Crônicas e Artigos

Tio Pedro

Tio Pedro

A rua era uma dessas vias largas, pavimentada com pedras de tamanho quase uniforme, com casas e sobrados, algumas mais do que cinquentenárias, advindas de um tempo em que ainda se podia desfrutar de muros baixos, jardins e árvores nas calçadas. Marcos foi visitar um amigo num hotel na mesma rua e aproveitou o clima ameno do final de tarde para dar uma volta com o filho de cinco anos. Enquanto andava, tentava combinar os cheiros das árvores — algumas de cheiro marcante, como os eucaliptos — com os perfumes que emanavam dos jardins bem cuidados das residências. Deleitava-se com o silêncio quase absoluto do local, vez ou outra perturbado pelo barulho de passarinhos na copa das árvores. Pensava que poderia tranquilamente morar num lugar assim, quando foi interrompido pelo filho.

— Papai… Aqui é a casa do tio Pedro.

— Tio Pedro?

— Vim aqui com a mamãe.

Olhou para a residência apontada pela criança. Era um sobrado estreito de primeiro andar, branco com detalhes azuis. O pavimento de cima era ocupado por duas janelas retangulares com pequenas sacadas; o térreo, por uma varanda que servia de abrigo para uma porta e uma janela.

— Tem certeza, meu filho? Você não está imaginando, não?… Que eu saiba mamãe não tem conhecido aqui.

— Vamos lá, pai — falou o filho apontado para o sobrado. — O tio Pedro é legal.

— Não, vamos embora. Já vai escurecer e precisamos voltar para casa.

Enquanto puxava o filho contrariado para o carro, ficou pensando em quem a mulher poderia visitar naquela rua. Talvez fosse alguma amiga ou colega de trabalho; o tio Pedro provavelmente fosse o marido de alguma delas. Tentou conseguir mais informação do filho durante o caminho, mas a criança não acrescentou mais nada além do fato de lembrar ter ido no local por mais de uma vez para visitar o que ele considerava ser um amigo da mãe. Embora Marcos tentasse evitar, sabia que era ciumento, ou melhor, muito ciumento; tinha verdadeiro pavor só de imaginar que poderia ser traído pela mulher. Ao contrário de outros casais, onde o interesse costuma esmaecer com o tempo, ele praticamente mantinha o mesmo entusiasmo de quando namoravam. Ainda se sentia muito atraído pela beleza de Helena e continuava a admirar seu jeito de ser, sempre altivo e positivo, como se nada lhe abalasse seriamente. Sabia, intimamente, que ela era a fortaleza daquele pequeno núcleo familiar; daí o cuidado que teria com o assunto, o cuidado de não transformar o que poderia ser um pequeno mal-entendido, uma desconfiança não confirmada, num problema muito maior. Sabia que a altivez da mulher às vezes a tornava irritadiça e, não raro, totalmente imprevisível.

Naquela noite, durante o jantar, Marcos falou do passeio que fizera com o filho à tarde.

— A rua é muito bonita, tranquila, de uma paz que parece de outro mundo… Você conhece o local, não?

Helena levantou o olhar e ficou pensativa, num gesto típico de quem procura algo na memória (o que levou o marido a pensar que ela poderia estar ganhando tempo para uma resposta menos comprometedora).

— Acho que já passei por lá sim… Se for o lugar que estou pensando é realmente muito bonito — respondeu de uma forma convincentemente natural, o bastante para fazer o marido questionar, por um momento, suas desconfianças.

— Sabia que quando estava andando na calçada eu pensei que poderia muito bem morar num lugar como aquele? A minha vida toda eu sempre morei em apartamento, queria saber como é morar numa casa, ter jardim, quintal…

— É, é muito trabalho e dinheiro para manter tudo isso, sem falar da falta de segurança, da dificuldade de viajar e deixar a casa sem ninguém… Não, obrigada, prefiro ficar por aqui mesmo.

— Com você não se pode nem sonhar — Marcos falou sorrindo.

— Não, eu sou é mais pé no chão — respondeu Helena com uma expressão intencionalmente provocativa.

Ele fez uma cara de mau e se inclinou por cima da mesa de jantar como se fosse atacá-la. Helena não conseguiu se segurar e começou a rir do jeito infantil do marido.

Vendo-a assim, bela, feliz, com um sorriso franco, como se nada lhe pesasse, como se pudesse se abrir tranquilamente para o mundo, sem receio algum, Marcos tentou apagar de sua mente qualquer desconfiança, até mesmo qualquer lembrança do que acontecera naquela tarde; vai ver o filho, o que não era incomum nessa idade, imaginara tudo: as visitas com a mãe, o tio Pedro, tudo não passara de pura imaginação. Não só ele, mas ela também o amava, e era nesses momentos de pura descontração, de felicidade, que Marcos sentia isso, e era o amor, acreditava ele, mais do que qualquer outra coisa, que os unia e permitia momentos mágicos como aquele. Não, nada poderia afastá-los, nada, nem mesmo o tal tio Pedro naquela maldita rua. Por que passara por lá? Porque tivera a infeliz ideia de fazer aquele passeio fora de hora? Não queria mais saber, nunca mais, daquele lugar; não dava mais a mínima para suas casas, seus jardins, seu silêncio perturbador… No entanto, por mais que tentasse, não conseguia esquecer. Quanto mais percebia que gostava dela e mais próxima a sentia, mais aumentava o medo de perdê-la, mais o tornava sensível a qualquer desconfiança, a qualquer suspeita que pudesse afastá-los definitivamente. A verdade é que não iria conseguir sossegar enquanto não tirasse aquela história a limpo, enquanto não soubesse quem era aquele tio Pedro, se é que ele existia mesmo.

Do carro, estacionado do outro lado da rua, Marcos viu uma mulher abrindo o pequeno portão do sobrado branco — que vira pela primeira vez no dia anterior e que ocupou toda a sua noite de insônia. Saiu rapidamente do veículo e conseguiu alcançá-la antes dela chegar à porta do sobrado.

— Bom dia.

— Bom dia — respondeu gentilmente a mulher, dirigindo-se novamente ao portão. Era uma senhora gorda e de jeito simples, bem penteada e arrumada, com aparência de quem está chegando ao trabalho.

— A senhora poderia me informar se esta casa está para alugar?

— Não… Não que eu saiba… Eu faço faxina aqui e seu Pedro não falou nada.

— Deve ser engano. Devem ter me dado uma informação errada… Não é aqui que mora um casal?

— Não, seu Pedro é solteiro. Ele tem uma namorada, dona Helena, que vem de vez enquanto.

— Deve ter sido mesmo engano.

Marcos agradeceu a atenção da faxineira, antes dela retornar ao sobrado e deixá-lo totalmente desnorteado. De uma só vez, tinha confirmado não só a existência do rival, mas também, o que era mais doloroso, a infidelidade da mulher. Parecia que tinha levado uma bofetada forte o bastante para derrubá-lo e lhe tirar todas as forças. Na verdade, não conseguia sentir nada, raiva, decepção, abandono, nada, apenas um vazio, um grande buraco negro com força o bastante para lhe consumir todo por dentro.

Correu para o carro pois quis sair o mais rápido dali — não só dali, mas de qualquer lugar que tivesse que existir. Conseguiu chegar ao trabalho e foi direto trancar-se na sua sala.

Passado algum tempo, começou a se recompor do impacto, a recuperar os sentidos, e também a pensar numa forma de acabar com o caso da mulher, não só por não suportar imaginá-la nos braços de outro homem, mas também pelo risco para o seu casamento, pois não sabia o quanto ela estava envolvida. Pensava em contratar alguém para desaparecer com o rival (embora tivesse com raiva o bastante para ele mesmo fazer o serviço, sabia que não teria coragem para tanto). Mas, além da falta de ânimo para qualquer atitude mais drástica, existia, ainda, a possibilidade, mais do que palpável, de algo dar errado, de ser descoberto como mandante do crime e preso por uns longos anos, perdendo, por tabela, a mulher, pois ela, certamente, nunca o perdoaria. Sabia que deveria estar decepcionado e com raiva de Helena, tanto quanto do amante, ou até mais, pois ela é quem o estava traindo, mas não conseguia, pois sua única motivação no momento era acabar com aquela situação incômoda sem, no entanto, fazer a mulher se voltar definitivamente contra ele.

Marcos alcançou Pedro na calçada, quando este ia entrar no carro estacionado em frente à sua casa. Pedro tinha uns 20 anos, barba escassa, cabelos um pouco compridos e uma aparência desleixada, o que resultava numa beleza calculadamente descuidada; o tipo de garoto que as mulheres não demoram em levar para casa. Marcos não era feio, muito pelo contrário, mas se sentiu seriamente ameaçado pela beleza do jovem, principalmente pelo fato dele ser uns dez anos mais novo do que ele e Helena.

— Se você não deixar minha mulher eu te mato — ameaçou Marcos, enquanto o outro se voltava para o desconhecido que vinha agressivamente em sua direção. — Eu e Helena somos casados, temos um filho e você não tem o direito de se meter em nossas vidas… Seu merda.

— Calma, amigo… deve estar havendo um engano… Eu não sei do que o senhor está falando… sério… deve ser um engano — respondeu Pedro assustado.

— Não se faça de sonso, seu moleque, eu sei de tudo… Não estou brincando, eu te mato. Eu sei tudo sobre você, onde mora, onde trabalha, não tem como fugir de mim.

Marcos se segurava, pois a vontade que tinha era partir para cima dele com tudo.

— Tudo bem… Tudo bem. Eu juro que não vou mais me encontrar com sua mulher — prometeu Pedro após perceber que não adiantava mais negar. — Foi só um caso, nada sério… Pode ficar tranquilo

Marcos fez a última advertência, com um jeito mais ameaçador ainda:

— Preste bem atenção noutra coisa. Você não pode revelar nada para Helena dessa nossa conversa. Se ela descobrir, eu não só mato você como esfolo vivo.

— Pode deixar, eu não falo nada… Como eu disse, foi só um caso, nada muito sério…

Marcos virou-se e foi embora, deixando Pedro ainda assustado na calçada. Estava até feliz porque sentira que o outro ficara realmente com medo das suas ameaças. Lembrou-se de quando era mais jovem e de como os jovens costumam ser impetuosos, mas, ao mesmo tempo, sensíveis a qualquer risco mais sério; conhecem muito pouco da vida e se assustam fácil com seus perigos. Pelos planos de Marcos, agora era esperar, ver como a mulher reagiria, como ela ficaria abalada com a separação. Via nisso uma oportunidade de se aproximar mais ainda dela, de ser mais carinhoso e companheiro, embora de uma forma discreta para que Helena não percebesse que ele tinha alguma coisa a ver com a separação. Mas não foi isso que aconteceu.

Passaram-se dias, semanas e a mulher não mostrava qualquer reação diferente. Estava sempre amável e alegre, fazendo naturalmente todos os seus afazeres em casa, e, aparentemente, no trabalho, sem dar qualquer sinal de tristeza, abandono, nada do gênero.

Passado tempo o bastante para acabar com qualquer relacionamento, Marcos ligou para Pedro no trabalho. Mal o rapaz atendeu, já foi logo gritando, procurando ser mais ameaçador do que da outra vez.

— Amigo, você acha que eu estou de brincadeira. Você pensa que eu não posso lhe matar?

— Não, imagino que o senhor seja mesmo capaz…

— Então, por que não terminou com minha mulher como combinamos?

— Eu terminei.

— Mas ela está agindo como se nada estivesse acontecendo.

— Mas é exatamente isso que achei estranho. Eu passei dois dias depois que falei com o senhor para criar coragem e terminar com ela… Disse que não estava mais interessado nela e que deveríamos parar de nos encontrar. Ela apenas olhou para mim e disse, na maior tranquilidade: “Não tem problema, existe muito rostinho bonito como o seu por aí”. Depois disso, ela saiu sem me dar a mínima.

Pedro ouviu apenas o barulho do telefone ser desligado do outro lado da linha.

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