horas, o escritor e pluralista Fernando Monteiro lança na Livraria [leia mais]

OUTROS EVENTOS

POESIA

    Névoa
    16-05-2012 às 9:40 - 7 Comentários
    Por Jarbas Martins

    Carl Sandburg

    Vem a névoa
    em breve pisar de gata.

    Queda-se olhando
    o porto e a cidade
    sentada em seu silêncio e
    esgueirando-se em seguida.

    (Tradução de Jarbas Martins)

    * * *

    Fog

    The fog comes
    on litlle cat feet.

    It sits looking
    over harbor and city
    on silent haunches
    and then moves on.

    (Carl Sandburg, “Selected Poems”, G.Books,1992)

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Amigo Carlão, Vejo com muita alegria a sua inquietação e leitura. Tb indico fortemente o livro .Jerônimo, A Técnica do Livro de autoria do grande Dom Paulo Evaristo Arns ( Sua tese de doutorado) , trad. de Cleone Augusto Rodrigues e prefácio de Alfredo Bosi . Belíssimo livro em capa dura Jeronimo traduziu a vulgata da biblia e é considerado o patronomo dos bibliófilos e amantes do livro. Saudações bibliófilas. ab imo corde - Help
    • edjane linhares: Muito lindo, Jarbas. A experiência do haicai, como Fernando nos lembrou, ajuda muito neste processo de contemplação e silêncio, ato solitário e sublime. Quero agradecer a homenagem às mães no seu último haicai (único vestígio da data por aqui). Aguardo coletânea deles. Um abraço. - Névoa
    • Jarbas Martins: Amigo Jóis: gosto da sua poesia e da sua prosa digressiva, inflada de saberes e sabores, biscoito fino para raros paladares.Nem precisava dizer isso, mas como em seu comentário você se reportou a um incógnito Aguinaldo Soares, usando termos utilizados por ele contra mim - deu-me vontade de voltar ao assunto. Repito mais uma vez: Aguinaldo Soares sabe escrever, e a expressão "sólida cultura" é tão infeliz que não me restou outra alternativa: pedi desculpas ao ilustríssimo desconhecido.Não conheço o Aguinaldo, mas presumo que ele, como eu, temos algo em comum: fizemos o curso de direito.Daí o nosso gosto pelas sentenças líquidas e certas. Abraços, Poeta ! - Ditirambo
    • Marcos Silva: Li um livro interessante sobre Jerônimo, A Técnica do Livro Segundo São Jerônimo, de Paulo Evaristo Arns - Help
    • Jarbas Martins: Tradução inventiva a tua, Marcos. Nenhuma novidade nisso. Você é um reconhecido mestre na arte tradutória. - Névoa
    • Jóis Alberto: O poema é bom! Afirmo isso, embora não tenha plena consciência do ofício de poeta. Porque se eu for intelectual, sou dos mais incompletos – em meio a preconceitos, totens e tabus, como vocês já tiveram oportunidade de ler mais de uma vez, aqui neste democrático SP. Além do mais, como posso ter sólida base cultural nesses tempos em que tudo que é sólido se desmancha no ar? Tempos de modernidade e amores líquidos, de fodas em excesso e entediadas, blasé até – foda blasé é ‘foda’! – de gente que trepa com a mesma rotina de quem escova os dentes, tema objeto das sátiras ingênuas de meia dúzia dos meus poemas eróticos. Ingênuas não só se comparadas às sátiras e poemas eróticos/pornográficos de um grande poeta, Bernardo Guimarães, por exemplo, mas ‘ingênuas’ também no sentido libertino, filosófico, da palavra ‘ingênuo’! Ou então as fodas são escassas como as leituras de gente que, se leram os gregos, leram em traduções, não no original, e fazem a pose erudita de quem muito entende esses clássicos da filosofia, da poética e da ética, da antiguidade greco-romana. O que danado é ‘inveja poética’? Se é inveja não é poética, nem ética! Porque a ética, é verdade, pode tratar da inveja, da emulação, mas a inveja despreza a ética. O que danado significa ‘fracasso moral da estética’? De qual moral estamos falando? Da moral burguesa? Sinceramente! Qual o poeta que não esconde a fonte onde bebe? Como poeta bissexto, escondo e revelo fontes. Sem maiores dificuldades coloco as cartas na mesa, porque nesse jogo de cartas – de cartas muitas vezes marcadas, e viciadas – uma das minhas cartas prediletas é a do coringa, do joker! Porém, como há muito não jogo nem pif-paf, buraco ou sueca, uso essa expressão ‘jogo de cartas marcadas’ como um dos inúmeros clichês que pululam por aí, em discussões de intelectuais de prestígio... - Ditirambo
    • Cássio: Biografia eu não sei, mas recomendo o filme do júlio bressane. No seu livro Cinemancia tem também uma tradução interessante da "epifania" de são jerônimo. - Help
    • Marcos Silva: Belo poema, bom poeta, boa tradução. Sugiro a alternativa: NÉVOA. Névoa vem em pés de gatim Senta e olha sobre porto e cidade ancas silêncio e se moveu - Névoa
    • Jarbas Martins: Tenho a honra e o dever de confessar que a tradução que fiz do poema "Dormire", de Ungaretti, publicado há alguns dias neste SP - teve a orientação do poeta Fernando Monteiro ! Obrigado, mestre Fernando, obrigado poetas Anne Guimarães e Lívio Oliveira. - Névoa
    • Nina Rizzi: "A capa já dá o tom da revista. Uma foto de Câmara Cascudo passeando de riquexó (uma espécie de carroça de duas rodas e movida a tração humana) em Moçambique, ao lado de uma pessoa não identificada. A foto - de autoria desconhecida - foi clicada em 1963, quando o folclorista estudava costumes e tradições africanos. As observações e anotações depois seriam o mote para o livro Made in África. A imagem foi cedida pela família. E a filha, Ana Maria Cascudo, escreve artigo contando as inúmeras viagens do pai, em um diálogo emblemático entre Natal e o estrangeiro." Viu, neguinho não existe não, ô rapá! - Tributo ao mar