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Tédio nosso de cada dia

tédio nosso 1

Nossos gatos nos acordam todos os dias praticamente no mesmo horário. Sabemos o porquê: reivindicam com seus bigodes o primeiro passeio matinal. Depois, cada um deles volta e come ração. Em seguida, tiram uma soneca de umas três horas. Acordam. Comem. Tomam água. Por volta das 16h, novo apelo para o segundo passeio. Voltam. Comem. Bebem. Dormem. Quase tudo corre igualmente idêntico no transcorrer dos dias. Dos anos.

O primogênito já tem mais de uma década da mesma rotina diária. Se fossem eles pessoas, certamente, já teriam gritado ao mundo que vivem no mais genuíno e profundo tédio. Essa coisa pela qual não estamos treinados a suportar. Mas eles são gatos.

Não estamos treinados mas, invariavelmente, somos compelidos ao tédio na grande maioria do tempo. Afinal, nem todo dia é dia santo ou quatro dias de carnaval em Olinda. A repetição é absolutamente inerente à condição humana.

E, acredite, caro leitor, morre-se menos de tédio do que de frustração em não querer admiti-lo. Criatividade, originalidade e a apotheósis não dão em árvore, nem são tão fáceis de se manifestar.

Tal qual um bom orgasmo que tem a duração de segundos, ninguém suportaria uma existência apoteótica em inventividade e criatividade. São necessárias a calmaria e a repetição para que nossa vida seja compreensível.
A ideia de “Livin´ La Vida Loca” só na música do Ricky Martin mesmo. Até a arte, que seria uma espécie de oposto do tédio, da mesmice, da repetição, tem cada vez mais perdido espaço para o abismo da falta de criatividade.

tédio nosso 2Não tome isso como se eu tivesse um trunfo na manga, caro leitor, mas, por exemplo, eu não assisto ao BBB. O programa mais chato, vazio e repetitivo da história da televisão brasileira há mais de uma década de exibição. Seria uma afronta às minhas agonias, fastios, apatias e molezas pessoais, se as substituísse pela dos outros. E, pior, vindas de um programa de tv tão vulgar.

Mas há quem goste de fazer de sua vida um programa de TV.

Nem que ele tenha dez segundos, ou alguns minutos. Vale tudo: mostrar o café da manhã; mostrar que está puxando ferro; mostrar a cor do esmalte; mostrar que está pisando numa calçada; mostrar que mudou a cortina; mostrar que acordou de cara amassada; mostrar a boca em bico; mostrar, mostrar, mostrar. Mais do que viver.

Vale mais que os outros saibam como transcorre aquele interminável minuto de sua vida, do que você parar um pouco para pensar ao menos um minuto na sua vida. É o êxtase da exibição engolindo a profundidade de ser e estar em algum lugar, sendo alguém. Não uma coisa à mostra. Não um objeto a ser consumido pelo olhar alheio. Não uma pessoa que passa pela timeline, mas nunca fica para um café. Uma pessoa que dribla o tédio com doses cavalares de repetição do próprio tédio.

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Sheyla Azevedo

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