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The Affair – Temporada 1 (Piloto)

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Já tinham me falado em The Affair, que venceu o Globo de Ouro de Melhor Série Dramática em 2015 e tem as duas primeiras temporadas disponíveis no Netflix, mas está com a terceira sendo exibida nos Estados Unidos. No entanto, só agora procurei e vi o piloto que, de primeira, prende-nos àquele universo de expectativas e questões que vão sendo suscitadas à medida que a trama vai se desenrolando. Sobretudo porque, logo no início, The Affair se organiza entorno de um embuste narrativo, da complexidade da polissemia da imagem e de um sistema polifônico com seus diversos pontos de vistas, cuja verdade do que vemos e pensamos saber não passa de uma situação transitória.

Alguns aspectos – por serem espécies de nós narrativos a pontuarem e enlaçarem as partes e fragmentos num todo orgânico – são definidores logo na primeira visão: a situação dramática de Noah (Dominic West) e Alison (Ruth Wilson), possivelmente, em um inquérito que, paralela e inicialmente em off, vai costurando a história que se desenrola, ao mesmo tempo, no presente e no passado. Outros aspectos, de imediato, já provocam a necessidade de revisão, em função do jogo e labirinto narrativos aos quais nos deparamos logo que a parte da personagem Alison é anunciada – classicamente – em letreiros. Nesse momento, entram em cena os elementos de inversão ótica, que demarcam a segunda parte (olho) daquela história ainda dentro do piloto e o piloto como um todo.

[Spoiler]

Daqui pra frente é por sua conta e risco, pois entraremos em passagens importantes para melhor compreendermos esse labirinto narrativo – à primeira vista – caudaloso, enigmático e escorregadio. Obviamente, este também não é um texto para quem ainda não viu o piloto de The Affair e não queira abrir mão de por si desvendar seu universo com um olhar longe de qualquer mediação, que muitas vezes mata o olhar de inocência e descoberta tão necessário para os impactos de uma primeira percepção. Como ja disseram os franceses, a busca de outras mediações pode vir logo em seguida. Mas, antes, veja The Affair com seus próprios olhos, a não ser que queira relevar essas ponderações por se tratar de um texto sobre o primeiro episódio, que certamente não tem como dizer tanto sobre toda uma temporada.

Se é assim, já pode saber que, em The Affair, em uma ponta do novelo, temos Noah e, no outro, Alison. Noah é professor da rede pública, tem mulher e quatro filhos e acabou de lançar seu primeiro livro: “Todo mundo tem um livro dentro de si, mas nem todos tem um segundo”. Alison é garçonete em uma lanchonete – tipicamente – americana de beira de estrada, mora com o marido na casa deixada pelos avós pescadores e perdeu o filho com 4 (quatro) anos… para quem, ajoelhada diante do túmulo com um livro no colo, lê a história de Peter Pan. Noah e família, que moram em Nova York, pegam a estrada em direção a casa do sogro que fica no litoral de Long island, EUA. Ao pararem na lanchonete onde Alison trabalha, o jogo narrativo tem início e o labirinto ótico se instala.

Mas sobre o que estamos falando?

O primeiro episódio é dividido em duas partes, sendo a primeira toda sob o ponto de vista de Noah e, a segunda, de Alison. Nesse jogo, assistimos a mesma história com as mesmas situações e atos, tanto na primeira (sob a perspectiva e olhar de Noah) quanto na última parte (sob o olhar e a perspectiva de Alison). Em ambas, o ponto de vista dos personagens sobre o outro, seus dilemas e o mundo, mas especialmente sobre os fatos e atos que os envolvem, passa a ser o nosso ponto de vista. A série The Affair, assim, nos coloca frente à história como se fôssemos um dos personagens (ou melhor, um dos dois personagens principais em cena). Nesse sentido, uma história espelha a outra, mas sobre outro ângulo, viés, lógica e sentimentos e, como espectadores inseridos nesse jogo ótico, mudamos nossa lógica, viés, ângulo e sentimento sobre o outro.

A sequência em que a família de Noah chega a lanchonete é emblemática – de certo modo, o centro nervoso desse primeiro episódio da série -, pois, inicialmente, sob o olhar de Noah e, depois, de Alison, os fatos e atos, bem como os sentimentos e figurinos dos personagens variam, ainda que toda a situação e espaço, invarialvelmente, continue a mesma. Chama atenção a roupa que Noah está vestido, que muda de uma parte para a outra, bem como as insinuações óticas e táteis entre Noah e Alison. Na cena em que se encontram na saída do lavabo da lanchonete, na primeira parte, é Alison que, insinuando-se, coloca sua mão sobre a de Noah, mas na segunda parte é este último quem investe num flerte tátil.

Esse jogo narrativo e ótico, com variações e permanências, ocorre na sequência da praia e do banheiro externo da casa de Alison na mesma praia litorânea onde a família de Noah pretende passar o verão. Mas já é anunciada desde o início quando o filho de Noah simula o suicídio, ou seja, quando o que pensamos ter visto não corresponde necessariamente à verdade da imagem. De certo modo, tanto quanto a certeza do nosso olhar, do que pensamos saber e perceber, da verdade e certeza da nossa percepção – as vezes, tão falsamente objetiva -, é esta mesma imagem, tão onipresente em suas verdades e significações, em seu suposto poder de espelhamento e representação, o fator que mais questionamentos e dúvidas suscita nesse piloto.

Em The Affair, se invariavelmente as situações e locações são as mesmas, mudam os personagens à medida que mudamos a percepção que temos sobre eles, as atribuições e conceitos sobre seus comportamentos e sentimentos. Mudamos nós do início ao fim, pois as chaves que abrem as portas do labirinto que se apresenta nem sempre são as chaves corretas para compreendermos os personagens, suas vidas e as batalhas que enfrentam em seus cotidianos. The Affair, que tem todas as qualidades de uma grande série, já surpreende e segura nossa expectativa, quando abre o leque e promove a convergência dos diversos pontos de vista, de tempos múltiplos que se embaralham e de um sistema em que a imagem não é objetivamente o que apresenta, o que comumente pensamos que representa, o que transparece.

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