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	<title>Substantivo Plural &#187; Conto</title>
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	<description>CULTURA + IDÉIAS + INFORMAÇÕES</description>
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		<title>Da solidão</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Jan 2012 14:44:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José de Paiva Rebouças</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Paiva]]></category>
		<category><![CDATA[Solidão]]></category>
		<category><![CDATA[Vacas]]></category>

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		<description><![CDATA[
Nunca fui tão solitário quanto na infância. Vivia sozinho sem brinquedos imitando os mais velhos ou passarinhando no juremal. Dessa relação ficou uma saudade indizível. Vez ou outra tento encontrar com essa parcela de mim para um diálogo dos que faz chorar. Mas essas lembranças não se constituem sozinhas. Elas estão carregadas de significados e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2012/01/Linyuan-Wei-I-And-I.jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-39879" title="Linyuan Wei - I And I" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2012/01/Linyuan-Wei-I-And-I-464x433.jpg" alt="" width="464" height="433" /></a></p>
<p>Nunca fui tão solitário quanto na infância. Vivia sozinho sem brinquedos imitando os mais velhos ou passarinhando no juremal. Dessa relação ficou uma saudade indizível. Vez ou outra tento encontrar com essa parcela de mim para um diálogo dos que faz chorar. Mas essas lembranças não se constituem sozinhas. Elas estão carregadas de significados e outras imagens de avós, primos e irmãos que, àqueles dias, pareciam personagens do conto de fadas que era a minha meninice.</p>
<p><span id="more-39876"></span> Naquele mundo rural de cantofas e aroeiras eu era apenas outro animal. Não sei, mas tinha a sensação monástica de que não havia diferença entre nós e o gado. Tínhamos os mesmos instintos e atitudes de ação e de cansaço. Éramos um só povo.</p>
<p>Embora da latada pudéssemos ver as cercas que limitavam a nossa vida, a rotina se fazia num ritmo desacelerado que deixava o mundo muito maior do que ele é hoje. Era o tempo das abelhas no tanque da cacimba e das ovelhas remoendo a sombra do marmeleiro. O silêncio entupia nossas cabeças e enchia nossos ouvidos de moscas tristes.</p>
<p>O horizonte era azul e tinha fim. Imaginava que caminhando toparia na parede do mundo e poderia cavar na areia vertical que circundava minha cabeça. Engraçado que essa certeza do que tinha no final das minhas vistas persegue-me ainda hoje, assim como a decisão de partir procrastinada para o dia em que me dedicarei a essa atividade com todas as minhas atenções.</p>
<p>Não sei bem quando esse mundo começou a fugir de meus pés. Ainda alcanço meus olhos pequenos se afastando na carroceria de um carro em busca da rua onde estava o meu futuro, este, cheio de recordações. Nunca soube direito o que vim buscar neste lugar aqui fora, sei apenas que nunca encontrei nada que me devolvesse aquela falsa impressão domesticável das vacas retornando aos currais fingindo que não pensavam em nada.</p>
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		<title>Cartas para Maria: O segundo olhar</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Jan 2012 20:52:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José de Paiva Rebouças</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Cartas]]></category>
		<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Maria]]></category>
		<category><![CDATA[Paiva]]></category>

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		<description><![CDATA[
Menina no tapete vermelho, 1912. Felice Casorati ( Itália 1883-1963) &#8211; óleo sobre tela
Você é um mundo. Tive vontade de lhe dizer isso, mas não vi como. Deixei criar uma barreira tão densa entre a gente que não sei mais como transpô-la. Lembro de seus olhos pequenos e assustados, de quem vê a vida vindo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2012/01/felice-casorati-1883-1963girl-on-a-red-carpetby.jpg"><img class="aligncenter size-large wp-image-39045" title="felice-casorati-1883-1963girl-on-a-red-carpetby" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2012/01/felice-casorati-1883-1963girl-on-a-red-carpetby-464x428.jpg" alt="" width="391" height="360" /></a></p>
<p>Menina no tapete vermelho, 1912. Felice Casorati ( Itália 1883-1963) &#8211; óleo sobre tela</p>
<p>Você é um mundo. Tive vontade de lhe dizer isso, mas não vi como. Deixei criar uma barreira tão densa entre a gente que não sei mais como transpô-la. Lembro de seus olhos pequenos e assustados, de quem vê a vida vindo sem freios. Eu sou um pouco dessa vida e não sei ser diferente.</p>
<p><span id="more-39042"></span>Foi engraçada a surpresa do segundo olhar. Você é tão linda que, cá dentro, algo me faz orgulhoso. Sei que todas as filhas são lindas, mas você é linda mesmo, sem proteção alguma. Quando era criança, queria ser bonito também e acho que transfiro um pouco disso para você. Há coisas que você terá que nunca tive e é como se a sua conquista completasse os vazios que carrego.</p>
<p>Você é muito diferente. Muito mesmo. Eu, na sua idade, era apenas um menino.</p>
<p>Tenho muitos medos. O de ser pai é um deles. Quando você nasceu eu nem tinha 20 anos. Havia parado de estudar e abandonado as expectativas. Na verdade eu nunca soube o que queria ser e sempre me sentia sozinho.</p>
<p>Não dei o sorriso que sua mãe queria ao me dizer da gravidez. Não porque não amasse você, já amava antes disso, mas porque tinha medo que sua vida se tornasse como a minha. Escrever essas cartas tem a ver com tudo isso.</p>
<p>Essa dúvida insistente de não saber se o amor que lhe devoto tem a sua altura, me fragiliza. Quero muitas coisas de você, mas temo querer obrigá-la, mesmo inconscientemente, a fazer de sua vida uma extensão de meus sonhos. Mas também temo estar deixando passar a oportunidade de lhe ensinar sobre a vida e seus desígnios. Tenho minhas derrotas como exemplo. Não quero que chegue aos 30 sem ter certeza de sua própria vida.</p>
<p>Eu queria mesmo era saber como conversar com você. Queria ter menos medo de errar e preencher as brechas que vamos deixando. Mas você está crescendo muito rápido e eu não consigo mais entender o seu olhar. Às vezes, me sinto um completo estranho.</p>
<p>A pior coisa de ter filhos é não poder criá-los. Morar longe de você me torna menos pai. Cumprir apenas as obrigações sociais é triste. Isso não representa a paternidade que queria estar lhe dando. Deveria protegê-la como antes, quando passava a noite acordado vigiando o berço. Quando lhe deixava e pegava na escola. Mas a vida muda sem a gente perceber e eu sei que me distanciei mesmo quando tínhamos a mesma casa. Eu estava tão preocupado comigo que devo ter esquecido você muitas vezes.</p>
<p>Agora o que o que tenho é essa incerteza. Queria entender o que você vê quando olha para mim, mas tenho medo da resposta.</p>
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		<title>A violoncelista</title>
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		<pubDate>Mon, 19 Dec 2011 17:16:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José de Paiva Rebouças</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[a violoncelista]]></category>
		<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Paiva]]></category>

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		<description><![CDATA[
A violoncelista não está cansada nem desagradada, mas decidiu partir. Não há prélio, apenas decisão. Seu rosto é sereno como a sua voz. Cantaria se não tocasse. Decidiu tocar. Calou a plateia quando mergulhou entre os cisnes. Seus olhos cerrados. Seu corpo ereto assemelhava-se a seu instrumento. Sincronia. No meio da orquestra há um deserto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/12/cello341.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-38493" title="cello34[1]" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2011/12/cello341-340x226.jpg" alt="" width="340" height="226" /></a></p>
<p>A violoncelista não está cansada nem desagradada, mas decidiu partir. Não há prélio, apenas decisão. Seu rosto é sereno como a sua voz. Cantaria se não tocasse. Decidiu tocar. Calou a plateia quando mergulhou entre os cisnes. Seus olhos cerrados. Seu corpo ereto assemelhava-se a seu instrumento. Sincronia. No meio da orquestra há um deserto para sua presença e, nos olhos da plateia, um recanto para a sua perna desnuda até o joelho. Tudo o que existia era sua perna. E o inferno começava em seu joelho. Prelúdio. É possível ver a beleza de uma manhã fria laçada por um sol ridente que acorda sonolento descobrindo as pétalas com uma sutileza feminina. Há aves passeando sem pressa enquanto outras decolam em revoada. Silêncio e movimento. Como se o dia fosse um branco estirão e a noite uma intermitência, ela tocava. Cobria-se de suas lassidões e calava-se para si mesmo. Contrátil, erétil, instrumental. Havia um silêncio e após a valsa ela caminhou em procura. Deslocou-se entre os arcos e estantes. Desceu as escadas, subiu à plateia e deixou para trás as portas do teatro. Aplausos. Reverências. Mas ela caminhava e já não havia mais vozes, pois a noite era a veste negra como no terceiro ato. Suas pernas cruzavam-se, preguiçosamente, provocando os quadris, e o confronto de seu corpo com a brisa fria sobre o chão esquálido solfejava música, como numa sonata com um sem número de partes. Não há consolo, apenas decisão e a água é apenas uma réstia da lua. A plateia, agora retumbante, explode em fulgor. Bravo! E à estrada comprida, formam-se beirais de aplausos firmes. A sinfônica levanta-se como em um funeral e retoma a valsa acordando a cidade. A noite restringe-se à sua insignificância de noite e esmaece em sua extensão. Já não há mais tempo. A ponte é uma pele de rinoceronte e a água é dos afogados. A distância é um salto e o fundo é do príncipe pelo qual espera toda a sua vida de cisne. Alimentou-se de música como os infelizes e alimentou os infelizes de música. Suas margens sempre estiveram inundadas, mas imerso apenas o sonho de menina, travado em seu semblante orquestral de violoncelista. Branca, como asas abertas ao nascente, ela lança-se ao seu infinito. Olhos cerrados, corpo ereto feito um instrumento violado pelas pernas femininas até os joelhos. Pássaro conquistado pelas águas assemelha-se à correnteza com seu bordado de sombra. As luzes acendem e os aplausos cessam ante o emudecer da valsa. Sem orquestra não há amor nem sobreviventes.</p>
<p>(Música incidental: Valsa No. 2 do ballet “O Lago dos Cisnes” – Piotr I. Tchaikovsky).</p>
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		<title>Retorno adiado</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Oct 2011 00:38:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lívio Oliveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção]]></category>
		<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[
imagem Google
Nada do que a moça dizia chegava aos ouvidos moucos do velho, seu pai. Apenas um sibilo lhe provocara uma abertura súbita e ampla dos olhos perplexos e azuis, com as acinzentadas olheiras caindo até as maçãs barbadas do rosto.
Tudo dava prova de que o vetusto Dico “Baleeiro” não havia compreendido, sequer minimamente, a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://www.enciclopedia.com.pt/images/Shipwreckkml8.jpg" border="0" alt="Shipwreckkml8.jpg" width="329" height="212" /></p>
<pre><em><span style="color: #808080;">imagem Google</span></em></pre>
<p>Nada do que a moça dizia chegava aos ouvidos moucos do velho, seu pai. Apenas um sibilo lhe provocara uma abertura súbita e ampla dos olhos perplexos e azuis, com as acinzentadas olheiras caindo até as maçãs barbadas do rosto.</p>
<p><span id="more-36126"></span>Tudo dava prova de que o vetusto Dico “Baleeiro” não havia compreendido, sequer minimamente, a história por ela contada. A jovem senhora, assim vencida, parou, desistiu e recuou, já com o humor debilitado pela vã tentativa de persuadi-lo.</p>
<p>O velho, então, deu de ombros, voltou-se à balaustrada e ficou a olhar fixamente o barco que se aproximava do cais. Passou todo o tempo das manobras da embarcação estrangeira mirando a bandeira que tremulava pálida e com rasgões, lá no alto do mastro.Descobriu, mais cedo do que esperava, que aquela não era a nave marítima a que servira. Na verdade, o fundo do oceano a guardava já havia três dezenas de anos.</p>
<p>O capitão – pelo que todos ficaram sabendo – jamais abandonara o barco em naufrágio. Muito menos aquela que havia destinado profundo e verdadeiro amor aos dois homens de destinos tão diferentes.</p>
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		<title>Lugar de acontecimentos</title>
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		<pubDate>Mon, 10 Oct 2011 11:26:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Lívio Oliveira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção]]></category>
		<category><![CDATA[Geral]]></category>
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		<description><![CDATA[
“– Foi ali mesmo onde as coisas se passaram&#8230;”.
Nada demais como primeiras palavras de uma conversa, mas algo inusitado e indesejado mudaria completamente a história do interiorzinho perdido no tempo e no espaço e aquela seria sempre a primeira frase recorrente a ser dita nas rodas de fofoca provinciana: &#8220;– Foi ali mesmo onde as coisas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><img src="http://4.bp.blogspot.com/-ikkI3ufMTW0/TguP4HphKsI/AAAAAAAAABw/7Cc2FotmNxE/s1600/palha%25C3%25A7o+triste+2.jpg" alt="" width="291" height="273" /></strong></p>
<p><strong>“– Foi ali mesmo onde as coisas se passaram&#8230;”</strong>.</p>
<p>Nada demais como primeiras palavras de uma conversa, mas algo inusitado e indesejado mudaria completamente a história do interiorzinho perdido no tempo e no espaço e aquela seria sempre a primeira frase recorrente a ser dita nas rodas de fofoca provinciana: <strong>&#8220;– Foi ali mesmo onde as coisas se passaram…”. </strong></p>
<p><span id="more-36036"></span>Tudo estava acontecendo num ritmo que deixava os habitantes perplexos e os dias se sucediam sem que a gente do povoado pudesse compreender as razões da catástrofe. A família toda se via envolvida no problema. Somente o pai, austero e reservado, não tratava claramente do assunto. A cidade inteira já começava a se inquietar com a ausência de desfecho e a coisa se prolongava dolorosamente. Ninguém sabia as razões do acontecido e tudo ficava sob um sombrio manto de neblina.  Manhãs, tardes, noites&#8230; o calendário inteiro se destinava somente ao trágico tema.</p>
<p>Mas, isso não duraria tanto tempo assim&#8230;</p>
<p>Numa noite fria de domingo, a cidade minúscula recebeu um estranho falastrão, de passagem para uma vila próxima. Ao final de um porre colossal, havia dito mil segredos em meio às bizarrias que falava. Contara, defronte a duas translúcidas garrafas de cachaça e cercado de curiosos mal-intencionados, que conhecera um artista circense em fuga de um lugarejo e que esse tinha matado sua jovem noiva. O bêbado agora já contava tudo, tudinho, e a qualquer um, em troca de um dia de comida e roupas usadas.</p>
<p>Durante o discurso do bêbado, entrara no bar um homem grande feito um urso.  Era o pai da moça que havia sido morta em pleno picadeiro do pobre circo e diante de todo o público, numa manobra assassina e traiçoeira do outro trapezista.</p>
<p>Toda a história o velho ouviu calado e cabisbaixo num dos recantos do bar. A princípio, ninguém havia o identificado. Ao final de toda a conversa, o pai da morta saiu lentamente, quieto, ensimesmado como era usual no seu comportamento. Todos estranharam aquela atitude aparentemente distante. E só então reconheceram o homem, coberto pelo seu chapéu de palha e abas largas.</p>
<p>No outro dia, ao amanhecer, a pequenina cidade conheceu o último capítulo daquela malfadada novela: no circo – esmagado contra o chão do picadeiro – estava aquele homem enorme, o pai da falecida trapezista. Sucumbira à própria culpa ao saber que a jovem mesma implorara ao seu amado o desfecho terrível que teve a sua curta vida. Uma existência encoberta por mistérios insanos.</p>
<p>Alguém, lá fora do circo – talvez um palhaço triste – dizia em voz baixa e sussurrante, apontando para o picadeiro: <strong>“– Foi ali mesmo onde as coisas se passaram&#8230;”</strong>.</p>
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		<title>Ensaio sobre o aborto II</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Sep 2011 16:32:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>José de Paiva Rebouças</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Aborto]]></category>
		<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Paiva]]></category>

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		<description><![CDATA[No dia 6 de abril de 1998, Marluce de Elsa realizou o sonho de toda mulher: informou à patroa que procurasse outra empregada, pois tinha engravidado e, no mês seguinte, se casaria com Jacinto Pedreiro. Os dois já tinham alugado uma casa perto de sua mãe e se mudariam para lá assim que assinassem seu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No dia 6 de abril de 1998, Marluce de Elsa realizou o sonho de toda mulher: informou à patroa que procurasse outra empregada, pois tinha engravidado e, no mês seguinte, se casaria com Jacinto Pedreiro. Os dois já tinham alugado uma casa perto de sua mãe e se mudariam para lá assim que assinassem seu nome no cartório. Não houve recusa frente ao milagre. Marluce ficou grávida e noiva tendo mais de 40 anos, depois de muitos abandonos.<br />
<span id="more-34908"></span>Os dias seguintes foram de arrumação e preparatório para os noivos que, em setembro, já tinham rotina. A casa sempre limpinha e as refeições prontas e quentes toda vez que Jacinto saia ou chegava. Esperançosos, guardavam, todo mês, uma pontinha do que sobrava para comprar o terreno onde levantariam sozinhos e sem pressa, a bendita casa própria. A conta foi feita na cabeça: um lugarzinho pequeno, apenas dois quartos, uma despensa para as ferramentas do pedreiro e uma cozinha grande para Marluce passar os dias cozinhando, passando e recebendo a mãe e a irmã.<br />
No final de uma manhã de outubro, Jacinto foi chamado às pressas à maternidade, onde sua esposa havia dado entrada. Foi amparado por Elsa, sua sogra e Marleide, sua cunhada. Marluce tinha abortado um menino que poderia ter sido saudável. Mesmo desconsolado, o marido segurou firme a mão da esposa sem dizer uma só palavra. Os gestos exprimiam apoio e garantia de que o acidente não mudaria os planos combinados. O médico de plantão ainda teve coragem de dar o golpe de misericórdia. Marluce não havia se submetido apenas a uma curetagem, mas também a uma histerectomia.<br />
Houve silêncio e lágrima das mulheres. Dois dias depois, Marluce foi levada para casa, onde ficou sob os cuidados da mãe e da irmã. Os dias seguintes foram de tristeza e muita febre, carecendo de um esforço grande dos três para manterem-na viva. Passados dois meses, Marluce ainda não tinha disposição suficiente para cuidar de casa. Estava magra e anêmica e precisava de atenção constante, mas Jacinto tinha de trabalhar. Por muitas vezes, ele precisou bater na porta da sogra para pedir apoio, tanto, que um dia, confessou que queria as duas morando em sua casa. A situação da mulher não tinha melhora.<br />
É certo que não se olhavam muito nas primeiras semanas, mas aos poucos foram se acostumando uns com os outros. Um ano depois, ele começou, sozinho, a bendita construção da casa própria. Sogra e cunhada se revezaram para ampará-lo. Assim que conseguiram levantar as paredes, cobrir e puxar o piso morto, mudaram-se. O projeto ficou diferente do planejado no início. Jacinto abriu mão da dispensa que seria para as ferramentas e fez outro quarto, próximo da cozinha, para a sogra. Queria abrigar todo mundo. O cuidado do marido com a mãe e a irmã deixou Marluce emocionada, embora vivesse triste por não ter mais vida além da cama e da cadeira de balanço da sala.<br />
A rotina foi retomada e a harmonia entre os quatro fez Marluce voltar a dormir. Agora não perturbava tanto como antes e permitia que Jacinto e o resto da família sossegassem a noite toda. Certa madrugada, ela sentiu-se vazia na cama e espantou-se com a ausência do marido. Olhou a casa e não viu luz acesa. Olhou o relógio, era cedo demais para o trabalho dele. Esperou pelo seu retorno que não aconteceu. Então, com muito esforço, levantou-se da cama e arrastou-se até a cozinha. As portas estavam fechadas e, no último quarto, sua mãe ressonava. O coração foi atravessado por uma dor aguda. Aproximou-se com dificuldade da cortina que servia de porta para o quarto de Marleide e ficou ouvindo, por alguns minutos, a agonia dos dois entre os lençóis. Mas voltou para a sua cama.<br />
Antes de o sol aparecer, Jacinto voltou ao quarto sem qualquer preocupação.<br />
Onde você estava? Perguntou Marluce.<br />
No outro quarto, respondeu sem segredos.<br />
Ela está?<br />
Sim, dois meses.<br />
Eu posso escolher o nome?<br />
Acho que sim, vou pedir a ela.<br />
E mamãe?<br />
Ela já sabe&#8230;</p>
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		<title>Firmina</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/firmina-2/</link>
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		<pubDate>Tue, 05 Apr 2011 11:45:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>João da Mata</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[Eita Demetrio; O conto você sabe,  é o menino pequeno dos gêneros literários.
Seu conto enxuto. Você deixou de ser gente grande fazendo poesia de viagens  pelo mundo  e de gente grande e voltou a ser criança escrevendo conto. Isso é bom e eu gosto.
Seu conto tem ambientação, narra uma realidade e visualiza [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eita Demetrio; O conto você sabe,  é o menino pequeno dos gêneros literários.<br />
Seu conto enxuto. Você deixou de ser gente grande fazendo poesia de viagens  pelo mundo  e de gente grande e voltou a ser criança escrevendo conto. Isso é bom e eu gosto.<br />
Seu conto tem ambientação, narra uma realidade e visualiza tipo e paisagem.<br />
Sugiro que continue nessa linha.  Parabéns !</p>
<p>ps. não consegui postar em comentário</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>O filho pródigo (conto)</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/o-filho-prodigo-conto/</link>
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		<pubDate>Mon, 26 Jul 2010 17:10:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Tácito Costa</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Lucas Feat
Até os oito anos acho que eu era um pouco covarde. Mil novecentos e noventa e quatro, eu acho. As pessoas aqui dizem que eu sempre fui muito precoce, sabe como é. Tenho certeza que acham isso porque já me viram falar sozinho algumas vezes. Poucas, mas precisas vezes. Eu sempre gostei de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por Lucas Feat</strong></p>
<p>Até os oito anos acho que eu era um pouco covarde. Mil novecentos e noventa e quatro, eu acho. As pessoas aqui dizem que eu sempre fui muito precoce, sabe como é. Tenho certeza que acham isso porque já me viram falar sozinho algumas vezes. Poucas, mas precisas vezes. Eu sempre gostei de ficar horas a fio, solitário, tentando decifrar códigos e metáforas em letras de música: “Vamos usar um extintor como lençol”; ou seja, quer dizer que as pessoas podem usar um cobertor na falta de instrumento para apagar o fogo. Ou então elas devem fazer amor sem um cobertor, porque ele acaba por apagar o fogo. Na verdade aprendi a gostar de onde estou, (um quarto só meu com televisão colorida) porque quando eu cheguei por aqui resolveram me deixar na pior sala do lugar, uma jaula quente e mofada, infestada de ácaros nas camas, as paredes chapiscadas e faltando reboco, cheia de pernilongos chatos bem no meio do mato insolente do cerrado, quase à beira de uma morte tediosa e in sólita. O que me preocupa mais, é saber os reais motivos da minha vinda para a clínica. Não todo mundo, mas a mim mesmo. Engraçado é que tudo parece que aconteceu numa vida inteira. Quando eu completei oito anos, bem no dia do meu aniversário, bem na hora que eu assoprava oito velas azuis enterradas em cima de um bolo branco e enorme cheio de cerejas médias (eu sempre odiei cerejas, mas mentia para minha mãe) eu quis ficar invisível pela primeira vez. Eu não me lembro de ter passado despercebido antes, porque eu era muito pequeno. O lance é que, naquele dia eu estaria invisível e aquilo de fato marcaria minha vida para sempre. Todos estavam ao redor da minha mesa e eu, sendo o protagonista do dia, estava feliz porque era o meu dia. Já passavam das sete da noite e todo mundo batia palmas e assobiava e gritavam meu nome, eu tinha um bolo, amigos e minha mãe. Quando todos terminaram de cantar parabéns eu apaguei minhas velas e minha mãe acendeu a luz, foi quando eu vi l</p>
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		<title>Concurso de Microcontos do Abletras</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Jul 2010 12:58:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Tácito Costa</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[ABL divulga resultado do Concurso de Microcontos do Abletras – Conto sobre traição e ódio é o grande vencedor.
Conto vencedor:
&#8220;Toda terça ia ao dentista e voltava ensolarada. Contaram ao marido sem a menor anestesia. Foi achada numa quarta, sumariamente anoitecida&#8221;. Bibiana Silveira Da Pieve, do Rio de Janeiro
aqui
]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>ABL divulga resultado do Concurso de Microcontos do Abletras – Conto sobre traição e ódio é o grande vencedor.</p>
<p>Conto vencedor:</p>
<p>&#8220;Toda terça ia ao dentista e voltava ensolarada. Contaram ao marido sem a menor anestesia. Foi achada numa quarta, sumariamente anoitecida&#8221;. <em>Bibiana Silveira Da Pieve, do Rio de Janeiro</em></p>
<p><a href="http://www2.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=10369&amp;sid=672" target="_blank">aqui</a></p>
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		<title>A Queda dos Anjos</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Jun 2010 20:00:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudia Magalhães</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[www.teatroclaudiamagalhaes.blogspot.com
Ilustração: A queda dos Anjos (Marc Chagall)
 
Morrerei, pontualmente, às dezoito horas. Hora da queda dos anjos que, quebrando suas máscaras, fazem lobos uivarem na terra. A minha alma branca, mistura das cores e manchas do meu passado, partirá vendo o Sol, com seu hálito quente, levantar a saia da Lua e entregar-lhe os desejos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><a href="www.teatroclaudiamagalhaes.blogspot.com" target="_blank">www.teatroclaudiamagalhaes.blogspot.com</a></strong><em><br />
Ilustração: A queda dos Anjos (Marc Chagall)</em></p>
<p><a> </a><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/06/marc-chagall.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-19058" title="marc chagall" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/06/marc-chagall-300x240.jpg" alt="" width="300" height="240" /></a></p>
<p>Morrerei, pontualmente, às dezoito horas. Hora da queda dos anjos que, quebrando suas máscaras, fazem lobos uivarem na terra. A minha alma branca, mistura das cores e manchas do meu passado, partirá vendo o Sol, com seu hálito quente, levantar a saia da Lua e entregar-lhe os desejos da saliva do dia, fazendo-a parir estrelas.<br />
<span id="more-19056"></span>Não! Não faço uso do deboche, nem perdi o juízo, aceito minha loucura e por isso considero-me são. Vivo de saudades e de milagres e afirmo que, pontualmente, às dezoito horas, soltarei a vida e descobrirei caminhos ocultos. Na companhia de uma bebida qualquer, papel e caneta, escreverei a última palavra do meu último verso e, nesse instante, Ela chegará com o seu amor hipnótico, me beijará apaixonadamente até que eu perca os sentidos. O meu corpo em riso libertará minha alma com tamanho desprendimento, capaz de fazer chorar a mais terrível das criaturas. Em seguida, a seguirei devagar, sem nenhum alarde, pois assim fazem os que sabem morrer.<br />
Ah, Morte amiga! Amiga eterna! Razão da nossa infância, mocidade e velhice. Testemunha única e silenciosa de todos os nossos atos, sem perdão ou punição. O que eu era antes da tua existência? Loucura minha&#8230; Tudo nasce e morre, menos você, única certeza, presente ou ausente. Desde que você levou o meu amor, há seis meses, aguardo sua chegada feito um morto-vivo. Quantas milhares de alegrias eu tinha e em todas esse amor estava presente! Vem, afasta-me dos cansaços da vida e deixa-me beijar aquela que amo e que, agora, veste-se de asas e desejos que fogem da terra. Leva-me docemente ao seu encontro, deixa-me dançar em seus braços e, juntos, amaremos tua simplicidade sobre uma estrela qualquer. Faremos amor sem os limites da carne, somente o comando das nossas vontades em febre sob o teu perfume de flores. Se bater em nossos corações alguma tristeza, não há de ser nada, é a dor da ausência indo embora. Deixa-nos chorar por alguns instantes, vista-nos de sonhos e depois por ser você a solidão, essa enorme vontade de ir, nos esqueça. Seremos, então, inspiração para os poetas, bêbados e loucos, únicos que sabem amar com dignidade. Ah, espera! Doce e amarga espera! Adeus!</p>
<p>Ele abandona a caneta sobre o papel, transpira muito. Com o coração explodindo na garganta observa, finalmente, o relógio da parede marcar, pontualmente, dezoito horas. A ansiedade em sua alma é tão grande que lhe causa dor física. Abre a gaveta do velho birô de madeira e, segundos depois, ouve-se o barulho do tiro.<br />
O fim tão desejado não vem de lugar algum. A queda violenta faz nuvens pesadas e cinzentas esconderem as estrelas, trazendo a chuva que, nesse momento, para muitos, não é bem-vinda. Ele é derrotado por completo. Nenhum canto de amor, nenhuma posse ou território marcado, somente uma eterna agonia solta pelo espaço e que, a todo instante, pousa na terra que apaga as pegadas e guarda a verdade da carne, o pó, e a verdade dos homens, o tudo e o nada, provando que mesmo sem a sua existência ela continua a girar.</p>
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		<title>A Primeira Mulher de Deus</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Jun 2010 01:53:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudia Magalhães</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ficção]]></category>
		<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[deus]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>

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		<description><![CDATA[www.teatroclaudiamagalhaes.blogspot.com
 Nas primeiras horas do anoitecer de uma sexta-feira, depois de desejar fortemente fugir daquele maldito lugar, a primeira mulher de Deus sentiu nascer do centro das suas costas, um enorme par de asas negras. Descobriu, então, que a liberdade nasce no centro escuro de todas as coisas, onde moram os desejos mais secretos, nas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><strong><a href="www.teatroclaudiamagalhaes.blogspot.com" target="_blank">www.teatroclaudiamagalhaes.blogspot.com</a></strong></em></p>
<p><a> </a><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/06/asa2.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-18667" title="asa2" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/06/asa2.jpg" alt="" width="193" height="219" /></a>Nas primeiras horas do anoitecer de uma sexta-feira, depois de desejar fortemente fugir daquele maldito lugar, a primeira mulher de Deus sentiu nascer do centro das suas costas, um enorme par de asas negras. Descobriu, então, que a liberdade nasce no centro escuro de todas as coisas, onde moram os desejos mais secretos, nas tocas, nos cárceres, nos lugares fechados, onde a saída não é visível ao olhar humano.<br />
Amava Deus com todas as suas forças. Ele, na sua infinita bondade, dera-lhe a vida, e sentia-lhe uma enorme gratidão por isso. Ensinara-lhe tudo. Falou-lhe da existência do diabo, seu maior inimigo, e do seu enorme poder de sedução. Disse-lhe que ele habitava nas terras além do abismo e, que deixar-se seduzir por ele, só lhe traria grande dor, grande tormento. Inexplicavelmente, a partir desse momento, desejou fortemente conhecê-lo. Condenada a viver isolada naquele lugar chamado Paraíso, pensava, dia e noite, numa maneira de atravessar o abismo e fugir da solidão.<br />
<span id="more-18666"></span>Certa noite, deixou-se cair sobre a terra úmida e ficou contemplando o céu vestido de estrelas. Leve-me com você!, Pensou ao observar uma delas cair. Nesse momento, sentiu o seu corpo elevar-se do chão. Um enorme par de asas negras, úmidas de sangue, nascia em suas costas. Sem raciocinar sobre o ocorrido, sentiu-se carregada para o invisível e, com o coração em febre, alçou vôo pela noite fria, deixando para trás uma chuva rala de sangue. Era a liberdade que se levantava ao vento, que se movia no compasso do seu ventre. Agora, sou eu quem me persigo, pensou, sonhando com um mundo novo, cheio de novas possibilidades. Perdeu-se no deserto. Exausta e com olhar cheio de espanto, viu uma nuvem de poeira tomar a forma de um belo homem. Era ele, o diabo. Ele a olhava de uma maneira que lhe fez gelar os ossos. Estou perdida, pensou desejando fugir dali. Tenho sede, ele falou docemente. Ofereço-te as minhas águas, não para matar a tua sede, mas para roubar a tua calmaria. E, por livre escolha, prendo-me em tuas pernas de fogo, rodeada de respostas. Esta noite, te amarei&#8230; Na tua sombra, esconderei os meus medos, aliviarei o meu pranto. Quando a luz nascer, gritarei ao mundo que ressuscitei no gosto das maçãs, respondeu, tentando fugir da solidão. Uniram os seus destinos. Sob o céu aberto, com gosto de vinho, as suas línguas, demoniacamente puras, uniram-se, acendendo fogueiras, penetrando mundos invisíveis, anulando o bem e o mal. Em busca do amor, ela ofereceu-lhe o que tinha de mais sagrado, a sua cruz: a sua boca, o seu sexo e os seus seios. E, nessa cruz, morreu por amor&#8230;<br />
Depois de algumas horas, ela acordou. Procurou o seu amor e não o encontrou. As horas de loucuras impensadas deixavam, agora, uma enorme tristeza, um grande vazio no seu coração. Precisava fazer o céu voltar e com ele o seu amor. Procuro aquele que perdi, mas aquele que perdi não me procura, pensou sem desistir da sua busca. Passaram-se meses. Grávida, prestes a dar a luz, ela ainda o procurava. Arrancou-me o coração, os olhos, o sexo! Ávido de sangue, possuiu as minhas carnes e todas as noites, me persegue. Em fuga, o experimentei, e ele nunca mais sairá de mim, porque ferida de amor eu estou!, pensou mergulhando na loucura.<br />
Nesse imenso vazio, ela trouxe ao mundo o seu filho, o fruto do seu pecado. Em seguida, sentiu-se arrastar, por forças desconhecidas, invisíveis, até uma grande cruz . Nela, com o corpo em chamas, gritou em desespero: Deus, por que faz isso comigo? O amor e o pecado habitam em mim. É esse o meu castigo? O primeiro não me trouxe nada de bom. O segundo, intitulado Satanás, nada mais é que o meu instinto de viver. Por que me criastes imperfeita e com sabedoria? Porque me criastes das fezes, do excremento, ao invés do pó puro? Não me livrei da luz, foi ela quem fugiu de mim&#8230; Sou feroz no amor como também no ódio. Quando entro numa rixa, não admito insultos. Maldita armadilha! Mesmo que, em minhas sucessivas vidas, queimem a minha anca viva, seguirei em busca do amor&#8230; Não tenho saída&#8230; Sabes que toda a alma almeja a companhia de outra que lhe complete&#8230; Maldito! Trouxestes o amor para o meu espírito feminino e, a partir desse momento, não haverá paz, nem para mim, nem para os homens!&#8230;<br />
Nesse momento, o Diabo, observando-a ser consumida pelas chamas, flutuava sobre as águas, refletindo, nelas, a sua outra face, a sua porção divina, a sua imagem de Deus, que satisfeito com a sua criação, sorria, tremendo de felicidade.</p>
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		<title>Os vieses do amor</title>
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		<pubDate>Mon, 31 May 2010 02:09:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Tânia Costa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Sexo]]></category>

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		<description><![CDATA[
Para meu amigo Eduardo
Na vingança e no amor a mulher é mais bárbara do que o homem. Friedrich Nietzsche
Havia quase uma década que eu estava com o Victor, por quem nutria verdadeira paixão.
Chegava a ser vício o desejo que sentia por ele. Seu cheiro, sua pele, o odor que exalava das suas axilas, cheiro bom [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/05/casal-1.jpg"><img class="aligncenter size-medium wp-image-18383" title="casal 1" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/05/casal-1-228x300.jpg" alt="" width="228" height="300" /></a></em></p>
<p><em>Para meu amigo Eduardo</em></p>
<p><strong><em>Na vingança e no amor a mulher é mais bárbara do que o homem. Friedrich Nietzsche</em></strong></p>
<p>Havia quase uma década que eu estava com o Victor, por quem nutria verdadeira paixão.<br />
Chegava a ser vício o desejo que sentia por ele. Seu cheiro, sua pele, o odor que exalava das suas axilas, cheiro bom de homem! Tudo nele me excitava e rescindia a sexo &#8230;</p>
<p><span id="more-18382"></span> Eu só pensava “naquilo” o tempo todo. E por “aquilo”, cometia as mais inventivas e insensatas “loucuras de amor”. E Victor embarcava em todas elas.<br />
Até que um dia algo aconteceu que imprimiu um novo rumo às nossas vidas.<br />
Algo que fez com que eu revelasse uma faceta da minha natureza que eu não haveria de supor existir.<br />
É melhor que eu conte logo antes que os detalhes esfumem-se frente ao caráter intermitente das recordações.  É o que vou relatar agora!<br />
Sempre escutei dizer por aí que a vingança é um prato que se come frio. De minha parte, não foi bem assim que as coisas aconteceram&#8230;<br />
Morava em uma casa que abrigava na parte térrea o escritório do meu marido Victor, que era advogado. Entre idas e vindas, sempre encontrava uma colega sua, também advogada. Intrigava-me o fato de, nessas ocasiões, ela fazer questão de frisar que estava com muito trabalho em seu escritório. Eu me perguntava: Então, por que está sempre aqui? Comecei a ficar intrigada.<br />
Um dia desci para chamá-lo para o almoço e, chegando lá, antes que tivesse tempo de bater à porta, esta se abriu e lá estava ela saindo, acompanhada por ele. Ao ver-me, não me encarou e serpenteou com o corpo, evitando tocar em mim. O desenho sinuoso de uma cobra passou como um flash em minha mente.<br />
A partir deste dia fiquei com as “antenas” bem ligadas. Igual a bicho quando fareja o perigo iminente.<br />
Uma noite de domingo cheguei mais cedo em casa e fui direto para o quarto.<br />
Passado algum tempo, escuto o barulho do portão abrindo na parte inferior. Imaginei tratar-se de Victor que chegara e, certamente, deveria ter ido concluir algum trabalho em seu escritório.<br />
Após um quarto de hora, desço para ir ao seu encontro. Ao chegar à frente do portão, deparo-me com gemidos vindos lá de dentro.<br />
Desesperada, corro, dando a volta ao redor da casa até chegar à janela que ficava do outro lado e, na ponta dos pés, me penduro.<br />
Vejo Victor da cintura para cima, em pé, completamente nu em movimentos compassados de vaivém.<br />
Victor transava com alguém! Eu não consegui ver quem era.<br />
Desesperada: _  Meu Deus! Mas quem será?<br />
Grito para que Victor abra a porta. Silêncio&#8230;<br />
_ Victor, abra! Gritei novamente, e nada. Nenhuma palavra.<br />
Quanto mais chamava, mais silêncio se fazia ouvir lá dentro. Insisto. Deixo claro que não vou arredar o pé dali até que ele saia.<br />
Fico à espera ao lado do portão até o momento em que ele chega, cabisbaixo.<br />
_ Quem está com você? Victor não responde.<br />
_ Vou ficar aqui. Uma hora ela vai ter que sair.<br />
Passado um bom tempo, ela aparece. Olha-me furtivamente e ligeira vai embora.<br />
Lembrei do movimento sinuoso da serpente que vira dias atrás, era a própria.<br />
“Uma cobra me picou”! É Rosa!<br />
Depois, já no quarto, não preciso dizer que, enfurecida, chorei, xinguei, esmurrei, e ele, passivo, sem esboçar reação ou dizer palavra, nenhuma explicação.<br />
O que mais me indignava era o fato de tê-la trazido para o mesmo espaço em que morávamos. Quando falei isso, ele veio com essa: _ Quer dizer que se fosse em qualquer outro lugar, tudo bem! Não acha isso hipocrisia?<br />
_ Ah, isso não! Eu não concordava com ele. Só que, trazer em casa, era de um peso muito maior.<br />
Passei a dormir em outro quarto. Cogitei ir embora e, por vários dias, evitei dirigir-lhe a palavra.<br />
O veneno da amargura abrigou-se em mim. Assim, a idéia da vingança foi se assomando dia após dia.<br />
Não sei ao certo quanto tempo se passou, até o dia em  que ocorreu um evento em nossa casa, e diversas pessoas vieram, inclusive ela, com o namorado que acabara de sair do hospital onde estivera internado por algum motivo que ignoro.<br />
Eu servia vinho aos convidados e, ao passar em sua frente, ignorei-a e ofereci ao seu namorado. Ela sorriu sem graça. Aproveitei o momento e, de súbito, disparei: _ Mas você não tem vergonha na cara, não é mesmo?  Bela cara de pau a sua. Pego você trepando (de forma proposital utilizei este termo!) com Victor em minha casa e você ainda volta aqui! Você é muito descarada.<br />
Seu namorado, estarrecido, quedou paralisado, tamanha a surpresa. Parece que demorou a entender o que se passava. Minutos depois, o vi sair feito um foguete com ela correndo atrás.<br />
Naquela mesma noite, na cama com Victor, exultante, transbordando de satisfação, contei-lhe o que acabara de fazer. Ele pareceu não se abalar nem um pouco. Demonstrou indiferença em relação àquela. Isso sim me surpreendeu, fazendo-me refletir sobre a frieza com que os homens tratam desses assuntos.<br />
Mas que me importa! De minha parte, experimentava um sentimento novo, prazeroso&#8230; Fazendo com que eu desconhecesse a mim mesma.<br />
Cavalgando sobre Victor, umedeci os lábios com a ponta da língua, deixando escorrer um fio de saliva boca abaixo e, languidamente, falei: _ Sabe o que é isso? É veneno. Ofereci-lhe minha boca que, entreaberta, foi sorvida por Victor. E ciciando-lhe ao ouvido: _ Ah, meu amor! Nunca pensei que a vingança pudesse ter esse sabor, amarga e doce ao mesmo tempo.<br />
Victor completamente entregue&#8230;<br />
Victor só para mim&#8230;<br />
Vertiginosamente sorvido&#8230;<br />
Victor meu amor!&#8230;<br />
Pudesse morrer, não morria, imortava&#8230;<br />
&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;</p>
<p>Bem que essa história poderia terminar aqui não é mesmo?<br />
Mas por que, se eu posso ir ainda mais longe? Pois foi exatamente o que fiz.<br />
É, meu caro leitor! Eu ainda não estava satisfeita, queria mais. O melhor da festa ainda estava por vir. Como já foi dito antes, a vingança é um prato que se come frio. Pois, em vez de frio, eu preferi oferecer um prato quentinho, quentinho&#8230;<br />
_ Sabe Mário, melhor amigo e parceiro de trabalho de Victor? Aquele que andava sempre lá em casa!<br />
Embora discreto, não me escapou. Quando me olhava, sutilmente despia-me com o olhar.<br />
Então, você acha que essas coisas passam despercebidas a uma mulher?<br />
Pois bem! Dei início a  um jogo de sedução igual cobra quando quer engolir passarinho e o hipnotiza. Não demorou muito para atraí-lo para a cama (do casal, claro!).<br />
Nessa ocasião, vesti uma sensual lingerie vermelha e dancei para ele como fizera muitas vezes para Victor.<br />
Dancei ao som de Marisa Monte.<br />
Assim! Volteando os quadris e os ombros em movimentos compassados de um lado para outro:</p>
<p>“Bem que se quis<br />
depois de tudo ainda ser feliz<br />
mas já não há caminhos pra voltar.<br />
E o que é que a vida fez da nossa vida?<br />
O que é que a gente não faz por amor?</p>
<p>Mas tanto faz,<br />
já me esqueci de te esquecer porque<br />
o teu desejo é o meu melhor prazer<br />
e o meu destino é querer sempre mais,<br />
a minha estrada corre pro seu mar</p>
<p>Agora vem pra perto vem<br />
vem depressa vem sem fim, dentro de mim<br />
que eu quero sentir<br />
o teu corpo pesando sobre o meu,<br />
vem, meu amor, vem pra mim,<br />
me abraça devagar,<br />
me beija e me faz esquecer&#8230;”</p>
<p>Dançando e tirando lentamente peça por peça, atirei uma a uma sobre Mário até o momento em que nada restou sobre meu corpo.<br />
Nuinha, em pelo, caminhei devagar até ele, aproximei- me e, de joelhos sobre a cama, empurrei-o delicada e firmemente. Enlacei suas pernas sob as minhas. Dirigi e atuei na cena&#8230;<br />
É claro que depois compartilhei com o meu amado minha pequena infidelidade, senão que graça teria?</p>
<p>“O anel que tu me deste era vidro e se quebrou<br />
O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou&#8230;”</p>
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		<title>Dublinesca</title>
		<link>http://www.substantivoplural.com.br/dublinesca/</link>
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		<pubDate>Fri, 28 May 2010 19:22:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Tácito Costa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Enrique Vila-Matas]]></category>

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		<description><![CDATA[Enrique Vila-Matas
Tradução: José Rubens Siqueira
No Rascunho
MAIO
Pertence à estirpe cada vez mais rara dos editores cultos, literários. E comovido assiste, todos os dias, ao espetáculo de ir se extinguindo sigilosamente no começo deste século o nobre ramo de seu ofício &#8211; os editores que ainda lêem e que sempre foram atraídos pela literatura. Teve problemas há [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Enrique Vila-Matas</strong><br />
<strong><em>Tradução: José Rubens Siqueira<br />
</em>No Rascunho<em></em></strong></p>
<p>MAIO</p>
<p>Pertence à estirpe cada vez mais rara dos editores cultos, literários. E comovido assiste, todos os dias, ao espetáculo de ir se extinguindo sigilosamente no começo deste século o nobre ramo de seu ofício &#8211; os editores que ainda lêem e que sempre foram atraídos pela literatura. Teve problemas há dois anos, mas soube fechar a tempo a editora, que no fim das contas, mesmo tendo obtido um notável prestígio, caminhava com assombrosa obstinação para a falência. Em mais de trinta anos de trajetória independente, teve de tudo, sucesso, mas também grandes fracassos. A falta de rumo da etapa final ele atribui a sua resistência a publicar livros com as histórias góticas da moda e as demais ninharias, e dessa forma esquece parte da verdade: que nunca se distinguiu por sua boa gestão econômica e que, além disso, talvez pudesse ter sido prejudicado por seu fanatismo desmesurado pela literatura.</p>
<p><span id="more-18296"></span>Samuel Riba &#8211; Riba para todo mundo &#8211; publicou muitos dos grandes escritores de sua época. De alguns, apenas um livro, mas o suficiente para que estes constem de seu catálogo. Às vezes, embora não ignore que no setor honrado de seu ofício restam em atividade outros valorosos quixotes, ele gosta de ver a si mesmo como o último editor. Tem uma imagem algo romântica de si mesmo e vive numa permanente sensação de fim de época e fim de mundo, sem dúvida influenciado pela suspensão de suas atividades. Tem uma notável tendência a ler sua vida como um texto literário, a interpretá-la com as deformações próprias do leitor empedernido que foi durante tantos anos. Está, além disso, à espera de vender seu patrimônio para uma editora estrangeira, mas as negociações estão estagnadas há tempos. Vive numa poderosa e angustiante psicose de final de tudo. E até agora nada, nem ninguém conseguiu convencê-lo de que envelhecer tem a sua graça. Tem?</p>
<p>Agora, está em visita à casa de seus velhos pais e olha-os de cima abaixo, com curiosidade nada contida. Foi contar para eles sobre sua recente estada em Lyon. Fora as quartas-feiras &#8211; data obrigatória &#8211; é um velho costume ir vê-los quando volta de alguma viagem. Nos últimos dois anos, não recebe nem um décimo dos convites para viajar que recebia antes, mas esse detalhe ele ocultou dos pais, dos quais escondeu também que fechou a editora, já que considera que têm uma idade avançada demais para lhes dar desgostos e, além disso, tem certeza de que não receberiam nada bem a notícia.</p>
<p>Alegra-se cada vez que o convidam para algum lugar, porque, entre outras coisas, isso lhe permite continuar desenvolvendo diante dos pais a ficção de suas múltiplas atividades. Apesar de que logo completará sessenta anos, sente por eles, como se pode perceber, uma forte dependência, talvez por não ter filhos, e eles, por seu lado, só terem a ele: filho único. Chegou a viajar para lugares de que não gostava muito, só para depois contar a viagem a seus pais e assim mantê-los na convicção &#8211; eles não lêem jornais nem assistem à televisão &#8211; de que continua editando e continua sendo solicitado em muitos lugares e, portanto, as coisas continuam bem para ele. Mas não é nada disso. Se quando era editor estava acostumado a uma grande atividade social, agora tem apenas alguma, mas não dizer nenhuma. À perda de tantas falsas amizades, juntou-se a angústia que tomou conta dele desde que, há dois anos, suspendeu o álcool. É uma angústia que vem tanto de sua consciência de que, sem beber, teria sido menos atrevido nas publicações como de sua certeza de que a afeição pela vida social era forçada, nada natural nele e talvez proviesse apenas de seu doentio temor da desordem e da solidão.</p>
<p>Nada caminha muito bem para ele desde que corteja a solidão. Apesar de cuidar para não cair no vazio, seu casamento também cambaleia, embora nem sempre, porque seu relacionamento matrimonial passa pelos mais variados estados e vai da euforia e do amor ao ódio e ao desastre. Mas ele se sente cada dia mais instável no todo e se tornou resmungão, desgosta da maior parte das coisas que vê ao longo do dia. Coisas da idade, provavelmente. Mas o fato é que começa a ficar inconveniente para todo mundo, e completar sessenta anos produz nele a mesma sensação que se tivesse uma corda no pescoço.</p>
<p>Seus velhos pais escutam sempre seus relatos de viagem com grande curiosidade e atenção. Às vezes, até parecem duas réplicas exatas de Kublai Kan ouvindo aquelas histórias que Marco Polo contava. As visitas posteriores a alguma viagem do filho parecem gozar de uma classificação especial, de uma categoria superior às visitas monótonas e habituais de todas as quartas-feiras. A de hoje tem essa classe excepcional. Porém acontece alguma coisa estranha, porque já está na casa há um bom tempo e ainda não foi capaz nem mesmo de abordar o assunto Lyon. E isso porque não consegue lhes explicar nada de sua passagem por essa cidade, porque esteve ali tão desligado do mundo e sua viagem foi tão selvagemente cerebral que não dispõe de nem um único episódio minimamente humano. Além disso, a realidade do que aconteceu ali não é nada simpática. Foi uma viagem fria, gélida, como esses trajetos hipnóticos que ultimamente ele realiza tantas vezes diante do computador.</p>
<p>- Então, você esteve em Lyon &#8211; insiste sua mãe, agora já um tanto inquieta.</p>
<p>Seu pai começou a acender lentamente o cachimbo e também olha para ele com estranheza, como quem se pergunta por que ele não conta nada de Lyon. Mas o que pode lhes contar de sua estada nessa cidade? Não vai se pôr a falar da teoria geral do romance que foi capaz de fabricar sozinho no hotel lionês. Não lhes interessaria em nada a história de como elaborou essa teoria e, além disso, não acredita que eles saibam muito bem o que possa ser uma teoria literária. E, supondo que soubessem, ele tem certeza de que ficariam profundamente aborrecidos com o tema. E poderiam até chegar a descobrir que, tal como afirma Celia, anda muito isolado nos últimos tempos, muito desconectado do mundo real e abduzido pelo computador ou, na ausência deste &#8211; como lhe ocorrera em Lyon &#8211; por suas viagens mentais.</p>
<p>Em Lyon, empenhou-se em nunca se pôr em contato com a Villa Fondebrider, a organização que o havia convidado a dar a conferência sobre a grave situação da editoração literária na Europa. Talvez porque nem no aeroporto, nem no hotel apareceu alguém para recebê-lo, Riba, à guisa de vingança pelo menosprezo demonstrado pelos organizadores, trancou-se no quarto de hotel em Lyon e conseguiu realizar ali um dos seus sonhos quando editava e não tinha tempo para nada: redigir uma teoria geral do romance.</p>
<p>Publicou muitos autores importantes, mas apenas no Julien Gracq do romance Le Rivage des Syrtes foi que percebeu um espírito de futuro. Em seu quarto em Lyon, ao longo de um sem fim de horas trancado, dedicou-se a perpetrar uma teoria geral do romance que, baseando-se nos ensinamentos que percebera desde um primeiro momento em Le Rivage des Syrtes, estabelecia os cinco elementos que considerava imprescindíveis para o romance do futuro. Esses elementos que considerava essenciais eram: intertextualidade; conexões com a alta poesia, consciência de um panorama moral em ruínas; ligeira superioridade do estilo sobre a trama; a escritura vista como um relógio que avança.</p>
<p>Era uma teoria ousada, uma vez que propunha que o romance de Gracq, normalmente considerado antiquado, era o mais avançado de todos. Preencheu uma porção de folhas comentando os diversos elementos dessa proposta de romance do futuro. Mas quando terminou seu árduo trabalho, lembrou-se do &#8220;sagrado instinto de não ter teorias&#8221; de que falava Pessoa, outros de seus autores favoritos e do qual tivera, em certa ocasião, a honra de poder editar A educação do estóico. Lembrou-se desse instinto e pensou como os romancistas eram às vezes tolos, lembrou-se de vários escritores espanhóis dos quais havia publicado histórias que eram o produto ingênuo de teorias educadas e extensas. Que grande perda de tempo, pensou Riba, filiar-se a uma teoria para escrever um romance. Agora ele podia dizer isso com toda fundamentação, porque acabara de escrever uma.</p>
<p>Por que vamos ver, pensou Riba, se o sujeito tem a teoria, por que vai querer fazer o romance? E no momento mesmo de fazer essa pergunta e seguramente para não ter uma sensação tão grande de perda de tempo, inclusive o tempo de perguntar, compreendeu que haver passado tantas horas no hotel escrevendo sua teoria geral havia lhe permitido, no fundo, livrar-se dela. Um fato desses seria, por acaso, desprezível? Não, claro que não. Sua teoria continuaria sendo o que era, lúcida e ousada, mas ia destruí-la atirando-a no cesto de papéis do quarto.</p>
<p>Celebrou um funeral íntimo e secreto por sua teoria e por todas as que tinham existido no mundo, e depois abandonou a cidade de Lyon sem ter entrado em contato em momento nenhum com as pessoas que o haviam convidado a falar sobre a grave &#8211; talvez não tão grave, Riba pensou durante toda a viagem &#8211; situação da editoração literária na Europa. Saiu do hotel pela porta dos fundos e voltou de trem para Barcelona, vinte e quatro horas depois de sua chegada a Lyon. Não deixou para o pessoal da Villa Fondebrider nem uma carta justificando sua invisibilidade em Lyon ou sua estranha fuga posterior. Compreendeu que toda a viagem havia servido apenas para erigir uma teoria e em seguida celebrar um funeral íntimo por ela. Foi embora com a plena convicção de que tudo o que havia escrito e teorizado em torno do que devia ser um romance não havia sido mais que uma ata erigida com o único propósito de se livrar de seu conteúdo. Ou, melhor dizendo, uma ata erigida com o propósito exclusivo de confirmar que a melhor coisa do mundo é viajar e perder teorias, perdê-las todas.</p>
<p>- Então, você esteve em Lyon &#8211; a mãe volta à carga.</p>
<p>Estamos em fins deste maio de tempo irregular, assombrosamente chuvoso para Barcelona. O dia está frio, cinzento, triste. Durante alguns momentos, imagina que está em Nova York, numa casa em que se ouve o tráfego em direção ao túnel Holland: rios de carros voltando para casa depois do trabalho. É pura imaginação. Nunca ouviu o ruído do túnel Holland. Logo volta à realidade, a Barcelona e a sua deprimente luz cinzenta de hoje. Celia, sua mulher, o espera em casa por volta das seis da tarde. Tudo está transcorrendo com certa normalidade, salvo a inquietação que vai tomar conta de seus pais ao ver que o filho não comenta absolutamente nada sobre Lyon.</p>
<p>Mas o que pode lhes contar do que aconteceu lá? O que pode dizer para eles? Que como bem sabem não bebe desde que, dois anos atrás, os rins maltratados o levaram a um hospital e que isso o prostrou num estado de sobriedade permanente que faz com que às vezes se dedique a atividades tão extravagantes quanto elaborar teorias literárias e não sair do quarto de hotel nem para conhecer as pessoas que o convidaram? Que em Lyon não falou com ninguém e que definitivamente, desde que deixara de editar, é o que vem fazendo diariamente em Barcelona ao longo das muitas horas que passa na frente do computador? Que o que mais lamenta e o entristece é ter deixado de editar sem ter descoberto um autor desconhecido que acabasse por se revelar um escritor genial? Que ainda está traumatizado por essa fatalidade inerente a seu antigo ofício, essa fatalidade tão amarga de ter de procurar autores, esses seres tão irritantemente imprescindíveis, uma vez que sem eles não seria possível a trama? Que nas últimas semanas sente dores no joelho direito, que seguramente são provocadas pelo ácido úrico ou pela artrite, supondo que sejam duas coisas diferentes? Que antes era um gozador por causa do álcool e que agora se tornou melancólico, coisa que seguramente foi sempre o seu verdadeiro estado natural? O que pode dizer a seus pais? Que tudo se acaba?</p>
<p>A visita transcorre com certa monotonia e chegam inclusive a lembrar, em parte por causa do tédio que domina a reunião, do já longínquo dia de 1953 em que o general Eisenhower se dignou visitar a Espanha e acabou com o isolamento internacional do regime do ditador Franco. Seu pai viveu esse dia com um transbordamento de entusiasmo, não por causa da batalha diplomática vencida pelo maldito general galego, mas pelo fato de que os Estados Unidos, vencedores do nazismo, tinham se aproximado por fim da desesperançada Espanha. É uma das primeiras lembranças de sua vida. Tinha cinco anos e alguns meses e desse dia se lembra sobretudo do momento em que sua mãe perguntou a seu pai a que se devia tão &#8220;exagerado entusiasmo&#8221; pela visita do presidente norte-americano.</p>
<p>- O que é entusiasmo? &#8211; o menino perguntou.</p>
<p>Recordará para sempre os termos exatos dessa pergunta, porque foi a primeira que fez na vida. Da segunda pergunta de sua vida lembra-se também, embora não tenha tanta segurança de como a formulou. Sabe, em todo caso, que era relacionado a seu nome, Samuel, e ao que haviam dito alguns professores e meninos da escola. Seu pai explicou que era judeu só por parte de mãe e que como ela havia se convertido ao catolicismo meses depois de seu nascimento, ele devia se tranqüilizar &#8211; isso lhe disseram: se tranqüilizar &#8211; e considerar-se filho de católicos e pronto.</p>
<p>Agora seu pai, como nas ocasiões anteriores em que falaram dessa visita de Eisenhower, nega que tivesse ficado tão entusiasmado aquele dia, e diz que isso é um equívoco inventado por sua mãe, que pensou que ele estava exaltado demais com a visita do presidente americano. Nega também que durante algum tempo seu filme favorito foi Alta sociedade, de Charles Walter, com Bing Crosby, Grace Kelly e Frank Sinatra. Eles o viram pelo menos três vezes, em fins dos anos 50, e ele se lembra que esse filme sempre deixava seu pai com excelente humor: ele adorava loucamente tudo o que vinha dos Estados Unidos; fascinava-se pelo cinema e pelo glamour das imagens que chegavam de lá; sentia atração pela vida que seres humanos como eles levavam naquele lugar que então parecia tão distante que era quase inacessível. E é muito possível que precisamente tenha herdado dele, de seu pai, esse fascínio pelo Novo Mundo, pelo encanto distante daqueles lugares que na época pareciam tão inalcançáveis, talvez porque parecia que lá viviam as pessoas mais felizes da Terra.</p>
<p>Hoje falam daquela visita de Einsenhower, de Alta sociedade e do desembarque na Normandia, mas seu pai, vez por outra, nega com obstinação que tenha sentido tanto entusiasmo. Quando já está parecendo que, para não empacar no tema, seus pais logo voltarão à questão de Lyon, cai a tarde com uma grande e estranha rapidez sobre Barcelona, escurece muito depressa e acaba chegando uma surpreendente tromba d&#8217;água, acompanhada de grandes descargas elétricas. Cai justamente no momento em que ele se dispunha a ir embora da casa.</p>
<p>Estrondo espantoso de um trovão solitário. Cai a água com raiva e força desconhecidas sobre Barcelona. Chega-lhe de súbito uma sensação de aprisionamento e ao mesmo tempo de ser mais que capaz de atravessar as paredes. Em algum lugar, à margem de um dos seus pensamentos, descobre um escuro que se pega a seus ossos. Não acha muito estranho, está acostumado a que aconteça isso na casa de seus pais. O mais provável é que nessa escuridão tenha se aposentado, momentos antes, um dos numerosos fantasmas úmidos &#8211; tranqüilos fantasmas de alguns antepassados &#8211; que habitam esse escuro mezanino.</p>
<p>Quer esquecer o espectro doméstico que se pega aos ossos, vai até a janela e então vê um rapaz que, sem guarda-chuva debaixo do aguaceiro, plantado bem no meio da rua Aribau, parece estar espiando a casa. Pode ser que se trate de um fantasma superior. E em qualquer dos casos, o rapaz é sem dúvida um fantasma do exterior, nada precisamente familiar. Troca com ele alguns olhares. De aspecto que parece hindu, o rapaz usa um paletó estilo Nehru, cor azul elétrico e botões dourados no peitoral. O que estará fazendo ali e por que se veste assim? Vendo que o sinal abriu e que os carros sobem de novo pela Aribau, o desconhecido acaba de atravessar para a outra calçada. É realmente um paletó estilo Nehru que está usando? Talvez seja só um blusão da moda, mas não está inteiramente claro. Só alguém como ele, que foi sempre leitor tão atento de jornais e que tem já uma idade respeitável, consegue se lembrar de pessoas como esse político de outros tempos, esse homem chamado Úrî Pandit Jawâharlâl Nehru, líder indiano do qual muito se ouvia falar quarenta anos atrás, e agora não mais.</p>
<p>Se pai de repente se mexe na poltrona e, num tom lúgubre, como se estivesse consumido por uma febril melancolia, diz que gostaria que alguém lhe explicasse. E repete isso duas vezes, muito angustiado, nunca o viu assim tão aflito: gostaria que alguém lhe explicasse.</p>
<p>- O quê, pai?</p>
<p>Riba acredita que ele está se referindo aos imensos trovões, e com paciência se põe a explicar para ele a origem e a causa de certas tempestades. Mas logo percebe que o que diz soa ridículo e que, além disso, seu pai está olhando para ele como se fosse um idiota. Faz uma pausa trágica e a pausa se eterniza, não consegue mais continuar falando. Talvez agora pudesse se decidir a contar para eles algo de Lyon. Inclusive, no pé em que estão as coisas, poderia acabar sendo oportuna uma manobra de distração e que lhes falasse da teoria literária forjada lá e também que, inventando um pouco, contasse que escrevera essa teoria em um papel de cigarro e que depois a fumou. Sim, que contasse coisas assim para os dois. Ou então que, para deixar as coisas ainda mais turvas, ele fizesse aquela pergunta que não lhes faz há anos: &#8220;Por que mamãe mudou para a religião católica? Preciso de uma explicação&#8221;.</p>
<p>Sabe que é inútil, que nunca responderão a isso.</p>
<p>Podia também lhes falar de Julien Gracq e daquele dia em que foi visitá-lo e saiu com o escritor para a sacada de sua casa de Sion e este se pôs a contemplar os raios e, com especial atenção, o que chamava de desencadeamento de energia equivocada.</p>
<p>Seu pai interrompe a longa pausa para dizer, com um sorriso de superioridade, que está perfeitamente informado da existência dessas nuvens cúmulos e de todo o resto, mas que em nenhum momento desejou que lhe contasse coisas que já havia aprendido em sua longínqua etapa escolar.</p>
<p>Segue-se um novo silêncio, dessa vez ainda mais prolongado. O tempo passa com uma lentidão extraordinária. Misturados à chuva e ao desencadeamento de energia equivocada, ouve-se perfeitamente o bater do relógio de parede que, quando estava em outra dependência da casa, testemunhou o seu nascimento e logo mais completará sessenta anos. De repente, estão todos quase imóveis, quase rígidos, exageradamente sérios. E, como de costume, nada exuberantes, muito catalães, à espera de não se sabe o que, mas esperando. Penetraram na mais tensa de todas as esperas de sua vida, como se esperassem o trovão que tem de chegar. Agora estão os três, de repente, completamente imóveis, mais à espera do que nunca. Seus pais são escandalosamente idosos, isso está mais que visível. Não é estranho que não se dêem conta de que não possui mais a editora e de que as pessoas o procuram menos do que antes.</p>
<p>- Eu estava falando do mistério &#8211; diz seu pai.</p>
<p>Outra longa pausa.</p>
<p>- Da dimensão insondável.</p>
<p>Uma hora depois, parou de chover. Dispõe-se a escapar da armadilha do mezanino paterno quando a mãe pergunta, quase inocentemente:</p>
<p>- E agora quais são seus planos?</p>
<p>Ele fica calado, não esperava a pergunta. Não tem nenhum plano em perspectiva, nem um maldito convite para algum congresso de editores; nenhuma apresentação de livro onde cair morto; nenhuma outra teoria literária para escrever em um quarto em Lyon; nada, mas nada de nada mesmo.</p>
<p>- Já sei que não tem plano nenhum &#8211; diz a mãe.</p>
<p>Atingido no seu amor próprio, deixa que Dublin venha em seu socorro. Lembra-se do estranho e assombroso sonho que teve no hospital quando caiu gravemente doente dois anos antes: um longo passeio pelas ruas da capital irlandesa, cidade na qual nunca esteve, mas que no sonho conhecia perfeitamente bem, como se tivesse vivido ali uma outra vida. Nada o assombrou tanto como a excepcional precisão dos múltiplos detalhes. Eram detalhes da Dublin real, ou simplesmente pareciam verdadeiros por causa da intensidade inigualável do sonho? Quando despertou, continuava sem saber nada de Dublin, mas tinha a estranha certeza, absoluta, de ter estado a passear pelas ruas dessa cidade durante um longo tempo e era-lhe impossível esquecer o único momento difícil do sonho, o momento em que a realidade se tornava estranha e comovente: o instante em que sua mulher descobria que tinha voltado a beber, ali, em um bar de Dublin. Tratava-se de um momento duro, intenso como nenhum outro dentro daquele estranho sonho. Na saída do pub Coxwold, surpreendido por Celia em sua indesejada nova incursão alcoólica, abraçava-se a ela, comovido, e acabavam chorando os dois, sentados no chão numa calçada de um beco em Dublin. Lágrimas para a situação mais desconsolada que até aquele dia vivera em um sonho.</p>
<p>- Meu Deus, por que voltou a beber? &#8211; Celia dizia.</p>
<p>Momento duro, mas também estranho, relacionado talvez ao fato de ter se recuperado do colapso físico e voltado a nascer. Momento duro e estranho, como se fosse um signo oculto, portador de alguma mensagem por trás daquele patético pranto dos dois. Momento singular pela força especial que assumia a intensidade mesma do sonho nesse lance &#8211; uma intensidade que só havia conhecido antes quando, em certas ocasiões, de maneira recorrente, sonhara que era feliz porque estava no centro do mundo, porque estava em Nova York &#8211; e porque, de repente, quase brutalmente, sentia que estava ligado a Celia além desta vida, um sentimento intransmissível e indemonstrável, mas tão forte e tão pessoal quanto verdadeiro. Momento que foi como uma pontada, como se, pela primeira vez em sua vida, sentisse que estava vivo. Momento muito delicado, porque lhe pareceu que continha em si &#8211; como se o sopro desse sonho procedesse de outra mente &#8211; uma mensagem oculta que o colocava a um passo de uma grande revelação.</p>
<p>- Amanhã poderíamos ir a Cork &#8211; Celia dizia.</p>
<p>E aí acabava tudo. Como se a revelação estivesse esperando por eles na cidade portuária de Cork, no sul da Irlanda.</p>
<p>Que revelação?</p>
<p>Sua mãe pigarreia, impaciente ao ver que ele está pensativo. E Riba agora teme que ela leia seu pensamento &#8211; sempre desconfiou de que, por se tratar de sua mãe, ela sabe lê-lo perfeitamente &#8211; e descubra que seu pobre filho está predestinado a se entregar à bebida outra vez.</p>
<p>- Estou preparando uma viagem a Dublin &#8211; diz Riba, sem mais rodeios.</p>
<p>Robson Vilalba</p>
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		<title>Meia-noite</title>
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		<pubDate>Fri, 28 May 2010 14:04:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudia Magalhães</dc:creator>
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 Meia-noite. Desde que você partiu levando o Sol, é sempre meia-noite. Todos os dias, na beira do abismo, entre a carne e a sombra, como os poetas, os bêbados, os loucos, eu te procuro, amor. Você nunca saiu do meu pensamento&#8230; Quantas lágrimas&#8230; Quanta dor&#8230; Não te peço pra voltar. Hoje, não te quero [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/05/claudia-m-Meia-noite.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-18283" title="claudia m - Meia-noite" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/05/claudia-m-Meia-noite.jpg" alt="" width="157" height="119" /></a>www.teatroclaudiamagalhaes.blogspot.com</strong></p>
<p><strong> </strong>Meia-noite. Desde que você partiu levando o Sol, é sempre meia-noite. Todos os dias, na beira do abismo, entre a carne e a sombra, como os poetas, os bêbados, os loucos, eu te procuro, amor. Você nunca saiu do meu pensamento&#8230; Quantas lágrimas&#8230; Quanta dor&#8230; Não te peço pra voltar. Hoje, não te quero mais. Quando você partiu, amaldiçoei a minha vida. Em desespero, a solidão arrancou a minha língua, mas não calou os meus gritos. Sem suportar o peso da saudade, essa maldita ferida do amor, o meu coração parou de bater. Parado em minhas veias, o meu sangue, louco, fazendo-se de tinta, escorre pelos meus dedos e reinventa a vida sobre o papel. Nessa batalha contra a morte, busco nas palavras, alguma idéia que acalme o meu medo, quase insuportável, de morrer. E escrevendo eu te reencontro, amor&#8230; Brincando de ser Deus, crio um mundo onde você não é capaz de me dar adeus, de ir embora. Nesse mundo de milagres, não existe o certo, nem o errado. Encharcado de sangue, suor, saliva e vida, te faço meu herói. Queimo o teu corpo. Em seguida, mergulho as tuas carnes em minhas águas profundas, até você morrer, ressuscitar e, novamente, me ver chorar&#8230; Chorar pelo sexo como faz toda mulher diante do amor&#8230;<br />
Não! Não precisa voltar! Hoje, aprendi a te amar&#8230; Entre o mundo definido e o indefinido, eu te perco e te reencontro, sob o comando da voz louca do meu cérebro que, sem juízo, entrega-se com violência ao que me resta: escrever, escrever, escrever&#8230;</p>
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		<title>Monstros</title>
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		<pubDate>Thu, 27 May 2010 17:58:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudia Magalhães</dc:creator>
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<p><strong> </strong><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/05/monstros-claudia-m2.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-18247" title="monstros - claudia m" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/05/monstros-claudia-m2-255x300.jpg" alt="" width="147" height="173" /></a>Depois de quarenta anos sonhando acordada com um mundo que não fosse manipulado pelas emoções, onde não existissem sentimentos de horror, nem de piedade, esse monstro de riso abafado, grosseiro, preso na garganta por um bolor de futilidade, aprendi a enfrentar minhas emoções. Hoje, sou eu quem me persigo. Às vezes, tiro-as do comando, me enxergo, descubro a inteligência e colho flores; Em outras, deixo-me guiar até meu centro escuro, sem limite de espaço e de tempo, perco a chave, fujo de mim mesma, sangro. Ingerindo razão e emoção no mesmo prato, decido qual dos dois será o excremento. Não sei em qual desses opostos me ofereço amor, pensou observando o filho cair em sono profundo no seu colo, causado pelo efeito dos sedativos.<br />
<span id="more-18241"></span>Sim, essa massa branca, disforme, que há quarenta anos rasteja pela casa soltando grunhidos, é o meu filho! Como eu o amo!, constatou com tristeza, acariciando o fruto de um amor que teve aos trinta e cinco anos e que desapareceu logo após o parto, deixando como única prova de sua existência os míseros depósitos feitos, todos os meses, em sua conta. Não sabia o real motivo daquele gesto, talvez ele estivesse envenenado de piedade, ou quem sabe, guiado pelo medo de se perder da estrada que acredita um dia levá-lo ao Paraíso. Desde então, ela passou a dedicar-se religiosamente a seu filho e a protegê-lo de um mundo de olhos amedrontados, de nojo, de conversas rasteiras e tolas, de orações sem fé perdidas ao vento. Bom dia, Senhora! Como vai o seu filho?, lembrou da pergunta da vizinha que encontrara, pela manhã, no mercado da esquina. Como Deus quer!, respondeu secamente. Todos os dias, eu oro por ele e por meu filho, que, agora, passou a andar com gente da pior espécie!&#8230; Cada um com a sua dor!, concluiu com um olhar de mártir. Mal sabe essa mãe o quanto eu gostaria de chamar meu filho de ladrão, de mentiroso, de homicida. De vê-lo chegar tarde da noite com cheiro de vida, sangue, lágrimas, suor, saliva, com sede de rua. De quantas vezes desejei amar novamente, mas não poderia suportar ver no ser amado, desejado, a expressão miserável de escarro, o vômito reprimido, uma compaixão monstruosa que só serviria para aumentar a vaidade de Deus, pensou com amargura. Lembrou, então, de todas as noites, durante quatro décadas, em que colocou aquela cabeça disforme em seu colo e lhe falou da existência de monstros, de todas as espécies e de todas as cores, que, até hoje, evitam a sua calçada com medo da casa, que para eles é mal-assombrada, pois nela mora um anjo. Essa noite, doente e cansada, ela começa a falar sem conter as lágrimas:<br />
- Um lindo anjo, com pernas de fogo, que desceu a terra escorregando pelo arco-íris, sentado sobre uma nuvem e vestido de Sol. E quando observava o meu semblante triste e cansado, deitava a cabeça em meu colo e, sem mover os lábios, aliviava meu pranto, dizendo-me que por trás desse mundo de sombras, a esperança é preservada. Não é sem razão que o amo! Hoje, meu anjo, nós vamos para o mundo dos sonhos, onde habitam seres encantados, iguais a você! Eles possuem um coração puro, não conhecem orações e nem pedidos. Não se importam com as aparências, vivem do simples e podem rir até mesmo de seus pequenos hábitos. Brincam de se reunir em volta de uma grande fogueira, onde contam histórias que nos enriquecem a sabedoria. Trocam presentes que se chamam: Amor pelo próximo! Amor abnegado! Amor! Lá, ninguém precisa falar! Tamanha é a cumplicidade que proferir uma palavra seria um desperdício. Nesse mundo, teu espírito será livre, minha criança. Lá, não existe velhice, ninguém dá adeus, ninguém vai embora, e eternamente te chamarei de: meu filho!<br />
Levanta com passos firmes, decididos, joga gasolina em seu corpo e em seu anjo adormecido. Espalha o líquido pelo chão do quarto e pela casa inteira. Volta até o quarto do filho, coloca novamente sua cabeça em seu colo, e pega, sobre o criado-mudo, o pedaço de papel com a oração de todas as noites, desta vez, com um cuidado demoníaco, pois chegara o dia da cobrança e não poderia esquecer nenhuma palavra. Risca o fósforo, joga-o sobre o tapete do quarto e começa a sua oração:<br />
- Ave-Maria cheia de graça&#8230; Que graça é essa que se faz presente agora? O Senhor é convosco&#8230; Ele não enxerga o meu sofrimento? Ele não vê que a minha alma não encontra consolo porque não nos achamos na mesma condição! Bendita sois vós entre as mulheres&#8230; Mulheres? As mulheres da terra existem para o sofrimento e são entregues a dor sem piedade. Ao conceber o seu filho concebe também um amor que nenhum freio segura e a vida, no momento que lhe convém, o transforma em nosso maior inimigo, fazendo-nos pagar tão caro a maternidade! Bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus!&#8230; Porque o meu já caiu na desgraça. Vejo aquele que gerei, que deveria ser testemunha da minha velhice e enterrar-me com suas próprias mãos, entrar e sair desse mundo como um verme! Será esse nosso castigo: Dormir sonhando com o céu e acordar no inferno? Santa Maria, mãe de Deus!&#8230; Eu quero a sua presença agora! Receba em teu reino o filho dessa tua miserável serva para que nada lhe falte. É o seu dever, pois és mãe e és Santa! Rogai por nós pecadores&#8230; Porque toda mãe ama seus filhos de alma para alma, com suas faltas, seus erros e seus sonhos inúteis! Que em teu seio, ele encontre morada; nas tuas palavras, a luz; no teu amor, o perdão de ter nascido torto! Peço-te agora a morte! A velhice já me destrói as carnes, a qualquer momento a vida poderia me cuspir e o meu anjo viveria nesse mundo como um cadáver. Estou pronta, e já aguardo o momento de reencontrar o amor perdido&#8230;<br />
Nesse momento, o fogo estende-se na direção deles. Um fogo real, nobre, consome o corpo da velha mãe e do seu herói, que tantas vezes sonhou em chamar de ladrão, de mentiroso, de homicida. Agora, a terra gira devagar, cuspindo o amor nobre, que tanto procuramos e que, cansado, punido, foge da vida, buscando refúgio em nossos sonhos.</p>
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		<title>Lua Negra</title>
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		<pubDate>Tue, 25 May 2010 21:00:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudia Magalhães</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[www.teatroclaudiamagalhaes.blogspot.com
 É através da vontade, de uma grande vontade, que um amor se prende a outro, o resto é solidão, erro que cola à alma dos que não cedem, não insistem ou simplesmente não o aceitam em sua essência, penso eu. Como me chamo? Ora, que importa meu nome? Iguais a ele existem milhares no [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><strong><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/05/ILUSTRAÇÕES-LUA-NEGRA.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-18158" title="ILUSTRAÇÕES - LUA NEGRA" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/05/ILUSTRAÇÕES-LUA-NEGRA.jpg" alt="" width="142" height="196" /></a>www.teatroclaudiamagalhaes.blogspot.com</strong></em></p>
<p><strong> </strong>É através da vontade, de uma grande vontade, que um amor se prende a outro, o resto é solidão, erro que cola à alma dos que não cedem, não insistem ou simplesmente não o aceitam em sua essência, penso eu. Como me chamo? Ora, que importa meu nome? Iguais a ele existem milhares no mundo, e o que difere as mulheres uma das outras são as intensidades de suas vontades, metade delas na cabeça, a outra metade em suas luas que renovam o mundo quando levantam as saias.<br />
<span id="more-18156"></span>É certo que essa renovação depende, por um lado, da qualidade do ventre, um ventre imundo só pode gerar criaturas imundas, e por mais que a alma seja limpa, perfumada, o simples contato de um com o outro acaba por contaminá-la. Por outro lado, temos a participação do sêmen que, movido pelo acaso, pode doar sua melhor ou pior parte. É dessa forma que construímos o mundo, sim, nós, posto que deus é puro demais para isso.<br />
Nesse mundo, nasci. Em uma rua qualquer, numa cidade qualquer. Informações que não posso revelar, pelo simples fato que, algumas horas após meu nascimento, ainda cheirando a sangue, fui posta enrolada num lençol sujo, fétido, presumo, na porta de Carmem e Manoel, um casal distinto, donos de uma pensão.<br />
Seja por bondade divina, seja por desejar algum lugar no paraíso ou por mera curiosidade humana, ou seja ainda por pura piedade desprovida de qualquer interesse (Se é que isso, realmente, existe!), os donos da pensão me adotaram como filha, a partir daí, passamos a sentir um amor grande demais para não matar, roubar ou trair.<br />
Tímida, cresci indo da escola para casa durante a semana, e de casa para a igreja aos domingos, onde conheci o meu marido, Paulo, primeiro e único namorado, ambos com dezessete anos, no ano em que concluíamos o segundo grau e que nos preparávamos para o vestibular. Infelizmente, minha mãe veio a falecer nesse período, o que me fez adiar a faculdade para cuidar do meu pai, já com setenta e dois anos, e da pensão. Nesse mesmo ano, me casei e, no ano seguinte, realizei o maior sonho dele, ter um neto. Nunca morri de amores por Paulo. Éramos na verdade mais amigos que amantes, além disso, éramos bem parecidos, extremamente tímidos. Na verdade achava a minha vida monótona e sem graça.<br />
Cuidava da pensão sozinha, desde as refeições servidas até a troca de uma lâmpada, posto que Paulo tem aversão a qualquer tarefa doméstica. A pensão é pequena. Um primeiro andar cor de abóbora, recuada, sem muro, com um pequeno jardim na entrada. No térreo, temos uma espaçosa varanda, onde geralmente me deito para ler enquanto meu filho brinca, uma sala de tv, a cozinha, dois banheiros e um enorme quintal. No andar superior temos seis quartos, um do meu pai, outro meu e de Paulo, e o restante são ocupados geralmente por estudantes universitários.<br />
No quarto ano de casamento, enquanto meu filho tirava um cochilo depois do almoço, e eu descansava na rede da varanda lendo Bel-Ami, de Maupassant, Clara apareceu. Era uma estudante de jornalismo e procurava um lugar mais barato e próximo da faculdade. Extremamente comunicativa, não necessariamente bonita, mas tinha certo charme. Alta, cabelos castanhos, curtos e um sorriso cheio, encantador. Acertamos sua estadia e conversamos por horas sobre a minha grande paixão, os livros. À noite, apresentei-a a Paulo, que chegava do trabalho. Ele trocou meia dúzia de palavras e subiu para o quarto. Continuamos nossa conversa literária durante o jantar. Estava extremamente feliz, tínhamos tantas afinidades e ela era uma excelente companhia. Passei a esperar, com ansiedade, a hora dela voltar da universidade para as nossas longas e intermináveis conversas. Observei que, todos os dias, ela e Paulo chegavam juntos por volta das dezenove horas. Paulo trabalhava numa loja de informática perto da faculdade e, coincidentemente, eles pegavam o mesmo ônibus. Chegavam sempre sorrindo, animados. Na segunda semana, isso passou a me incomodar, o que fez com que eu passasse a evitá-la. Clara passou a ser uma obsessão. Passei a ter insônias terríveis imaginando um possível romance entre os dois e todas as noites, antes de dormir, eu perguntava as mesmas coisas:<br />
- Clara lhe atrai, não é mesmo?<br />
- Porra, eu já pedi que parasse com essas perguntas idiotas!<br />
- Está gostando dela, não é?<br />
- Claro que não! Quantas vezes eu vou ter que repetir isso!<br />
- Você fica todo alegrinho quando ela está por perto.<br />
- Você é louca!<br />
- Eu sei de tudo&#8230;<br />
- Tudo o quê?<br />
- Você sonha com ela todas as noites&#8230;<br />
- Eu vou embora daqui. Estou falando sério!<br />
- Tanto faz&#8230;</p>
<p>Ele achava ridículo o meu ciúme, o que me causava grande revolta. Senti algo estranho, um deserto no peito. Passei a não suportar as luzes e a andar pela pensão feito um réptil, grudando nas paredes, me arrastando pelos cantos, pisando mole no chão, para poder vigiá-la. Ela não saía do meu pensamento&#8230;<br />
Certa manhã, encontrei a porta do seu quarto entreaberta. Entrei e a vi adormecida sobre a cama. Senti uma vontade enorme de destruí-la. Não sabia de onde vinha tanto ódio, não ainda&#8230; Observei, pendurado por um fio de nylon grosso na parede mofada da cama, um enorme espelho. Peguei uma vassoura que estava próxima a porta e com o cabo empurrei com cuidado o fio até a pontinha do prego enferrujado e saí com o coração aos saltos em direção à cozinha. Coloquei uma xícara de café e fiquei esperando. E se ele não cair? Bem, só me resta esperar&#8230; Nesse momento, escutei uma pancada seca seguida de um grito fino, estridente. Maldita! Eu sou uma grande Maldita!, pensei correndo em direção ao quarto dela. Ela estava em pé, de costas, aparentemente sem nenhum arranhão. Sem que ela me visse, voltei para meu quarto e encontrei Paulo sentado na cama.</p>
<p>- Que barulho foi esse? – perguntou ainda sonolento<br />
- O espelho do quarto de Clara caiu – falei andando, sem parar, de um lado para o outro<br />
- Essas paredes estão podres, a qualquer momento essa pensão desaba.<br />
- Infelizmente ela não morreu!<br />
- Você me dá medo&#8230;<br />
- Então morra logo de uma vez ao escutar essa: Eu armei para o espelho cair! Entrei no quarto dela, hoje cedo, e enquanto ela dormia, com um cabo de vassoura puxei o fio de nylon até a pontinha do prego, mas o maldito espelho só resolveu cair quando ela já não estava mais na cama!<br />
- Chega! Não agüento mais, vou embora desse inferno!</p>
<p>Arrumou, rapidamente, a mala e, sem dizer uma palavra, saiu. Fui em direção ao quarto dela, e a encontrei, sentada de costas, observando pela janela Paulo partir.</p>
<p>- Ele foi embora, está feliz por isso?<br />
- Você sabe o que é frustração? – perguntou num fiapo de voz<br />
- O quê? – perguntei sem entender qual era sua real intenção<br />
- Frustração é querer, realmente, algo e covardemente deixá-lo pra trás</p>
<p>Apesar da penumbra, vi que ela chorava. Senti um medo insuportável quando descobri, naquele instante, que todos os sentimentos que passaram pelo meu coração eu sabia diagnosticar, exceto o que passei a sentir naquele momento. Sem saber ao certo o que fazer, nem dizer, fui até a janela e fiquei observando o céu coberto de nuvens, e não menos nublado estava o meu olhar. Ela continuou baixinho:</p>
<p>- O amor foi criado por algum louco, de alguma parte de seu corpo, menos dos olhos, pois nada vê e por isso não privilegia os que enxergam. Talvez tenha sido criado da cabeça, pois seus atos são estranhos e incoerentes; para os que tentam compreendê-lo, queima-lhes o juízo; para os que tentam contradizê-lo, cava-lhes um buraco no peito, pintando seus dias de cinza; para os que tentam fugir, corta-lhes as pernas, fazendo dos que querem correr, rastejar. Somos parecidas, sonhamos com manhãs abençoadas por luas&#8230; e para os covardes essa lua é negra&#8230;</p>
<p>Um misto de medo e vergonha me invadiu quando senti suas mãos puxando levemente meus cabelos pra trás e com delicadeza serem trançados. A cada movimento delas, sentia nossas mentes se enlaçando como uma espécie de ritual maligno e irresistível. Não sei ao certo se perdia ou ganhava sensatez, quando minha mente, no lugar do recuo, resolveu ultrapassar a linha tênue que separa o amor do ódio, e este, quanto mais próximo do amor, mais terrível se torna e mais escorregadio, pois é feito de lama. Desabei no choro, sentindo minha alma viva, e nela restando, do meu passado, somente a estranheza dos sentimentos vazios. Vai amanhecer e o sol vai aparecer em forma de lua&#8230; , pensei prevendo o futuro. Segurei seu punho, sentindo seu coração pulsar fortemente, e sem poder suportar mais, entre soluços, desabafei: Eu te amo, Clara! Eu te amo&#8230;<br />
Há dois anos estamos juntas e esse amor me realiza. Às vezes, ele se transforma num ódio passageiro causando grande confusão em meu coração. Qual a diferença do amor e o ódio, mesmo? Não importa! O importante é que, hoje, ele é apenas um pretexto para que eu possa dizer Eu te amo, e me fazer sentir viva, extremamente viva.</p>
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		<title>Meio Fio</title>
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		<pubDate>Thu, 20 May 2010 21:52:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudia Magalhães</dc:creator>
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		<description><![CDATA[www.teatroclaudiamagalhaes.blogspot.com
Há dias que possuem vida própria e são dotados de uma consciência má, hábil, que adora o perigo das coisas subterrâneas, de tudo o que nos causa espanto, nos fazendo em poucos segundos beber a beleza e vomitar os desejos de uma vida inteira. Em mais um desses dias, sentado no meio fio, ele mergulha [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/05/homem-no-meio-fio.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-17972" title="homem no meio fio" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/05/homem-no-meio-fio.jpg" alt="" width="76" height="124" /></a><strong><a href="www.teatroclaudiamagalhaes.blogspot.com" target="_blank">www.teatroclaudiamagalhaes.blogspot.com</a></strong></p>
<p>Há dias que possuem vida própria e são dotados de uma consciência má, hábil, que adora o perigo das coisas subterrâneas, de tudo o que nos causa espanto, nos fazendo em poucos segundos beber a beleza e vomitar os desejos de uma vida inteira. Em mais um desses dias, sentado no meio fio, ele mergulha a mente na idéia de felicidade, aproveita a distância da mulher amada, toma por vezes o seu lugar, moldando-a de tal forma que ela atenda a todos os seus desejos e, em menos de uma hora, mesmo ausente, ele jura ser capaz de apalpá-la.</p>
<p><span id="more-17970"></span>O barulho de algumas pessoas se aproximando o faz voltar a realidade e ela escapa dos seus pensamentos. Se ao menos tivesse uma daquelas pedras que experimentara pela primeira vez na noite anterior junto àqueles mendigos. Ela lhe permitiria ir até o outro lado do mundo. Lá, vestido com elegância, encontraria o seu amor em algum sonho, a cobriria de flores e depois ficaria em silêncio até acalmar o espírito. Pega a garrafa de cachaça e toma um gole. Aquela seria a última garrafa, depois voltaria pra casa. As pessoas que passam o olham com desprezo. <em>Idiotas! Imbecis! O que eles sabem sobre o amor?,</em> pensa vendo o Sol se aproximar da sua cama de papelão improvisada no canto da parede. Há quanto tempo estaria naquela rodoviária? Seriam dias, meses ou anos? Perdera a noção do tempo. Estava exausto, não pregara o olho a noite inteira e a dor de cabeça que sentia lhe queimava o juízo. Vê o primeiro ônibus da manhã chegando.<em> Hoje eu volto pra casa. Essa é a última garrafa. Vou voltar e passar um ano sem beber!,</em> pensa tomando mais um gole da bebida.</p>
<p>Levanta e vai em direção ao banheiro. Observa, por alguns segundos, a sua imagem no espelho quebrado. Uma imagem tão distante do homem bem-sucedido de algum tempo atrás. Vê o rosto oleoso, a barba cheia e o olhar triste. Sente uma enorme vontade de se esconder, uma forte angústia no peito. Lava o rosto, as mãos, joga água nos cabelos longos e sujos e se penteia com os dedos. Toma o último gole da garrafa e a joga no lixo. Pronto. Aquela foi a última, agora voltaria pra casa. Sai do banheiro catando no bolso algumas moedas que mendigara na noite anterior e compra um pastel de carne. Sente a massa entalada na garganta. Força-se a comer, precisa aliviar a dor no estômago. A cada minuto a sua angústia aumenta. Sente-se depressivo, torturado. <em>Preciso beber algo</em>, pensa catando algumas moedas no bolso. Compra mais uma garrafa de cachaça, prometendo a si mesmo que aquela seria a última, depois pegaria um ônibus e voltaria pra casa. Senta no meio fio e começa a beber. Sente-se eufórico, leve e, de certa forma, feliz. A angústia desaparece dando lugar a uma imaginação rara, sem alicerces no tempo, nem passado, nem presente, nem futuro. Uma imaginação de algum lugar sagrado dentro dele, que desconhece ou ignora o seu drama. O rosto da amada lhe aparece, evocando todas as palavras que lhe são caras: amor, perfume, prazer, paz, sonhos&#8230; Ele mergulha a cabeça num mar vermelho de desejos e ao sabor da bebida, ela faz amor com seus demônios e tem filhos. Centenas deles.</p>
<p>O Sol já se despede enquanto ele observa a garrafa vazia. Sente um medo terrível. Tudo o que não vem de dentro dele o assusta, é pequeno, sujo. Gosta da solidão da bebida, de viver o que não existe. Ele ama. Cata as últimas moedas do bolso. Tinha o valor exato da passagem do ônibus.<em> Agora eu volto pra casa</em>, pensou mais uma vez. É isso. Voltaria e começaria uma nova vida. Ela se foi e deve estar feliz com isso. Não iria sofrer por ela. Vadia e fútil, com certeza já estaria seduzida por uma beleza nova. O mundo é tão grande&#8230; Mas o seu coração recusa a desprezar o que ama e se põe inquieto. Prepara dentro dele um buraco cheio de abandono, amargura e desilusão e misturado a esses monstros só pensa em lhe ferir. Ele chora. Chora porque procura aquela que perdeu, mas aquela que perdeu não o procura. Chora porque ela tem asas e ele, os pés na lama. Precisa de uma bebida. Ela o ajudará a sentir melhor. Se ao menos tivesse uma daquelas pedras&#8230;</p>
<p>Pega o dinheiro no bolso e compra mais uma garrafa. Senta no meio fio e toma um gole. Esta é a última, depois eu volto pra casa, pensa vendo os seis mendigos se aproximando ao longe. Seis, seu número da sorte. Ao menos passou a ser depois que a conheceu, constatou sorrindo, sentindo a angústia, novamente, ir embora.</p>
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		<title>Luz e Sombra</title>
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		<pubDate>Tue, 18 May 2010 21:32:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudia Magalhães</dc:creator>
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		<description><![CDATA[http://teatroclaudiamagalhaes.blogspot.com/
Seja bem-vindo! Estava em companhia da solidão com meus devaneios e delírios, mas sua presença trouxe grande conforto ao meu coração e tenho absoluta certeza que nosso convívio será bem agradável. Deixe o espírito livre. Leia com os olhos da alma. Livre-se de tudo o que causa novas formas de aprisionamento. Há ou não algum [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/05/luz-e-sombra.jpg"><img class="alignright size-full wp-image-17865" title="luz e sombra" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/05/luz-e-sombra.jpg" alt="" width="107" height="129" /></a><strong>http://teatroclaudiamagalhaes.blogspot.com/</strong></p>
<p>Seja bem-vindo! Estava em companhia da solidão com meus devaneios e delírios, mas sua presença trouxe grande conforto ao meu coração e tenho absoluta certeza que nosso convívio será bem agradável. Deixe o espírito livre. Leia com os olhos da alma. Livre-se de tudo o que causa novas formas de aprisionamento. Há ou não algum juízo no amor? Não fuja! Vamos, responda! Eles estão aqui em suas realidades de luz e sombra e interrogam cada um de nós.</p>
<p><span id="more-17864"></span>Ela não dorme desde que nasceu. Ele, todas as noites, tem pesadelos. Quando acordados, são estátuas que sonham voando. Foram gerados num lugar qualquer, e como todo lugar no mundo, habitado por anjos e demônios. Estes, criados do excremento, andam nus, e por serem desprovidos de alma não sentem culpa, nem remorso. São superficiais, fúteis, carregam dentro de si o oco do mundo. Os primeiros, por lhes faltarem a carne, são dissimulados, hipócritas, gozam para dentro, sufocam-se com o próprio gozo para camuflarem suas fraquezas. Nenhum deles é a criatura perfeita que empresta graça e divertimento necessários ao jogo da vida. Falta-lhes o amor, que nesse caso nos provaria o equilíbrio de tudo o que há sobre a terra. Por isso, vez ou outra, um anjo nasce revestido da carne e um demônio descobre dentro de si uma alma. Foi o que aconteceu com nossos protagonistas, os primeiros a experimentarem esse sentimento feito de luz e sombra.</p>
<p>Eles se conheceram numa noite onde ninguém poderia roubar as vontades de uma lua grávida de desejos, nem esfriar os girassóis que buscam o céu. As estrelas, ansiosas para testemunharem o nascer do amor, trocavam incansavelmente de lugar, alimentando, até hoje, os sonhos dos que buscam a saliva que já tem a cor, o cheiro e a medida exata para fazerem ateus acreditarem no divino e que tornam mais escorregadios os dias. Eles se procuraram, se encontraram e se descobriram perdidos num sentimento, até então, sublime. Beijaram-se. Sentiram frio. Sentiram calor. E tudo sobre a terra parecia ter um fim, menos o sentimento que, naquele instante, fazia seus corações flechados doerem e, perdendo o fôlego, gemeram, sem entenderem ao certo o que queriam dizer. Com as carnes escancaradas, lambuzaram-ze, estouraram-se, fartaram-se de vida e tudo era suor, gemidos e paz do início dos tempos. Eram almas disparadas por todos os lados. Seus olhos carnívoros comiam o que de um subia ao céu e o que do outro caía sobre a terra. Exalavam amor pelos olhos, pelas mãos, pelos sexos inchados, descarados, vivos, e no vai e vem do amor, quando um saía do outro, tudo era fogo do inferno, assavam demônios e quando, novamente, se encaixavam, tudo era dilúvio, afogavam anjos e viravam pérolas no fundo do mar. Fartos no gozo deram risadas, sem perceberem que a carne quando ama torna-se transparente. Tudo no outro era tão urgente que ignoravam os anjos e demônios que habitam a terra e que, até hoje, morrem em vida por falta de amor, do perigo que estes representam e que uma imagem perfeita, sublime, despertam nestes os mais obscuros desejos.</p>
<p>Certo dia, enquanto ele observava maravilhado sua amada em sono profundo (depois que se conheceram ela passou a dormir e ele começou a sonhar. Coisas do amor&#8230;), aproximou-se dele a alma falsa de um anjo.</p>
<p>Anjo: O que você sente por essa mulher? &#8211; pergunta com voz doce, suave.</p>
<p>Ele: Amor&#8230;</p>
<p>Anjo: Ela, o que sente por você? &#8211; insiste.</p>
<p>Ele: Ela me ama.</p>
<p>Anjo: Tem certeza disso?</p>
<p>Ele: Eu sinto&#8230;</p>
<p>Anjo: Você é um anjo, ela é um demônio&#8230; Ela já foi por você contrariada?</p>
<p>Ele: Por que faria isso?</p>
<p>Anjo: Experimente dominá-la&#8230; Não permita que ela fique por cima na hora do gozo, só assim você poderá ter a certeza do seu amor.</p>
<p>E o anjo se despediu deixando nele um tormento e, com este, um enorme poder de imaginação. Ela despertou com o peso do corpo amado sobre o seu. Gostou. Amou. Sentiu seu corpo repleto de prazer molhar a terra. Depois de se deixar dominar por um tempo, tentou inverter as posições, mas ele a impediu com firmeza.</p>
<p>Ela: Por que quer me manter sob a tua sombra? &#8211; pergunta com doçura.</p>
<p>Ele: Você é uma mulher, portanto deve estar sob mim, suportar o peso do meu corpo.</p>
<p>Ela: Entendo que somos terra e vontades. Fomos criados do mesmo barro, por isso somos iguais. Vamos inverter nossas posições. Assim, seremos iguais em corpo e em alma &#8211; diz tentando, novamente, inverter as posições, mas ele a impede.</p>
<p>Ele: Sou um anjo e você, um demônio. Minha carne foi criada do pó puro e a tua, do excremento. Portanto você é submetida a mim.</p>
<p>Ela: Maldito! Mil vezes, maldito!, grita sentindo-se ferida, humilhada.</p>
<p>Terminada a discussão, desfaz-se o casal. Ela descobriu nele a vaidade de um anjo e ele encontrou nela o orgulho de um demônio. A dor contida endureceu seus corações deixando somente um enorme vazio, uma angustiante sensação de fracasso. O mesmo coração que amava, que tinha para o outro todas as atenções, todos os cuidados, criou, naquele momento, um jogo de ofensas que multiplicava as sombras da terra e o mundo perdeu a cor. Com essa competição transformaram-se em sanguessugas. Ela foi amar com os demônios, ele com os anjos. Colocaram-se nas mais humilhantes situações. Engoliam gozos que não lhes permitiam cantar depois, que lhes secavam a garganta e lhes abandonavam da própria imagem. Queimaram as flores, afogaram os desejos, ficaram fartos de solidão. Mas o ódio era apenas uma espécie de verniz sobre um amor sufocado que insistia em ficar e a vida já cansava seus corações. Passaram a procurar um pelo outro. Ele entrou no inferno, ela no Paraíso. Correndo na mesma velocidade, saíam de um para o outro, numa busca infinda, pois enquanto um olhava para o céu o outro mergulhava em águas profundas. Cansados daquela busca, recusaram-se a viver naquele mundo preto e branco, de outra forma que não fosse ao lado de quem lhes apresentou a poesia, a música e o lirismo. Saltaram da vida e viraram lenda. Depois de um curto momento de escuridão, encontraram-se parados, nus, flutuando no céu. Nunca mais seriam bonecos de barro, e sim, o Sol e a Lua. Mas o tempo do amor não perdoa as fraquezas. Eles não poderiam se tocar, nunca mais&#8230; Ele é o dia, ela é a noite. Ela voltou a não dormir e ele, todas as noites, a ter pesadelos. Descobriram, tarde demais, que não há beleza em ter defeitos, a única saída é sonhar que eles podem ser amados na dor, somente sonhar, pois há sempre uma luz para cada sujeira e tudo passa a ser verdade. <em>Agora, somos do amor uma lenda. Os poucos anjos com carne e demônios com alma serão pequenos diante de nós, o amor será tão raro quanto um eclipse e todos aqueles que tentarem nos matar, morrerão,</em> ela falou com tristeza.</p>
<p>Por isso, caro amigo, tenho os pés na lama, mas o olhar voltado para o céu. Quero os naufrágios e o fogo do inferno e não ser, simplesmente, um anjo ou um demônio. Não quero oferecer minhas misérias na correnteza da vida, nem guardar do amor somente gozos e suspiros. Mas, apesar de querer enfeitar minha vida e virar lenda, de querer o perigo para obter o descanso, pergunto-lhe, novamente: Há ou não algum juízo no amor?</p>
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		<title>Senhor dos Destinos</title>
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		<pubDate>Tue, 18 May 2010 16:57:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Cláudia Magalhães</dc:creator>
				<category><![CDATA[Geral]]></category>
		<category><![CDATA[Carta]]></category>
		<category><![CDATA[Cláudia Magalhães]]></category>
		<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[Quarta-feira, 18 de março de 2009
Caro Sr. Fulano,
Possuo uma crueldade excepcional que, quando adormecida, cede lugar a uma ternura intrigante, curiosa, que me entorpece, me alivia. Sou escravo dessas duas realidades. Elas me fazem nascer e renascer, todos os dias, e me tornam humano. Sempre que atravesso a delicada e invisível fronteira que as separam, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/05/cartas_fechadas.jpg"><img class="alignright size-medium wp-image-17847" title="cartas_fechadas" src="http://www.substantivoplural.com.br/wp-content/uploads/2010/05/cartas_fechadas-294x300.jpg" alt="" width="278" height="283" /></a>Quarta-feira, 18 de março de 2009</p>
<p>Caro Sr. Fulano,</p>
<p>Possuo uma crueldade excepcional que, quando adormecida, cede lugar a uma ternura intrigante, curiosa, que me entorpece, me alivia. Sou escravo dessas duas realidades. Elas me fazem nascer e renascer, todos os dias, e me tornam humano. Sempre que atravesso a delicada e invisível fronteira que as separam, sou tomado por uma espécie de estupidez execrável que, com o passar dos anos, me fez perceber que o espaço que separa a vida da morte é feito de silêncio, do simples quebrar de um salto, de uma brevidade não medida pelo tempo. Somos movidos por uma bomba-relógio chamada coração, cujo controle não nos pertence. Deixei de sentir revolta, aprendi a não brigar com o que desconheço, perdi o sentido do pecado.</p>
<p><span id="more-17841"></span>Acredito basicamente em três coisas: na inexistência de Deus, na existência da maldade e na magia da Literatura. Ah&#8230; A Literatura! Ela coloca fantasia na sola dos meus pés, arranca minha língua, educa meus ouvidos e quando dou por mim, sou mais um personagem dos Deuses de minha vida. Identifico-me bastante com Édipo, todos os dias, quando acordo, furo meus olhos para não enxergar a podridão do mundo.</p>
<p>O que falar da Literatura que provoca? Que destrói o belo e se masturba quando apresenta as baixezas do homem? Engana-se quem acredita que ela não espera por resposta. Todo bom livro delira de gratidão quando nos arranca uma lágrima, de alegria ou de dor, que usa, sabiamente, para afogar suas traças.</p>
<p>Nada há de extraordinário em minha vida. Rejeitado pelos meus pais, ainda adolescente, eu roubava para sobreviver. Amante da solidão, usava o dinheiro para pagar o quartinho fétido da pensão, comprar comida e livros nos sebos da cidade. Antes de dormir, sentava com alguma bebida barata e escrevia sobre o meu dia, hábito que mantenho até hoje. Escrever é minha única forma de perder a sanidade quando não estou vendo um bom filme ou lendo um bom livro. Não conseguindo viver na “normalidade”, escondo-me em qualquer lugar dentro das infinitas possibilidades das palavras, em seus altares devassos, em seus inferninhos divinos, onde o ponteiro do relógio move-se na velocidade e na direção dos meus pensamentos, onde a única lei é a de perder o juízo. Sem escrever, enxergaria minha existência da mesma forma que meus olhos, desprovidos de um espelho, enxergariam minhas costas.</p>
<p>Aos vinte e dois anos, cometi meu primeiro crime. A boa quantia em dinheiro apagou, rapidamente, qualquer possibilidade de remorso, afinal, aquele pobre homem poderia, ao atravessar uma avenida, tropeçar em alguma pedra solta e ser fatalmente atropelado. Quem pode prever o futuro nessa bola que gira manipulada pelo desconhecido? Desde então, passei a viver, sempre, de malas prontas. Não permaneço mais que uma semana na mesma cidade. Motivo pelo qual dou de presente meus livros assim que os termino de ler, mas sempre com a dedicatória: Cuide bem deste livro, ele salvará sua vida!</p>
<p>Hoje, o senhor me fez viver um fato curioso, mágico. <em>Quero que atire nas duas partes podres do corpo daquela filha da puta: na buceta e no coração! </em>Foram suas últimas palavras no início da noite. Depois de anotar o endereço, seu rosto, antes nervoso, estampou uma sensação de solidão absurda. Seria essa a face do amor contrariado? Por que sofrer por um simples abandono? Desgraça maior é morar num apartamento luxuoso sem estantes, sem livros! Bem, isso, agora, não importa. Saí da sua cobertura elegante, parei num boteco de esquina, em frente ao fatídico hotel e pedi um conhaque. Quanto mais aproximava a hora marcada, mais aumentava minha excitação. Uma espécie de gozo contido queimava meu juízo e me fazia beber compulsivamente. Não tardou para que ela aparecesse na rua deserta, com um vestido solto, preto, que lhe ia até a altura dos joelhos. Aproximei dela com a fúria de um animal selvagem desprovido de alimento. Assustada com o barulho dos meus passos, ela virou abruptamente e protegeu o peito segurando com as duas mãos um livro: Diário de um Ladrão, de Jean Genet! Gelei até os ossos. Em minha mente, somente, as palavras daquele Deus, cujo túmulo não poderia depositar flores: <em>Conservei-me atento para agarrar esses instantes que, errantes, me pareciam estar a procura, como de um corpo, uma alma penada, de uma consciência que os anote e os experimente. Quando a encontram, param: o poeta esgota o mundo. </em>Essa lembrança eletrizou meus cabelos, escorreu pelas minhas costas, preencheu minha coluna e virei verso. A minha alma farta de poesia assumiu proporções indescritíveis. Vestindo de letras as minhas fraquezas e a minha maldade, tornei-me a mais bela das criaturas. Observando a minha cara assassina coberta de vergonha, ela correu assustada, em direção ao hotel. Se prosseguisse com meu plano, desmoronaria. Não poderia matar alguém com um livro que me fez encontrar o vazio, a existência do mundo e a certeza de saber que não o possuo.</p>
<p>Coloco, agora, sob o seu cadáver essa carta para que outros a leiam quando o encontrarem em sua luxuosa cobertura &#8220;sem livros&#8221;. Peço-lhe perdão, embora não sinta o menor arrependimento, afinal, você poderia tentar, novamente, matar o que temos de mais belo e raro: bons leitores! Quanto ao senhor, quem se importa? O senhor poderia atravessar uma avenida, tropeçar em alguma pedra solta e ser fatalmente atropelado. O que me resta dizer? Desgraça maior é ser Lady Macbeth e ser coroada com a loucura, é ser Othelo e não poder viver em paz seu grande amor, é viver numa mansão sem livros, é saltar para o nada sem ter conhecido o lirismo de Genet!<br />
Ass.: Um amigo.<span> </span></p>
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