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Tabuada dos nove

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Quando eu era pequena, uma das coisas mais difíceis do mundo era decorar a tabuada dos nove.

Eu também ficava muito confusa sobre quem era o pai ou o filho, quando se tratava de Deus e Jesus.

Bom, só bem depois foi que eu vim perceber que era a tabuada mais fácil do mundo. Bastava decorar a penúltima fila das tabuadas de 2 a 8, que estávamos ali, diante de toda a tabuada dos nove. Uma espécie de resumo das tabuadas anteriores.

Sempre que me deparo com situações difíceis na vida adulta eu me lembro dessa besteira. E penso que uma hora ou outra, independente da complexidade, os problemas se resolverão.

Meses atrás, quando eu assistia na TV aquele homem branco e feio, esbravejando palavras de ordem e recuperação dos Estados Unidos, revestido de um populismo falso e sem apresentar de fato soluções concretas e minimamente razoáveis para seu país, tendo expostas suas declarações misóginas e suspeitas de abuso sexual eu pensava: Não. Os norte-americanos não são malucos de eleger um sujeito como esse. Não acredito que isso seja possível.

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Que espécie de cidadão surgirá do caldeirão retórico de ódio e intolerância?

Mas foi.

E o que isso tem a ver com meus problemas?

Tem muito a ver quando eu percebo que o mesmo discurso de ódio está aqui!

Quando eu vejo que tudo e qualquer sentimento, pensamento ou reação que pareça ameaçar os privilégios dos brancos – ricos e ainda ‘donos’ simbólicos das capitanias hereditárias no Brasil – são rechaçadas com discursos de ódio.

O mesmo discurso que quer aniquilar com o multiculturalismo, com as vozes plurais das religiões, com as melhorias ou efetivação de direito das minorias, o discurso que quer acabar com a filosofia, a arte, a sociologia e o pensamento crítico nas escolas; o direito de ir e vir (e de ser e de amar) dos homossexuais, a militarização violenta da ‘ordem’, o direito à pluralidade de informações.

Então, eu vejo um representante desse do ódio a tudo que não é espelho, do ódio ao negro, ao homossexual, ao pobre, ao pensamento de esquerda, sendo eleito nos EUA, e vejo que aqui no meu país, gente com esse mesmo pensamento comemora e aponta um sujeito ainda mais perigoso que o Trump como possível candidato das eleições presidenciais em 2018.

Eu não vou dizer o nome dele aqui, porque me recuso mesmo.

Mas ele é pior que o Trump, porque em seu currículo nefasto ele ainda carrega nas palavras e gestos o fundamentalismo religioso.

Vivemos tempos de uma tabuada muito difícil.

Se Deus é pai e Jesus é filho, mas o filho é Deus ao mesmo tempo, isso não me parece mais um problema.

O que me aflige é que sejamos filhos de uma nação que mais odeia, do que pensa; uma nação que não consegue vislumbrar que direito não é só aquele adquirido para si.

Não existe amor numa nação misógina, homofóbica, racista, fascista, reacionária e que não consegue enxergar os outros números, as outras cores, e as outras aritméticas da vida.

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Sheyla Azevedo

Comentários

2 comments

  1. Alexandre Carvalho 23 novembro, 2016 at 11:00

    literalmente, uma sinuca de bico , tempos de exercitar a paciência sem a qual não temos com manter a sanidade mental neste confronto de bestas.

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