Tela bela bendita do mestre

Carlos Gurgel
Mais

veja, ele está pintando, imerso. os artistas, nem sempre imersos ficam. nem sempre ficam absorvidos. tem uns, sim, tem uns, que ficam imersos a vida toda. como a colher para si, uma síncope vasta de tantos rios, paisagens, delírios de uma atmosfera única, espaços de tantos e imersos estímulos, e de tantas e inúmeras formas de uma multidão geográfica da alegria se espalhando por sobre os morros do Tirol e lonjuras.

veja, é por ali, que o artista se faz. por uma tênue fina linha. daquelas que a maioria deles não conseguem enxergar. daquelas que o tempo passa por eles, e distribui paixão pela vida toda. essas linhas, são como recados do inconsciente. daquele inconsciente tão vivo, pulsante de cores e de desafios. daqueles por onde o artista se embrenha e não volta mais. de tanto encanto, de tanto e perseguido arrebatamento. pois sim, esses artistas são eleitos pela natureza que os acompanham. são eleitos, porque eles sabem mais do que qualquer outra pessoa, o caminho que percorrem, e que obrigatoriamente tem que ser concluído, como seu roteiro, como seu lume, como um amálgama repleto de tantas e preferidas escolhas por entre matas, folhas, florestas de uma cidade amada e querida.
unnamed
veja, lá vem ele. com seu reinado de olhares vastos. com seu elegante e precioso sorriso nos olhos. como a dizer para si mesmo, que ali, ele manda. que ali, ele sabe o reinado das escondidas sombras, daquelas ladeiras por onde desfilam seus senhores e destinos, por sobre a imensidão de um imaginário, e de tudo que torna real sua lente, como realidade da sua semente que brota, tão exigente, essência bruta, pura, lapidada e sanguínea.

Dorian Gray Caldas, passou toda a sua vida sonhando, como um peregrino de árvores ao redor dos seus enormes casarões imbatíveis e tão lindos de se ver. pela sua forma, expressiva forma de ser e de sentir, cintilante pincel nu burilando suas tintas, uno universo colorido do mestre, sempre singrando ao redor do mar do seu firmamento, porto de tanta exuberância de tonalidades vastas e raras. por dias, ele se sentia simplesmente humanizado, escolhido pelo seu íntimo, como uma poesia lírica do seu lugar. como uma canção que cantava seus recantos e navios. outros dias, como uma chuva que vinha, ele se molhava, e comemorava seu tempo como uma lupa revestida de incansável alcance e valor. como um homem do bem, marinheiro banhado das fronteiras do seu território colorido de hastes e da bravura das suas mãos e óleos.

veja, esse artista sempre ofereceu seu suor, mais do que o tempo da vida dele, solicitou. porque ele sabia, que todas as paisagens que porventura ele pudesse criar, estariam como sobrevoando as calçadas das ruas, como vultos, sombras das suas aventuras e triunfos.

veja, por aqui ele passou. por aqui ele viveu. por aqui ele foi feliz. por aqui ele reuniu sua família e deu o pão aos seus amigos, familiares de uma lua erguida. veja, hoje é um dia que a ausência do mestre, alimentará alamedas, becos, ladeiras e calçadas. sim, assim ele passou por esse chão. assim ele se fez filho e pai. esposo e temporada. assim ele se fez semente e amigo. assim ele se fez cidadão de uma esquina, mar criativo, irmão da brisa que ele escolheu para suas janelas, suas costelas. de um singular farol por onde ele sempre celebrou sua aldeia, esse seu predestinado chão. como uma ampulheta, cria da sua vila percorrida pelas suas preciosas praças, como um presépio deus da sua riqueza e paz.

Share:
Carlos Gurgel

Comentários

Leave a reply