A população angicana parecia composta somente pelos torcedores dos dois times cariocas.Nas festas do padroeiro (São José) tinha a Rainha do Vasco e a Rainha do Flamengo.A emergente cultura de massas via rádio deixava para trás as cores antigas, o azul e o encarnado do folclore.Havia pouquíssimos rádios na cidade, um deles estava na casa do meu tio Eduardo Péres, um nome merecedor da minha maior admiração. Era baixinho, bem humorado e querido por todos.Em sua biografia consta ter sido um dos fundadores, com o político e historiador Aluízio Alves, do jornal O Clarim. Em sua casa reuníamos,em meio à rapaziada e os adultos, para ouvir a transmissão do jogo, quando Vasco ou o Flamengo jogava. Quando os dois times jogavam entre si, que fossem ouvir, gritar pelos seus times e brigar em outro terreiro.Anunciava.Com medidas cautelares, como essa, procurava evitar brigas históricas, nas quais o seu cunhado Bartolomeu, vascaíno doente, sempre se envolvia.Batu, como o chamavam, altão e corpulento, num dia em que o Vasco perdeu para o Flamengo, por quatro a zero, não quis mais conversa. Surrou o primeiro soldado que encontrou e mais dois que tentaram socorrer o colega. Um desses soldados era conhecido por Dequinha.
Angicos, Dequinha e Ademir
21 de maio de 2010 às 13:46 | 4 Comentáriospara Jocelin, José Walter e Welligton (primos)
Era um tempo de ódio e muita esportividade. Passávamos as férias, eu e meus irmãos, em Angicos para onde íamos de trem.O embarque, de manhã cedo, era um ritual mágico.A estação era belíssima para quem ia para o interior, com suas salas espaçosas, recebendo uma gente diversificada em seus trajes e destinos.Para quem vinha do sertão o cenário também se oferecia como um presente.À esquerda a Praça Augusto Severo, à direita o Colégio Salesiano onde estudávamos.Talvez por ser moderno aos meus olhos, como todo o prédio, a catraca que dava acesso ao embarque era algo que me fascinava. A viagem toda era uma surpresa, as cidades e as vilas invisíveis representadas pelas estações ferroviárias, com seus nomes devidamente escritos e pronunciados magicamente pelo condutor: Extremoz, Ceará Mirim, Massangana, Itapassaroca.Mas o nosso destino era Angicos. Chegar era uma festa. A camaradagem , entre nós e os primos sertanejos, ia até quando a conversa mudava para temas como o futebol.Então transformávamos em dois bandos: o dos flamenguistas interioranos e ressentidos e o dos vascaínos vaidosos da capital. As discussões, às vezes, iam da destemperança verbal às chamadas vias de fato.Porque Dequinha, e lá vinha um soco, mas Ademir e tome um pontapé de volta. Angicos, Dequinha (foto) e Ademir.
O beque de sítio
19 de maio de 2010 às 11:35 | 3 ComentáriosTivemos, no passado do futebol brasileiro, um nome como o de Domingos da Guia (foto), um beque (como se dizia na época) genial. Desse zagueiro falaram melhor, sobre seus feitos maravilhosos, escritores como Mário Filho, Nelson Rodrigues, Armando Nogueira. E o Luís Fernando Veríssimo que teve o luxo de ver o velho Domingos exercitar, em uma tarde inesquecível, o seu bailado mirífico. Pai de Ademir (que não era zagueiro, mas que era igualmente um gênio), Domingos seria perfeito – não tivesse o Divino inventado a domingada. Uma maneira muito pessoal de jogar, que exigia dos torcedores nervos de aço e de Domingos uma habilidade e um senso estético apuradíssimos. Dribles fantásticos, vejam só, a menos de um metro da linha de gol. Não tive a felicidade de assistir a um espetáculo do mestre Domingos, suas performances de atleta singularíssimo. Fui destinado, no entanto, a ver seus antípodas jogarem. Refiro-me especialmente a uma dupla de zagueiros do ABC F.C., idos dos anos 50: Toré, um corrupto descarado, e Tatá, um medíocre desastrado. Nomes perdidos na memória, meros penduricalhos sonoros. De Toré, tenho uma amarga lembrança: foi quando, num jogo decisivo do ABC contra o América, cometeu um pênalti, segurando com as mãos uma bola centrada para a grande área. De Tatá, o desastrado, a lembrança de um gol contra inusitado. Ao atrasar uma bola para o goleiro, o beque trapalhão deu um bicão tão estúpido, que de nada adiantou o esforço do arqueiro Edson. Aliás, atuações desastradas como essa eram bastante comuns no cenário do futebol nacional. Parece que havia uma enorme carência de zagueiros no Brasil. Lembro-me agora de uma patuscada de Pinheiro, ídolo do Fluminense e heróico jogador da Seleção de 54. Ao bater um lateral, Pinheiro, em um jogo contra o Vasco, resolveu devolver a bola para o goleiro Castilho. Mas com tamanho mau jeito que a bola preferiu se aninhar no fundo da rede tricolor. Passou folgadíssima entre o travessão e um Castilho horrorizado, estátua modelada em cera. Creio que para compensar todas essa deficiências físicas e metafísicas, os atos de corrupção e a inépcia da nossa azaga, e saciar a nossa fome estética – é que se inventou o Beque de Sítio. Agora terei de me explicar. Em Angicos chamava-se Beque de Sítio aquele zagueirão que pratica um futebol rudimentar, uma espécie de proto-futebol, existente em nossas caatingas. E de uma beleza bárbara de deixar qualquer esteta de queixo caído. Lapiau, que saiu dos carrascais da zona rural de Angicos, era um exemplo desses tipos de beque. Grandalhão, avermelhado, tinha um pé de prancha que dispensava chuteiras, exibindo descalço suas performances no campo, deserto de gramas, da Favela. Com tal destreza e brutalismo Lapiau despachava seu chute para o alto, que a bola ultrapassaria as nuvens, se nuvem, por acaso, houvesse no céu limpíssimo de Angicos. A bola descrevia, ante meus olhos espantados, um arco ogival perfeito. Digno de uma catedral gótica.
Uma breve antologia de gols
14 de maio de 2010 às 12:34 | 2 ComentáriosPara François Silvestre e João da Mata, atacantes imprescindíveis em qualquer Seleção.
Há gols, como dizia Mário Filho, feitos para se guardar. Concordo com o grande jornalista e escritor, considerado o Homero do futebol brasileiro. Mas acho por demais singela a afirmação de Mário. Gols existem que reclamam o canto coralístico da poética grega. E mais: exigem o cinema novo de um Joaquim Pedro de Andrade (que monumentalizou Garrincha em um documentário); ou as vertiginosas imagens de um Jorge Furtado. Velho colecionador de gols e de sonetos, pensei em organizar uma brevíssima antologia de gols. Efêmeros, como a arte do século XXI, e imortais. Lanço-me então em uma nova aventura, com a mesma paixão que me animou, há alguns anos, a publicar uma antologia de sonetos norte-rio-grandenses. O meu grande sonho, aliás, seria este: organizar uma antologia universal de sonetos, desde o soneto de Petrarca ao soneto pop midiático de Alex Nascimento e de Alex Medeiros.Uma pequena bíblia cult.Mas voltando à imaginária antologia de gols. Em minha escolha literário-esportiva encontraria o leitor gols como o de Edmilson, em 2002, em um jogo da Seleção contra Costa Rica- um voleio (palavra sonora e esvoaçante); uma quase bicicleta na versão do meu irmão Jamilson, conhecedor, mais do que eu, dos segredos do futebol. A visão didática de Jamilson só faz acentuar a minha perplexidade diante do indefinível, do não catalogável, da rarefeita linha que separa a realidade da ilusão. E o gol de Edmilson acabará entrando na antologia com esse ar de estranhamento, algo acima das classificações, para além das fórmulas, qualidades centrais de quaisquer obras literárias. Não faltará, em meu hipotético livro, um gol meio esquecido como o seu então jovem autor: refiro-me ao gol de Ronaldinho Gaúcho, em uma histórica partida contra a seleção da Venezuela. E outro, misteriosíssimo, do mesmo Ronaldinho, na copa de 2002 contra a Inglaterra, gol que surgiu da cobrança de uma falta batida à longa distância da grande área. A bola descreveu no ar uma parábola, ou que figura geométrica seja, e enfiou-se justo no ângulo esquerdo da trave. Um chute parecido com um verso de Mallarmé, capaz de iludir todos os sentidos, inclusive o sexto do desolado goleiro britânico. E outros gols- memorizados em bronze nas praças da Eternidade; como os de Pelé, Romário, Zico, Rivaldo, e os mais recentes de Neymar, Nilmar e Robinho. Principalmente os de Pelé; todos os gols do Divino Crioulo, os feitos e os não finalizados, gols que roçaram as franjas da realidade. E gols como o de Sérgio Alves, ex-jogador do ABC F.C., que em um dista nte Campeonato do Nordeste fez um dos mais belos gols de bicicleta do planeta. O gol de Sérgio deverá ser incluído entre um gol de Pelé e um de Leônidas da Silva. Três gols de bicicleta, esculturas vibrantes no ar, como os móbiles eternos de Calder. E, claro, alguns gols de Jorginho, que me levaram à percepção do Sublime. Sem esquecer um ou outro gol de Alberi e Danilo Menezes, em suas funções mais de armar jogadas do que finalizar. Mas os gols que fizeram têm para mim algo de dolorida elegância, e uma soberba que só os príncipes desterrados conhecem.
Louvação Vespertina
13 de maio de 2010 às 14:22 | 8 ComentáriosPor Jarbas Martins
a Franklin Jorge, craque da literatura potiguar
Peço licença para falar de Jorginho, o mais famoso mossoroense que já pisou por estas ribeiras. Sabeis de quem estou falando, ó sexagenário leitor. Os jovens talvez não tenham desse nome a mais fugaz notícica. Era um atacante aguerrido, genial mesmo, que defendia a camisa alvinegra do ABC F.C., idos dos anos 50.Sua figura minúscula dava, aos meus olhos de menino, uma impressão mágica: Jorginho parecia que estava sendo observado por um estranho binóculo que o tornava, cada vez mais, pequenino. E distante, imponderável até. Meu falecido amigo Edmilson de Andrade, comentarista esportivo e parceiro de incansáveis conversas no Café São Luiz, enriquecia-me com dados preciosíssimos algumas idiossincrasias do craque abecedista. Para chamar a atenção dos torcedores, Jorginho cultivava hábitos e manias singulares, como o de simular um jeito desleixado de vestir o uniforme do time. O calção quase nas virilhas, um dos meiões derreado até às canelas, a manga da camisa mal ajustada. Era ágil, insinuava-se entre zagueiros de porte avantajados, conduzindo a bola, serva carinhosa, nos seus pequenos pés de gigante.Um Adamastor entre liliputianos.Matava com precisão a bola no peito, que lhe escorria pela coxa à procura do pé e do chute vitorioso. Ó leitores incrédulos, nenhum jogador causou-me maior admiração. Nem Romário nem Maradona, apelidados também de baixinhos. Nas tardes azuis e bravas de ABC e América, lancei muitas vezes, contra as encostas do morro que nascia além do Estádio Juvenal Lamartine, meu urro de louvor.Um urro como se algum verdadeiro verso fosse de uma ode bárbara. Uma ode ao pequeno notável. ao maior jogador de todos os tempos do ABC F.C. Perdoem-me o tom louvaminheiro. Em época de tantas descrenças, disforias, niilismo, o meu estilo exultatório talvez tenha algum efeito terapêutico. Que fazer ? Mal posso louvar as minhas musas; os dias de hoje são infensas a essas divindades infiéis e anacrônicas. Onde Socorro, vaga estrela no céu da Alemanha ? Louvo Jorginho.
Em defesa do Dunga
13 de maio de 2010 às 10:33 | 2 Comentários
A guerra começou e o jogo vai ser pesado. A imprensa vai conseguir dividir o país como nunca visto em nenhuma outra copa do mundo. Quando uma pessoa competente, verdadeira, de personalidade que não se dobra fácil, entra em relação com a mídia mais fraca, mentirosa e manipuladora desse mundo, podem acreditar: Essa química foi feita pra explodir! Hoje, foi dada a partida.









