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Suave travessia pelas coisas mínimas do dia

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Em que ponto da vida perdeu-se em mim a capacidade de sentir amor? Perdeu-se, realmente? Não sei dizer ao certo.  

Qual foi a última vez em que a primeira luz que entrou pela sua sala foi a solar? E a primeira vez em que a última luz do dia foi a da tela do seu celular?

Ontem, quando resolvi deixar de lado – apenas por uma noite – os comprimidos que me adormecem, e me entreguei sem medo à naturalidade dos sonhos, pensei: em que ponto da vida perdeu-se em mim a capacidade de sentir sono?

A sonora sensação úmida de deixar escorregar-se por dentro de meus olhos, o molho de partículas lúdicas que descansa o corpo e apazígua a alma, como um choro contido por conta de nascimentos e mortes? Não sei dizer ao certo.

O coração fica aos pulos, a cabeça estremece, a caixa dos olhos é vencida por tabela à força da vista inquieta. Mas amanheci.

Arrumar o filho pra escola, cantarolar músicas tristes com cheiro de café ao fundo, o sabor de pasta de dente na boca, os cabelos bem amarrados, a sala, a sala. O sol entrando ligeiro. Dar comida ao peixe.

Abstrair o som dos vizinhos: o misterioso idioma da moça de voz grave; os passos fortes que descem as escadas para o trabalho matinal; o barulho da bomba d’água abastecendo os vazios.

O quarto é amplo e não teme as esperas: só dois pés dançando sobre a cerâmica. As cores cozidas nas paredes – um tempero para os dias nublados. Solidões. Silêncios.

Lembrar de pagar as contas, trocar na loja a roupa que não serviu, comprar creme pra hidratar os cabelos, consertar o celular que recebeu sentença de morte.

Iara_SUAVE TRAVESSIA PELAS COISAS MÍNIMAS DO DIA

Sempre sobra um bocado de esperança de que a conta nunca se feche; e que não sejam definitivos os adeuses.

O noves fora da vida

Foi-me dada a sentença de vida e o relógio me avisa que é hora de lavar os pratos, arrumar armários, recolher o lixo. Mas também é tempo de andar pelas ruas da cidade com o sol na cara, atravessar fora da faixa, aventurar-se a gastar as últimas moedas com um café. Viver.

Qual foi a última vez em que você se permitiu viver? E a primeira vez em que se presenteou com o fôlego mais profundo da atmosfera? Tudo me leva aos nascimentos. Mas também às mortes.

A canção já diz: “O amor da gente é como um grão, uma semente de ilusão, tem que morrer pra germinar”.

Depois de ontem, quando me quedei ao sono dos ingênuos, que por muito pouco se iludem, achando que podem se libertar facilmente das amarras que a crueza da sobrevivência nos impõe, pensei: em que ponto da vida perdeu-se em mim a capacidade de sentir amor? Perdeu-se, realmente? Não sei dizer ao certo. Mas, ao me olhar no espelho hoje de manhã, tive a ligeira sensação de que não dá zero, o noves fora da vida.

Sempre sobra um bocado de esperança de que a conta nunca se feche; e que não sejam definitivos os adeuses; nem tão cheio de contudos, o amor. Porque hoje eu acordei me amando, refletida em cada pequenitude do dia; em cada pedaço inteiro de mim, esse imenso lago de águas profundas e fluidez terna, a cantar a ode infinita, controversa e deliciosa dos loucos pela vida.

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Iara Carvalho

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