Tocando o meu organillo

5 de junho de 2010 às 8:11 - 3 Comentários
Por Gustavo de Castro

Por diversas razoes, tenho zanzado pelo México por esses dias carregado pelo sentimentos das experiencias artísticas. Sem dúvida, o que tenho observado, escutado e vivido aqui, daria para escrever um livro. Mas nao tenho vocaçao para isso. Em todo caso, já tenho dois pequenos cadernos cheios de anotaçoes. Todas sem futuro. Algumas delas vou partilhar com vcs. Elas nao passam de impressoes.

1.

Você está no metrô lotado e entra um jovem. Ele traz uma bolsa nas costas. Até ali vc nem imagina que dentro da mochila ele leva um par (muito potente) de caixas de som. Só descobre quando ele aciona o seu cd player. Em poucos instantes o som ganha a atmosfera das alturas. Tudo sobe e estronda. Depois o jovem começa a anunciar o cd pirata. Ninguém se mexe para comprar a seleção de músicas românticas. Na estação seguinte, o jovem desce. Entra outro. Mochila nas costas. Logo, faz o mesmo que o jovem anterior. A música agora é o mambo. O cd pirata custa 10 pesos, o que equivalente a dois reais.

2.

Me chamou a atençao desde que cheguei os organilleros. Trata-se de homens uniformizados espalhados pela cidade tocando órgaos portáteis. Aqui chamam de “organillos”. É um instrumento que nao necessita saber de música para tocar. Para produzir música basta girar uma manivela, que faz mover sobre seu eixo um cilindro que contém uns papéis perfurados de diferentes formas e tamanhos que produzem um som ao mesmo tempo agradável e irritante. Todas as vezes, o som dos organillos me reportam sensaçoes melancólicas.

3.

Talvez seja o mesmo o que produz em mim o som dos sinos das igrejas tocando por toda a cidade. Sempre gostei das cidades onde podemos ouvir o som dos sinos durante o dia. Eles também produzem estados de alma que nao sei definir bem.

4.

Neste momento estou em um charmoso café na calle Maderos, no centro. Lá fora a música cubana toma conta da rua. Embala o povo que, acredite, se quiser, dança em plena rua. Passa uma moça vestida de preto, com uma caveira embaixo do braço. A noite chega na calle Maderos com alegria e vivacidade. Às vezes penso que música cubana tomou conta do caribe. No México nao é diferente. Encontramos por todos os lados, o ritmo dançante de cuba embalando os corpos. Encontramos também os Mariachis fazendo as suas serenatas. A impressao que tenho é que a música aqui só perde para as artes plásticas. Boleros, rancheros, fararas, rumbas e mambos sao alguns dos estilos que ouvimos o tempo todo.

5.

Os museus estao cheios. E a maioria dos visitantes sao os proprios mexicanos. No museu de arte moderna encontramos Rivera, Khalo, Siqueros, Orozco, Posadas, entre outros mestres. Em Monterrey, cidade onde fui a trabalho, a 600 quilomnetros da cidade do México, fui a uma exposiçao de Santiago Filemon, artista de Oaxaca, e fiquei emocionadíssimo. A cor misturada a dor… Magritte também está com uma grande exposiçao na Ciudad. Voce quase nao consegue ver os quadros direito com tanta gente.

6.

Quando eu era pequeno, achava muito bom os vizinhos do lado. Dona Conceicao que morava do lado esquerdo da minha casa e as freiras, Filhas do Amor Divino que moravam à direita. A gente podia fazer o barulho que fosse, que ninguém ligava. Dona Conceicao era meio surda e as freiras só queriam saber de rezar e contemplar. Penso em todas essas coisas quando imagino o que é ter os Estados Unidos como vizinho. Toda a eletricidade do México vem do país ao lado. Aqui conheci Hanna Loyo, de 29 anos, estudante de Comunicacao Social. Ela me diz: “Estamos dominados pelos americanos”. Ela se refere â cultura local. O poder dos dólares invadiu a tudo, nao só aqui, mas toda a America Latina. Pergunto qual o principal problema do México hoje e ela me diz: “Sexo e drogas”. De fato, o cheiro de sexo está no ar. Há muitas prostitutas, que aqui sao chamadas de “sexy servicio” e travestis, também chamados popularmente de “chicharrones”.

7.

O governo Calderón anuncia na televisao que criou 38 mil empregos em abril. Hanna me explica que todos os jovens daqui querem ir para os Estados Unidos. Nos jornais de hoje a governadora do Arizona, Jan Brewer, volta a dizer que vai construir um muro, separando o México dos EUA, mesmo com a negativa de Obama. O governo oferece entao bolsas para os jovens ficarem no país. O cartaz nas estaçoes dizem “Bolsas para los que se quedan”.

8.

Hanna me pergunta pelo Brasil. Quer saber se é verdade que todos fazem academia, se nos bairros existem aparelhos para as pessoas fazerem ginástica. Ela diz que os mexicanos estao cada vez mais gordos. Vi na TV que 57 dos 107 milhoes de mexicanos estao acima do peso. Aliás vi na TV também o programa da Igreja Universal do Reino de Deus. É o Brasil exportando seitas.

9.

Perto do Mexico, o problema do tráfico de drogas no Brasil parece nao ser nada. Os cartéis aqui fecham restaurantes e até cinemas para os baroes da coca levarem suas familias ao cine. Os dois principais cartéis sao Los Zetas e os irmaos Neyva. Los Zetas foram formados por ex-militares treinados pelo serviço de inteligencia americano para combater o narcotráfico. Depois de aprenderem a liçao, os ex-militares viraram a casaca. Os irmaos Neyva preferem comprar policiais, juizes, advogados e executar quem lhes atrapalha o caminho. Um taxista me disse que o principal problema do norte do país sao as execuçoes. Como disse em um post anterior: 24 mil mexicanos foram mortos na fronteiras dos EUA nos ultimos 4 anos.

10.

Realmente, a morte ronda o país. Há um bairro inteiro na ciudade de México dedico a morte. É o bairro de Tepito. Ele é dominado pelos dois cartéis que tem ali bases para venda de drogas. “É o bairro da venda de drogas”, me diz Hanna. Mais do que isso, é um bairro todo dedicado à morte. Os jovens andam vestidos de preto. Caveiras adornam as esquinas e o santo adorado é Judas.

11.

Sao muitas as livrarias e sebos espalhados pela cidade. As principais sao Gandhi, Fondo de Cultura Economica e Sóltano. Há uma livraria dedicada somente à poesia e à literatura. É a livraria Torre de Lulio, que fica no bairro de Condesa. O mesmo bairro onde mora Juan Gelman. Sou atendido na livraria por José Luiz, que me dá o telefone da casa de Gelman. Há quatro dias ligo e passo fax para o poeta, mas Gelman nao dá sinal de vida. Entao nao vou mais encher o saco dele. José Luiz é quem faz a seleçao dos DVDs piratas que Gelman assiste. De vez em quando Gelman passa na Torre de Lulio para pegar os filmes. Pelo que me diz José Luiz, o poeta gosta de filmes de arte.

12.

Além de Gelman, leio e encontro por aqui livros de poetas excelentes. Um deles é Raul Gomes Jattin. Depois posto um poema dele. O café está fechando e estao me colocando para fora. Inté.

3 Comentários

  1. 5 de junho de 2010

    Tácito,
    O texto da FSP esqueceu de dizer que Strick adaptou o Ulisses, de Joyce, para o cinema. Um abraço.

  2. 5 de junho de 2010

    Gustavo, você citou um poeta, o Raul Jatttin. E romancistas e contistas, quem são os mais considerados? Depois faça uma listinha pra gente sobre esse pessoal. Você estará em Natal na próxima semana? Abs

  3. João da Mata
    5 de junho de 2010

    Gustavo , amigo

    Alvissaras

    Tragas tudo para a gente curtir. Slides ( rs)
    Ja sei que voce vai estar em Natal na proxima semana e que vem para a SBPC

    Muito bom

    Saiba que eu tenho os meus informantes.hehehe

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AGENDA

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    Artistas plásticos e visuais ainda podem se inscrever no Edital de Ocupação das Salas de Exposição da Pinacoteca Potiguar para todo o ano de 2012.

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  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - Comentar
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • Jarbas Martins: Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente
    • José de Paiva: Seja bem vinda Glória Braga Horta ao SP e obrigado por ler o meu texto. Obrigado também pela generosidade dos amigos de sempre. Clarissa Torres, gosto muito das obras de Schiele, elas me inspiram. - Rita louca
    • Marcos Silva: Gosto muito daquela canção de Paulinho da Viola que diz: "Faça como o velho marinheiro que durante o nevoeiro leva o barco devagar". - À sombra da ditadura
    • gustavo de castro: E quem disse que os valores cristãos é que devem predominar? Foi Cristo ou os cristãos? - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Anchieta Rolim: Oreny, bela poesia! - Vento nordeste
    • Anchieta Rolim: Concordo marcos, inclusive quando João Carlos voltou da guerrilha continuou sua luta junto a artistas como Gonzaguinha, Paulinho da Viola e vários outros... Fazia parte do grupo o ex-jogador Afonsinho (aquele que lutou pela lei do passe livre para os jogadores de futebol), e também o cantor e compositor Potiguar Mirabô Dantas. - À sombra da ditadura