A música da abertura da novela Cheia de Charme, da rede Globo, é um achado. Além das comparações absurdas feitas em nome da “pessoa abandonada”, o refrão que a primeira audição se escuta “is my love” do inglês é, na verdade, a internacionalização do termo ex-amor. Ao invés do verbo “is”, a compositora Gaby Amarantos utiliza o prefixo “Ex” e complementa com o possessivo e o substantivo do inglês para gerar o inusitado e criativo “ex my love”. Esse tipo de construção não só retoma, mas também reinventa o brega, que, embora esteja apagado da nossa região, continua com força total no Norte, sobretudo no Pará, com o tecno-brega.
Diálogo para o emudecimento
2 de abril de 2012 às 18:53 | 5 ComentáriosO que não suporto é esse seu desinteresse em reagir.
Esse comportamento ultrarracional é inconveniente à própria vida e ao direito de liberdade particular.
Reagir é necessário em tudo e é por não reagir que estamos assim, não somente você e eu, mas nós todos. Passivos a todas as decisões que nos colocam inseguros e sem segurança.
A vida é dura, abaporu e insistentemente ingrata.
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os funcionários
27 de março de 2012 às 9:13 | 2 Comentáriossangrar eu sangro
sangro todo dia,
quando vou ao detran,
se preciso da saúde,
ou do funcionário público.
mas isso não cabe no poema
viver não cabe no poema
porque o poema não é a vida
por isso, estamos fartos
do lirismo comedido,
do criacionismo criativo,
dos freudianos gabinetados
que se travestem de modos.
salve os intelectuais que já leram tudo
os que ouviram tudo
e que fazem careta
para o resto povo
salve os eruditos
os críticos
os afetados
e o homem público
salve!
os funcionários poéticos
comissionados de parságada
Segunda Edição: Revista Cruviana
26 de março de 2012 às 9:31 | 1 Comentário“Apenas aqueles que, ao escrever, tiram a matéria diretamente de suas cabeças são dignos de serem lidos”.
Schopenhauer
Nenhuma concepção do ato de escrever será suficiente. Escrevemos ou porque precisamos ou porque pensamos saber. O que importa é pensar. Entrar pelo mundo não é uma escolha, fazê-lo como é também não. Porque escrever seria uma? Não há resposta que resolva essa questão por mais absurda que pareça ser.
A Fortaleza sem dono e o Dragão de ninguém
19 de março de 2012 às 14:37 | 6 ComentáriosFortaleza é um caos, disse Anchieta Rolim, assim que entramos na metrópole cearense. Nem sabíamos o quanto. Desde Aracati, tínhamos a impressão de estarmos chegando num estado coerente com a segurança pública. A quantidade de redutores de velocidade na CE – 040, e de homens da fiscalização estadual rodoviária, se igualava ao que vemos no cinema americano. Mas Anchieta, experimentado na arte de ver o mundo, sabia que onde surge a civilização nasce também a tragédia. Tantas ocorrências policiais e acidentes puseram nossos corpos e de nossas esposas, em suspense.
[um]
14 de março de 2012 às 7:36 | 1 ComentárioEm arquivo PDF:
Você é mulher?
14 de março de 2012 às 7:30 | 1 ComentárioMãe, você é uma mulher?
O que?
Você é uma mulher?
Que pergunta é essa?
Só uma pergunta.
De onde você tirou isso?
Não sei, só perguntei.
Não se pergunta essas coisas a uma mãe!
Não?
Não.
…
Por que você perguntou isso?
Já disse, só perguntei…
Mas deve ter tirado de algum lugar (?)
É, pode ser…
Ou é ou não é!
É.
Então, alguém mandou me perguntar isso?
Não.
Mas você disse!
Não, eu não disse!
Sim, você disse: É.
Só disse: É.
Você está me irritando!
Desculpa, mamãe.
Isso é coisa do seu pai?
O quê?
Ou de sua avó, aquela velha!
A vovó é uma mulher?
Tenho minhas dúvidas…
Então a senhora também não é uma mulher?
Que liberdade é essa?!
Não é liberdade é uma pergunta.
De muito mau gosto!
Mas eu só queria saber…
Você anda querendo saber de mais.
Saber é errado?
…
Mãe, eu sou uma mulher?
Que pergunta é essa?
É só uma pergunta?…
A noite é uma mulher desconhecida
8 de março de 2012 às 9:06 | 3 ComentáriosPablo Antônio Cuadra (Nicarágua)
Tradução: José de Paiva Rebouças
perguntou a moça ao forasteiro:
– por que não entra? em meu lar
o fogo está aceso.
respondeu o peregrino: – sou poeta,
somente desejo conhecer a noite.
ela, então, jogou cinzas sobre o fogo
e aproximou na sombra sua voz ao forasteiro:
– toca-me! – disse – conhecerás a noite!
LA NOCHE ES UMA MUJER DESCONOCIDA
Preguntó la muchacha al forastero:
- ¿Por qué no pasas? En mi hogar
está encendido el fuego.
Contestó el peregrino: – Soy poeta,
solo deseo conocer la noche.
Ella, entonces, echó cenizas sobre el fuego
Y aproximó en la sombra su voz al forastero:
-¡Tócame! –dijo -. ¡Conocerás la noche!
Pablo Antonio Cuadra (Manágua, 1912 — Managua, 2002)
foi poeta, ensaísta, crítico de arte e de literatura,
dramaturgo, artista gráfico e ideólogo nicaraguense.
Do preço e da liberdade
27 de fevereiro de 2012 às 15:46 | 3 ComentáriosArte: Schiele
Ela disse que não tinha nada de errado em cobrar e ficou chateada ao perceber que ele tinha a cara amarrada.
Depois, trancou-se por imaginar que ele tivesse preconceito. Não era bem preconceito, ele estava indignado, por isso virou-se na cama.
Tudo que ele queria era ficar com ela, porque os dois combinavam. Jovens, bonitos e famintos, poderiam ficar juntos.
Rapariga de Deuzão
22 de fevereiro de 2012 às 12:49 | 2 ComentáriosArte: DAACRUZ
Marieta esperou que o marido chegasse mais cedo na véspera de carnaval. Perda de tempo. O relógio começou a se demorar e, cada vez que ela olhava-o na parede, parecia imóvel. Ficou irresoluta. A vontade que tinha era de tomar um taxi e ir bater lá na repartição para trazê-lo pelo braço antes que fizesse besteira. Ela pressentia algo. E mulher quando tem pressentimento é melhor agir. Ela agiu.
Rita louca
6 de fevereiro de 2012 às 16:16 | 11 ComentáriosPicasso. Mulher de Costas.
Quando Rita enlouqueceu, gritou e tirou a roupa. Tinha a pele branca e os seios à amostra. Eu devia ter uns oito anos e foi a primeira vez que vi uma mulher seminua. Não por ser uma senhora de quase meia idade, mas daquela cena só ficou o desespero. Seus olhos pareciam ver o que não se via e seus berros ecoam ainda hoje.
Política de menino
30 de janeiro de 2012 às 17:47 | 5 ComentáriosUm dos meus sonhos de menino era ver o país alcançando o patamar de primeiro mundo. Dava mais importância a isso do que a qualquer outra coisa. Foi logo no início, quando pensava que a juventude poderia mudar o mundo a partir das minhas análises aprendidas no movimento sindical e compartilhadas entre os socialistas bucólicos dos meus 13 anos.
Da solidão
24 de janeiro de 2012 às 11:44 | 3 ComentáriosNunca fui tão solitário quanto na infância. Vivia sozinho sem brinquedos imitando os mais velhos ou passarinhando no juremal. Dessa relação ficou uma saudade indizível. Vez ou outra tento encontrar com essa parcela de mim para um diálogo dos que faz chorar. Mas essas lembranças não se constituem sozinhas. Elas estão carregadas de significados e outras imagens de avós, primos e irmãos que, àqueles dias, pareciam personagens do conto de fadas que era a minha meninice.
mi nina, rizzi (passa tempo)
19 de janeiro de 2012 às 10:56 | 3 Comentáriosnina, faz um poema para mim?
não precisa ser lírico nem nada
só peço que ele tenha palavras
não como essas,
palavras, assim… como se diz?
palavras cheias de você mesma.
Sedentário a moda antiga
16 de janeiro de 2012 às 17:02 | 3 ComentáriosNão há nada mais difícil no mundo do que perder peso. Parece uma contradição para mim que, quando criança, tinha vergonha da minha magreza. É certo que naquela época as coisas eram difíceis, mas eu me lembro que comia feito gente grande, na esperança de engrossar as canelas. Talvez, e vocês vão dizer: ahhhhh… meu sedentarismo ajude a me manter acima do peso, mas se era magrela quando comia muito, por que então não consigo perder peso comendo feito um passarinho?
O dia em que o mundo acordou
9 de janeiro de 2012 às 21:09 | 1 Comentário“O dia em que o mundo acordou” [Romance escrito para o Twitter. Original: https://twitter.com/#!/cruviana1]
[1] O Twitter sempre me pareceu algo inacabado, por isso, repeti o de sempre. A hashtag era apenas mais uma sugestão desinteressada.
[2] #moralizejá. Escrevi junto de uma frase pouco antes de desligar o PC. Cai no sono e acordei com o telefone vibrando.
(Indiferente)
4 de janeiro de 2012 às 17:05 | 7 Comentárioso que sei da vida
é que ela passa
o dia passa
as horas passam
e eu passo
o que sei da morte
é que ela vem
o dia vem
as horas vêm
e eu vou
o que sei de mim
é o que sou agora
Cartas para Maria: O segundo olhar
2 de janeiro de 2012 às 17:52 | 10 ComentáriosMenina no tapete vermelho, 1912. Felice Casorati ( Itália 1883-1963) – óleo sobre tela
Você é um mundo. Tive vontade de lhe dizer isso, mas não vi como. Deixei criar uma barreira tão densa entre a gente que não sei mais como transpô-la. Lembro de seus olhos pequenos e assustados, de quem vê a vida vindo sem freios. Eu sou um pouco dessa vida e não sei ser diferente.
A violoncelista
19 de dezembro de 2011 às 14:16 | 1 ComentárioA violoncelista não está cansada nem desagradada, mas decidiu partir. Não há prélio, apenas decisão. Seu rosto é sereno como a sua voz. Cantaria se não tocasse. Decidiu tocar. Calou a plateia quando mergulhou entre os cisnes. Seus olhos cerrados. Seu corpo ereto assemelhava-se a seu instrumento. Sincronia. No meio da orquestra há um deserto para sua presença e, nos olhos da plateia, um recanto para a sua perna desnuda até o joelho. Tudo o que existia era sua perna. E o inferno começava em seu joelho. Prelúdio. É possível ver a beleza de uma manhã fria laçada por um sol ridente que acorda sonolento descobrindo as pétalas com uma sutileza feminina. Há aves passeando sem pressa enquanto outras decolam em revoada. Silêncio e movimento. Como se o dia fosse um branco estirão e a noite uma intermitência, ela tocava. Cobria-se de suas lassidões e calava-se para si mesmo. Contrátil, erétil, instrumental. Havia um silêncio e após a valsa ela caminhou em procura. Deslocou-se entre os arcos e estantes. Desceu as escadas, subiu à plateia e deixou para trás as portas do teatro. Aplausos. Reverências. Mas ela caminhava e já não havia mais vozes, pois a noite era a veste negra como no terceiro ato. Suas pernas cruzavam-se, preguiçosamente, provocando os quadris, e o confronto de seu corpo com a brisa fria sobre o chão esquálido solfejava música, como numa sonata com um sem número de partes. Não há consolo, apenas decisão e a água é apenas uma réstia da lua. A plateia, agora retumbante, explode em fulgor. Bravo! E à estrada comprida, formam-se beirais de aplausos firmes. A sinfônica levanta-se como em um funeral e retoma a valsa acordando a cidade. A noite restringe-se à sua insignificância de noite e esmaece em sua extensão. Já não há mais tempo. A ponte é uma pele de rinoceronte e a água é dos afogados. A distância é um salto e o fundo é do príncipe pelo qual espera toda a sua vida de cisne. Alimentou-se de música como os infelizes e alimentou os infelizes de música. Suas margens sempre estiveram inundadas, mas imerso apenas o sonho de menina, travado em seu semblante orquestral de violoncelista. Branca, como asas abertas ao nascente, ela lança-se ao seu infinito. Olhos cerrados, corpo ereto feito um instrumento violado pelas pernas femininas até os joelhos. Pássaro conquistado pelas águas assemelha-se à correnteza com seu bordado de sombra. As luzes acendem e os aplausos cessam ante o emudecer da valsa. Sem orquestra não há amor nem sobreviventes.
(Música incidental: Valsa No. 2 do ballet “O Lago dos Cisnes” – Piotr I. Tchaikovsky).
Simulacros
7 de dezembro de 2011 às 15:50 | 1 ComentárioJá perceberam que vivemos como se esperássemos algo extraordinário? Como se na hora do assalto a polícia vai fazer o seu trabalho e que ao sermos vítimas de qualquer crime a Justiça não falhará? Estamos sempre pensando no que faremos com o prêmio da Mega-Sena, mesmo sem nunca jogar, ou como nos comportaremos nos programas de auditório quando formos famosos. Quando pensamos assim, criamos uma hiper-realidade, um simulacro, um mundo paralelo onde as ações são criadas por nossas vontades e desejos.













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