Tempo-Será

1 de fevereiro de 2010 às 14:29 - Comentar
Por João da Mata

Para o teatrólogo e poeta Jairo Lima

TEMPO-SERÁ: 28 anos de um projeto teatral coletivo

“… o amor se vai o mar se sono se esvai como diz: o caso está enterrado a canoa do amor se quebrou no cotidiano estamos quites inútil apanhando de mútua dor mútua cota de dano”. (Maiakowisky).

Em 1982 uma experiência teatral muito bonita na cidade de Natal. Um grupo formado basicamente de professores universitários no início da carreira, alguns já retornando do mestrado e cheios de sonhos e projetos.

A idéia era montar uma peça teatral com textos do grupo e de outros autores que se afinavam com a temática das contradições do homem. Uma criação coletiva, altamente enriquecedora para todos do grupo. Líamos tudo que envolvesse a contradição. Um dos livros mais lidos pelo grupo era o Escuta Zé Ninguém, do Wilhelm Reich. Líamos muito Engels, Marx e todos os clássicos da dialética.

Um livro na mão, e muitas idéias na cabeça. Um laboratório dramático, de voz e expressão corporal. Um não findar de discussões teóricas e exercícios do corpo, dirigido pela amiga e professora Vera Rocha. Éramos rodeados de pessoas amigas e profissionais da maior competência. Eugenio Lima cuidava dos arranjos musicais, e Glênio Sá educava nossas vozes que cantava o poema de Ferreira Gullar: “uma parte de mim é todo mundo, outra parte é ninguém fundo sem fundo”.

A iluminação foi feita por Carlos Meirelles, e Eduardo Salmar foi o assistente de produção. Elizabeth Raulino fez a programação visual. Joana Lopes (autora de Pega Teatro) era amiga do grupo e deu muitas sugestões valiosíssimas. Joana, na apresentação do programa da peça, escreveu; “todos eles se dedicam à educação, embora sejam vistos como funcionários públicos. Eles falam em Tempo Será de contradições, algumas covardes, outras magníficas. É uma aventura cotidiana, dessas que não têm final feliz aparente, mas permite perguntar se os amantes da última cena vão jantar a vida a dois”.

A última cena eu fazia com a colega Lívia, numa dramatização de um texto do Veríssimo. A Troupe Teastral era formada pelos atores Fausto Faria, João da Mata Costa, Juca Villaschi, Lenira Dantas, Lívia Penna Firme e Sérgio Fialho. O texto da peça era de autoria do grupo, do Luís Fernando Veríssimo, Cecília Meirelles e Pablo Neruda. A estréia da peça se deu no Teatro Alberto Maranhão – em Natal, nos dias 13 e 14 de dezembro de 1982. Um tremendo sucesso e um exemplo do que o coletivo pode num tempo que sonhávamos com a transformação do país e do mundo. Uma experiência rica e prazerosa para todo o grupo. Um fazer teatro diferente, onde o processo foi mais importante que o produto final apresentado ao público.

A peça ainda seria apresentada em Campina Grande e Recife. Nesses 28 anos não poderia deixar de registrar esse belo momento de Natal, e de nossas vidas – e dizer da saudade que tenho de todos os que faziam a Troupe Teastral. “… Quem me vê assim cantando não sabe nada de mim… ”

O amigo e ator Olinto Rocha, resumiu bem essa experiência: Vários séculos de paixão retomados em quase um ano de trabalho. Paixão de representar. A magia do corpo, da voz, do palco, tentando construir uma verdade. Representação de realidades pequeno-burguesas, das nossas contradições e disfarces. Uma reflexão, no palco, do que está em torno (e dentro) de cada um.

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    COMENTÁRIOS

    • Fernando Monteiro: Belo hai-cai, Poeta -- obrigado! -- com essa certeza, sempre, de haver sido LIDO, sim, quando o ouvido apuradíssimo da LEITURA (raridade rara - tautologia necessária) é não menos que o do Poeta que sucedeu, aí, em grandeza lírica, o querido (saudade!) Luís Carlos Guimarães: JARBAS MARTINS. - As asas da noite que surgem (1)
    • Daniel Menezes: O direito autoral é a apropriação individual de conhecimento coletivo. Tipo assim, a sociedade trabalha para promover a cultura objetiva e depois, alguém, por um impulso social, produz algo. Afinal, uma sociedade sempre gera as questões que pode responder, já dizia o barbudo. Este "inventor" (expressão burguesa) não produz a "novidade" sozinho e nunca partindo do zero. Depois de feito, diz que aquilo é dele. Só muito aparato estatal para empurrar isso pela goela. - Pirataria
    • Ednar Andrade: Boa noite, Marcos, amigo, querido. Também acho maravilhoso reencontrá-lo. Já sentia a tua falta aqui neste espaço. Saudades. Eu sou, tu és, Rio corrente. Não demores. Beijos, querido. - Fio de luz
    • Regiane de Paiva: Não sei dizer o quanto este texto me emocionou. Aqui sinto a literatura e a vida. Cada metáfora ou descrição de um recorte da memória provoca uma sensação de nostalgia e de melancolia. Llosa afirma que nada ensina melhor que a literatura a ver a riqueza do patrimônio humano e a valorizá-la como uma manifestação da sua múltipla criatividade. Desta forma, entendo que este texto é literatura pura! Literariedade, primor e encanto! Beijos in..... marido! - Da solidão
    • Regiane de Paiva: O título é a extensão do texto. A fala pueril dentro de um contexto como a política remeteu a uma bela reflexão. À medida que eu ia lendo o texto, ouvia uma voz de menino atrás dos meus olhos, parece que o menino conversa fitando o leitor... Texto maravilhoso! - Política de menino
    • Jarbas Martins: UM HAI-CAI PARA FERNANDO MONTEIRO A noite, com gesto brusco,/ roubou um naco da tarde/ e se esgueira pelo subúrbio. - As asas da noite que surgem (1)
    • Jarbas Martins: Fernando Monteiro, sim. E o pouco que li de António Lobo Antunes. - As asas da noite que surgem (1)
    • Jarbas Martins: Juan Ramón Jiménez, sim. E a boa tradução de Antonio Cícero. - Juan Ramón Jiménez: "Soledad" / "Solidão"
    • Marcos Silva: Não assisti à montagem de Roda Viva, eu morava em Natal na época. Li o texto, vi fotografias, ouvi depoimentos (inclusive de Anna Maria Martinez Correa, historiadora e irmã de José Celso, que acompanhou os debates sobre a agressão aos atores da peça). A peça foi recuperada na auto-vitimização de Marília Pera como justificativa para seu apoio à candidatura de Fernando Collor... Na época da encenação, atribuía-se a agressividade da peça ao diretor José Celso. Chico Buarque, com muita dignidade, declarou que o texto era integralmente dele. É difícil dizer para um autor o que ele deve ou não autorizar fazer em relação a sua obra. Roda viva existe como memória. Talvez seja legal pensar, hoje, numa peça sobre Roda viva (que tal uma peça sobre a invasão do teatro pelos terroristas de direita, que contavam com apoio de estado?). En passant, discordo de Alonso sobre a peça criticar APENAS a Jovem Guarda. É claro que ela aborda toda a indústria cultural, que lançou inclusive... Chico Buarque de Hollanda! Nesse sentido, é preciso explorar em profundidade as ligações entre a peça e canções posteriores, como "Agora falando sério" e "Essa moça tá diferente". - Zé Celso questiona decisão de Chico de vetar encenação de 'Roda Viva'
    • carlos de souza: devia liberar a biografia, que não tem uma sequer revelação que já não tenha em sua discografia e reportagens jornalísticas. punir um escritor sério por pura babaquice diminui sua aura de "rei", isso sim. - Roberto Carlos autoriza relançamento de seu disco "proibido"