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Três Rezas

A Valdemiro Vieira, rezador

I

Rezar para espantar abelhas
Deixá-las encantadas, tontas
Extrair-lhes a pirraça, o olfato
Radar do que está por vir.
Enxotá-las aos céus ou
Se possível, imóveis no mel.

Como imóvel ficou no dia
Que descobriu: elas o temiam
Retrocediam na sua presença
Voavam pra longe ou não voavam
Poder de que não suspeitara
Sentiu-se ali não o caçador
Mas, delas, o encantador.

Fez nome assim por lugarejos
Vilas e cidades. Desentocar
as de ferrão mais doridos.
Em casas velhas abandonadas,
Beira de estrada, salas proibidas
Espanta gente, como na Estação
Ferroviária da cidade grande

Aos rogos de não vá, meu senhor,
Já chega mastigando reza
Sacando a camisa branca, o ritual
Enquanto se vira para trás
E pede a bacia pro mel.
Capa a capa desfaz a colmeia
Como se ela nem dono tivesse.

II

Rezar para atalhar o fogo
Quando começa a levar
Nos peitos o mato, os bichos
A crepitar jitirana,
O mussambê, a flor do mufumbo

Se o pavor espalha-se
No chão da noite ensolarada
É chamado para acalmar
Para puxar os arreios
Do carrossel em chamas.

Vindo ao primeiro assobio
Peito a empatar labaredas
Olhos mais que abertos
Reza de não se ouvir
Apenas o balbucio
Dos lábios crispados
Que aprendeu de menino.

O fogo a lamber-lhe os pés
Os passos esquivando-se
Os pelos-sinais, a cruz em vão
Cuidado, o bicho te pega!
Andar de costas, cedendo

Escapando, aqui no outeiro,
Ali na vereda, de sítio em sítio
Cumbe, Amaro, Várzea Comprida,
Fumegantes, esturricados
Enquanto a ladainha sem fim
Até parar no chão que restou.
E tendo que ouvir, sem refutar:
É…só parou quando Deus quis.

III

Rezar para apartar mau-olhado
Que em negras flechas vem
Se não tão retas assim
Em curvas enganosas, sempre
Maçantes arrodeios
Pra desnortear, e a um entortar.

Rezador acode a quem
Perdeu fortuna, juízo, beleza
Vigor, mulher, e põe-se
A desenlinhar trabalhosa
Maranha que enfeitiçou o olhar
Que subtraiu muitos céus

Seu ofício: anular o que o olhar
De alguém pôde produzir a outro.
Olhar gordo, olhar comprido,
De quem nem crianças se livram
E vêm a pedir socorro, capiongas
De pálpebras quase fechadas

É quebranto. Escolhe no quintal
Galhos de arruda e inicia a reza
Que maçante vai por quarto
De hora. Quando encerrada
A mãe aflita pergunta: deu certo?
E ele apenas mostra o galho
De arruda. Totalmente murcho.

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