Tese inédita escancara o lado desconhecido de um Cascudo musicólogo

Luana Ferreira
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“Os nossos cantadores, esquecidos pelos estudiosos no Brasil, um dia merecerão frase semelhante ao espanto louvaminheiro do frade […]. O pior cantador é quase excelente”. Foi assim que Câmara Cascudo começou a coluna Acta Diurna de 31 de Janeiro de 1945. O frade em questão, de nacionalidade portuguesa, teria dito, ao se deparar com os luxos de outro frade, esse inglês: “O inglês é tão rico que os próprios talheres de prata são de ouro!”. O folclorista dedicava aquele artigo à literatura oral sertaneja “assombrosa de recursos, de curiosidades, de imprevistos, de originalidade”. Comparando-a às manifestações de outras nacionalidades, concluía: “nenhum documentário estrangeiro suporta o confronto”. As informações estão contidas na tese de doutorado de Claudio Galvão Alguns Compassos – Câmara Cascudo e a Música (1920/1960), defendida pelo historiador em 2011 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Ela acaba de virar livro que será publicado pelo SESC.

A Acta Diurna, publicada no jornal A República, foi uma das colunas mais longevas de Cascudo e onde ele concentrou observações sobre a música produzida no estado, no Brasil e no exterior – ele também escreveu sobre o assunto em A Imprensa, Diário de Natal e O Poti. No conjunto, essas crônicas constituem um espaço valioso onde o folclorista registrou parte da memória musical do Rio Grande do Norte; documentou também parte da história oral; e apresentou aos potiguares acontecimentos nacionais e internacionais de que tomava conhecimento ou participava, servindo às vezes como fonte única do que aconteciam além das fronteiras do estado.

A Acta Diurna era também uma espécie de trincheira onde Cascudo defendia a valorização e o registro da música sertaneja, das modinhas, das serenatas, e incentivava a criação de instituições, orquestras e associações de músicos. Foram 168 crônicas dedicadas a temas musicais. Nenhum dos mais de cem livros que publicou (o número exato não é conhecido) traz o tema musical como figura central. Nem essas crônicas haviam merecido estudo minucioso até que o historiador Cláudio Galvão resolvesse tomá-las como tema de sua tese de doutorado.

Claudio Galvão Foto: Rodrigo Sena

Cláudio Galvão
Foto: Rodrigo Sena

“Eu mexi num assunto que todo mundo conhecia, mas ninguém dava valor. Aí eu mostrei que era muita coisa, e sim, era pra dar valor. É pra se dar valor ao Cascudo musicólogo tanto quanto ao Cascudo folclorista”, opinou Claudio Galvão. O único registro em livro dessa faceta do folclorista está em Cascudo – o musicólogo desconhecido, de Gumercindo Saraiva, um relato de poucas páginas escrito a partir do convívio do autor com o amigo.

Claudio Galvão não apenas resgatou tudo o que Cascudo escreveu sobre música, como construiu uma biografia musical do etnógrafo, transcreveu entrevistas que fez na época em que coletava dados para o livro A Modinha Norte-Riograndense (EDUFRN, 2000), analisou uma a uma as cartas que ele trocou com Mário de Andrade e reuniu todos os verbetes de Dicionário do Folclore Brasileiro que tratam do tema. As entrevistas são um regalo dentro do regalo: Cascudo está à vontade, brinca, conta histórias. “Nunca vi ainda um entrevista tão Cascudo, tão ele, tão rica de informações”, disse Galvão.

foto-cascudoO historiador ainda não tinha ideia, mas já coletava dados para a tese há 30 anos, quando começou a frequentar o arquivo da República para escrever A Modinha. Leu tudo e anotou o que pode das edições de 1889 a 1952. “Já tinha muita coisa arrumada. E teve o auxílio espetacular do livro de Zila”, lembrou, fazendo referência a Luís da Câmara Cascudo: 50 anos de vida intelectual – 1918-1968 (1968), da poeta paraibana. Encontrava também muitos apontamentos musicais em livros insuspeitos como Conde d’Eu e Sociologia do Açúcar. Pesquisa e Dedução.

Nas entrevistas, Cascudo comentou com Claudio Galvão a vontade – e a falta de tempo – de se aprofundar mais no tema. “Eu tinha uma missão muito complexa para realizar e realizei. Ou ia para uma coisa ou ia para outra. E eu me decidi pelo Dicionário do Folclore Brasileiro, mais de 4000 verbetes, feito sozinho, em Natal, viu? Imagine a luta para conseguir uma coisa”. Cascudo trabalhava sozinho, à noite, com o charuto na boca e as mãos agitadas na sua Remington. Nunca tirava cópias. Depois, lamentava quando perdia as anotações.

O PIANEIRO
As incursões do pensador no mundo musical não eram esporádicas, nem mesmo deliberadas: o folclorista tinha a música em sua cabeça, convivia com cantadores, compositores, violeiros, aprendeu a ler partitura ainda pequeno, se dizia “pianeiro”. A mulher, Dália, era pianista.“Se ele não soubesse música, certamente teria conhecido menos o folclore”, disse Claudio Galvão. “Essa linguagem artística percorre toda sua obra e também sua atuação como animador cultural”, opinou o professor de história Marcos Silva, autor de “Dicionário Crítico de Câmara Cascudo”, que orientou Galvão na tese.

Foi Marcos Silva quem insistiu na ideia do mestrado, que depois virou doutorado: Galvão é historiador da UFRN, mas sempre conduziu suas pesquisas fora da estrutura acadêmica. Publicou vários livros importantes além de A Modinha, como Campo da Esperança, sobre um padre que viveu os horrores da concentração nazista, e as biografias de Oriano de Almeida, Tonheca Dantas, Othoniel Menezes e Oswald de Souza.

SITE_EXPOSICAO_CAMARA_CASCUDO_1Cascudo e Galvão encontraram-se muitas vezes, aquele como professor e apreciador do Clube do Violão, este como estudante curioso e membro do clube. O folclorista incentivava o jovem pesquisador a se aprofundar no tema musical. “Você, Claudio, deve compreender que estou entusiasmado com você. Entusiasmado porque eu não podia realizar porque eu estava preocupado com outras pesquisas”, disse nas entrevistas. “Claudio Galvão expande a reflexão sobre Câmara Cascudo pelo campo específico que escolheu, a música, e pelo extremo zelo na pesquisa e na exposição de suas conclusões. Onde encontrar um balanço tão sistemático sobre o assunto quanto esse que Claudio realizou?”, perguntou Marcos Silva.

Cascudo era elegante, bon vivant, usava monóculo e polainas, e morava na casa do pai, o riquíssimo Coronel Cascudo, no tempo em que as serenatas eram a maior diversão das madrugadas da cidade. “Como todo menino bem educado daquele tempo, a música fazia parte da diversão. Havia as serenatas, que eram as tertúlias ao ar livre, com violões e segundas intenções. As famílias recebiam os seresteiros e todas as serenatas passavam pela casa de Cascudo”, descreveu Galvão. O folclorista não participava das cantorias, já que era resguardado pela mãe por ter saúde frágil, mas tocava piano com facilidade, conhecia harmonias, improvisava. “O pai, e depois ele, encomendava aqueles sucessos da década de 20. Ele ouvia as músicas, gravava a melodia, ia pro piano e improvisava. Oswald de Souza via o quanto ele era bom”.

Ainda com 14 anos, ele preocupou-se em registrar em um caderninho de páginas brancas as letras das modinhas, que eram compostas, cantadas e depois esquecidas. Nas Acta Diurna, lamentava o fim das serenatas, divulgava os musicistas locais, incentivava a criação de uma orquestra para Natal e uma associação de músicos – essa era uma ladainha repetida sempre que escrevia sobre o assunto. “Essas crônicas repercutiam muito em Natal”, afirmou Claudio Galvão. Ajudou a elaborar o estatuto do Instituto de Música, de onde foi professor por mais de uma década (talvez duas décadas). Colaborou com a revista Som – a única dedicada exclusivamente ao tema no país nas décadas de 30 e 40 -, criada por Waldemar de Almeida e onde colaborava o amigo Mário de Andrade. Foi também diretor cultural da Rádio Educadora de Natal.

ESTUDOU, ESTRAGOU
O folclorista era amante e entendedor das músicas erudita e popular, às quais dedicou muitas observações à maneira “impressionista” que lhe era característica. “Todo o amante Chopin é a tristeza resignada dos místicos. Beethoven é o alarido potente do agitador. Shakespeare da música, conhece toda a alma humana. O infinito se deixou ver. Beethoven diz o indizível”, escreveu aos 23 anos em A Imprensa, jornal do coronel Cascudo. Achava o máximo ter conhecido pessoalmente Noel Rosa, cuja biografia, No tempo de Noel Rosa, dizia ter lido oito vezes. “Que livro, Almirante! Vive a viúva de Noel Rosa?”, escreveu para o autor do livro, por certo para colher mais informações sobre o sambista. Era amigo do maestro Villa-Lobos, que um dia lhe confidenciou que seus maiores “entendedores” não sabiam música. Defendeu que o cavaquinho não é brasileiro, mas português, e que o violão (“bebedor de champanhe e de cachaça”) é o mais popular dos instrumentos. “No caso de Cascudo, é visível o diálogo com tradições naturalistas e a vontade de se aproximar das modernidades. Ele não valorizaria tanto o local e o regional se não possuísse esses horizontes teóricos”, avaliou Marcos Silva.

Compositor Oswaldo de Souza - outro biografado por Cláudio Galvão - e Cascudo. FOTO: ACERVO DO LUDOVICUS - INSTITUTO CÂMARA CASCUDO

Compositor Oswaldo de Souza – outro biografado por Cláudio Galvão – e Cascudo.
FOTO: ACERVO DO LUDOVICUS – INSTITUTO CÂMARA CASCUDO


É explorando a música sertaneja que Cascudo se mostra à vontade, completo dominador do assunto. Ele passou a infância no sertão do Rio Grande do Norte e Paraíba, o que marcou profundamente o seu gosto musical. “Cantei, dancei, vivi como todos os outros meninos sertanejos do meu tempo e vizinhanças, sem da existência de outro canto, outra dança, outra vida”, escreveu. Reivindicava mesmo autoridade para falar no assunto, e defendia que os cantadores não deveriam ser influenciados pelo ensino musical. “Estudou, estragou. O traço verdadeiramente característico no cantador é a sua cultura por intuição, as imagens, o ritmo bárbaro e impressionante dos martelos, emboladas e desmanchas. É que eu sinto a poesia do sertão quando ela vem da alma do sertanejo e nunca do seu cérebro”.

Nas muitas cartas que trocou com Mário de Andrade , em que sempre abordava temas musicais, defendeu a monotonia da cantoria nordestina e a singularidade de, nos desafios, os cantores sertanejos não usarem refrão ou acompanhamento melódico. “Todos os rapsodistas foram assim. Nada exclui, mestre Mário, que o canto seja monótono. Tem razão de ser monótono. Razão fisiológica. Razão psicológica. Razão técnica. Razão tradicional. Quatro razões para ser e estar sendo monótono”, argumentou.

O comprometimentos da visão e da audição aborreceram o compositor nos últimos anos de vida. Usava um daqueles precários aparelhos auditivos da década de 70, que o fazia gritar, irritado, sempre que falhava: “Dália, estou fora do ar!” Dizia que “ouvia” em silêncio concertos inteiros antes de dormir. Lamentava por não poder mais tocar o piano que o acompanhou a vida inteira. “Meu piano é tão velho, tão velho que não toca mais. Nos aposentamos nós dois, eu e o Pleyel”.

* Matéria publicada na Revista Palumbo em 2011, atualizada

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Luana Ferreira

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