Thiago Medeiros – Poemas

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Thiago Medeiros, 28, ariano com ascendente em virgem, da periferia do bairro do Alecrim, está no meio do retorno de saturno. Trabalha com teatro, poesia e produção cultural desde 2007. Escreve experiências pessoais e sobre sua não adequação a determinados temas e pessoas que os faz ora “poeta”, ora “polêmico”, assuntos estes que às vezes se transformam em poesia, em peça de teatro, ou em diários queimados anualmente, na última lua cheia do ano.

Autor do livro Para Eu Parar de Me Doer (caravela editora, dezembro 2016), recebeu menção honrosa no concurso de poesia Luís Carlos Guimarães (Natal/2015); escreve em seu blog de Para Eu Parar de Me Doer desde 2010 e fazer circular seus poemas apostando na economia criativa e na força das experiências coletivas.

Realiza junto com uma ruma de artistas e produtores independentes o projeto Insurgências Poéticas, uma plataforma de trânsito que tenta agregar a poética contida nas mais diversas expressões artísticas realizadas na cidade do Natal e se estendendo a outros estados, sempre apostando na economia colaborativa. O sarau realiza temporadas no Centro Histórico de Natal (no Bardallos Comida e Arte) e no bairro da Ribeira (no Café Salão de Nalva Melo).

Encontrou no teatro uma possibilidade de manter acesa a chama da resistência, em 2017 comemora dez anos de jornada na vertente viva das artes cênicas, em mais de 17 trabalhos na cidade do Natal (entre atuação, direção, dramaturgia e produção), o mais recente “João ou Eu Só queria ver os Pássaros” foi lançado pelo seu grupo Para Eu Parar de Me Doer, escrito em parceria com as poetas Marina Rabelo e Michelle Ferret (quarto espetáculo de teatro escrito pelos três), estreou me dezembro de 2016 e aborda questões sobre a violência contra LGBTs no RN (considerado o estado mais violento para existência dessas pessoas) casos estes, inclusive, vividos por ele e por sua irmã Sarah Lima, mulher trans de 32 anos.

Os poemas de Thiago Medeiros estão disponíveis em livro, canecas, patche works, adesivos, cartões postais, camisetas, quadro.
Contato: thiagomedeiros.natal@gmail.com|@preuparardemedoer|Facebook.com/medeirosthiago

Leia abaixo coletânea de poemas:

1 – tenho costurado a pele com caco de vidros
essa ausência de agulhas
essa sobra de mãos
escorregando o tempo entre as linhas
quem quer saber de destino?
tenho costurado a pele com o pó do vidro
já aprendi a não ensanguentar as mãos
desaprendi a usar agulhas
e esfregar o vidro misturado ao sabão
já acaricia a pele, não faz doer
nada mais faz
estico a pele entre os cacos
e não consigo mais separar do vidro, o que é pele?
e não sou frágil, minhas mãos tecem peles e desaprendizagens
ao invés de suturar o medo
aplano a carne, exponho ao sol
por não saber mais usar agulhas
acrescento sal e não deixo a loucura apodrecer

2 – amar se não for pra perder o sono
acordar mais cedo e devorar a casa
horas de tua ausência
amar pra quê?
se não for pra ver teu rosto em todos os poemas que leio
em todas as danças que permito ou que me permitem
não sei se você
mas te queria como melhor parceiro
nessa dança que todo ontem no hoje vira verbo
amar sem rancores e por perto
o perfume do ciúme pingado em três gotas na camisa:

amor, coragem!
entre seus (muitos) mistérios

não sei mais como se dorme depois dessa descarga emocional

quero um amor assim recente
feito pão descoberto de mercadinho
um amor entregue às moscas
aquele amor vindo de kombi
com as janelas abertas no rosto
peito descoberto, cara pro sol

coragem, amor
se não vai me comer como pão no teu café da manhã
não me amasse até fermentar
não me coma com leite pra não inchar
por favor, não fique pesando meus olhos
por favor, não apareça nos meus sonhos:
me deixa em paz

3 para um aMor em ponta negra

a palavra saudade
muda de caligrafia
toda vez que passas
os olhos no meu corpo e
depois se escondes no breu da cidade

a palavra saudade
tem som de elevador chegando no nono andar
tem a imagem do teu sorriso abrindo a porta
tem cheiro de madeira compensada
gosto de sopa queimada, pelo de gato, vinho
e fumaça queimando na boca

a palavra saudade
vem sempre com a letra M
antecedendo tua falta de gesto
a organização de tuas estantes

a palavra saudade
escreveu dentro da minha carne teu nome
e não reconhece mais nenhuma outra caligrafia

a beira do mar aberto
vejo um letreiro luminoso na tua janela
a saudade me diz com letras gigantes:
não esqueça que
nós
não
nos
queremos
mais

4 – uma parte líquida tua
escorrendo até outra ponta
até ficar uma metade
cheirando noite:
roupa suada, cigarro, aquele álcool na boca

não me deixa esquecer
onde foi que eu te perdi
em qual pedra de beco na boca da lama

agora não há mais nada suave
nunca esteve
estamos fora do mundo
dentro de nós
no meio dessa noite
e dessa febre que não passa
velando um amor sem pretensão
tomado as escondidas depois do dia

este amor
feito em pedaços
que é quase proteção

5 – no arrastar do mangue
sinto o cheiro dos teus passos
invento um milhão de você
todas as caras
todos os gestos
tomo goles generosos dessa ausência
de rosto
de toque
de gozo
febre de mangue
teu cheiro de maresia e sal
caranguejo escondendo os olhos
gozo no meio da rua com teu nome que acho em outro corpo
encostado na parede sentindo escorrer teu oco dentro de mim
escorrendo lama de cheiro forte
gemo alto tremo e saio
gozando mais um amor perdido
sumindo em cada garrafa rolando pelo chão
ergo um brinde para esta ausência
que nunca nos falte motivos
para na rua gozar gritando e respirar sabendo que
“eu não estou só nessa lama não declarada”

6 – sonhei com você na minha boca
real firme
e mais uma vez o medo
a voz da tua mãe
tua falta de coragem
minha preguiça de persistir
muita água lavava meu sonho (que era nosso)
banheiro geladeira olhos
sai correndo com as crianças no teu sonho
acordei com vontade de correr pra tua casa
catei as chaves na bolsa e o coração querendo escapar
voltar pra tua vida ser de verdade o que queria
crua feito a vida
abafo o cheiro o suor e o gozo
vou pra rua entre coragem e destino
querendo me sentir um qualquer

7

para Dandara

meu amor é motivo de bala
em suas leituras cruéis
convite para retirarem do meu corpo todo o sangue
ocasião para riscarem meu corpo à faca
pode parecer um tanto audacioso e atrevido demais
quando ferem meu corpo e
eu não posso gritar
não são vocês que silenciam o pranto
quando me arrastam
é meu sangue que se mistura entre lixo, lama, urina
para escrever entre pedras de asfalto
a história da minha resistência

• parceria com a poeta carioca/potiguar priscilla rosa

8)
só muda a luta
todo dia
na bagunça das casas
na pouca existência de asas
na rouquidão da voz
só muda a luta
todo dia
esquecer de dar noticias pelo telefone
o banho cada vez mais rápido
relógios distantes da poética do tempo
todo dia
só muda a luta
a rapidez da dança
a nuvem sobre crescer
o papel leve para a densidade das palavras e da mão
a luta muda
todo dia
duplicam a conta de internet
todo dia já não tem mais feijão
o número assustador das estatísticas
ser humano
todo dia
a luta muda
a voz abafada no pranto
sorrir e cantar em tempo de seca
ainda no inverno, antes dele, já avistava:
em tempo de seca nascer assim palavra
todo dia a luta
muda
o desaprender de ser espécie
as ruas vazias de gente
o medo daquele outro bicho espécie
a luta muda
todo dia
ser humano é agonia todo dia
entre os cacos de vidro em cima do muro
e os arames que crescem feito folhagem dentro da gente
o dia todo
pensei na luta
resistir sendo poeira quando o pedido é concreto
armações feitas para o não caber e desaprender a ser gente
armações feitas para que no mundo caiba tudo, menos espaço de ser gente
ainda sim
Existe a luta
todo dia
mesmo que ainda seja segunda
cedo ainda para desesperos:
“amar
é verbo
in
trans
it
i
vo”

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