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Tempo de sofrer

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Fui à Ribeira dia desses. Em uma das ruas perpendiculares da Duque de Caxias, havia estacionado um carro do Itep. Dentro dele alguns homens que pareciam capturados, sendo vigiados por policiais.

Na verdade, estacionado é eufemismo porque o carro, sob a condição do uso (e abuso) estatal estava parado no meio da rua. Mas não foi isso que mais me chamou a atenção. Um dos detidos estava visivelmente abatido. Como se tivesse levado uma grande surra, ele oscilava para um lado e outro, prestes a desabar. A cena chamou roubou a atenção de muitos outros, causando um certo frenesi.

“É pra ser assim mesmo! Tem que dar com força. Quando esses caras assaltam uma pessoa, eles não têm pena de ninguém. Tem mais é que botar pra *@#$%$#”, esbravejava um ambulante.

Eu não acho que mais violência dessangre a violência nossa de todos os dias. Eu não acredito que tratar com a mesma moeda o agressor vai torná-lo uma pessoa melhor ou um pacifista.

Essa ideia de punição, de olho por olho, dente por dente, legitima uma opressão que só tem crescido no nosso país nas últimas décadas. É um tipo de fascismo substantivo que incendeia os ânimos de alguns homens de bem.

A diferença é que agora, em evidente crise, o estado de exceção, a violência periférica, a falta de estrutura e de direitos não atingem somente as classes menos favorecidas – historicamente o alvo dessa violência. O estado de exceção chegou na classe média.

Aumentaram os crimes, os assassinatos em padarias e farmácias, execuções nas esquinas de importantes avenidas da cidade em bairros nobres. Somos todos alvos, ou pelo menos 97,3% de nós. Porque sim, existe uma pequena casta blindada, apenasmente observadora e donatária de tantos privilégios que são capazes de ficar mais ricas e “prósperas” nessa crise que tem drenado até mesmo nossas esperanças.

Aliás, os últimos dias não têm sido fáceis.

Vivemos num tempo de sofrer constante no quesito crueldade política, social, econômica, conjuntural, midiática e patriarcal. Estamos sempre diante de aberrações.

O deputado energúmeno que eu me recuso a falar o nome, disse em um discurso no Rio que teve uma filha porque “fraquejou” na hora do sexo; um sujeito no BBB que só foi expulso após alavancar por meses a audiências com sua atitude abusiva contra a namorada; o homem do aviãozinho de dinheiro das noites de domingo achacando e humilhando a funcionária Sheherazade (que costuma achacar e humilhar em seu telejornal quem pensa diferente dela); estudantes de medicina fazendo fotos com as calças arriadas e simulando vaginas com as mãos. Enfim, frente a esse estado de coisas, resta-nos ficar mais atentos a o que dizemos, pensamos e fazemos. Sermos também mais compreensivos e solidários uns com os outros. Talvez um mundo mais justo ainda possa surgir.

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Sheyla Azevedo

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