Crônicas e Artigos

Donald Trump e os refugiados de Paris são nossos espelhos dolorosos

The Road to Guantanamo_Illustration for the Altyazi Cinema Journal

Ilustração: “The Road to Guantanamo”, publicada no Altyazi Cinema Journal

Dia 08 Novembro de 2016, 4:45 da manhã, Paris. Acordo, saio do quarto e caminho sonolento à sala. Ligo a TV para saber o resultado da eleição para presidente dos EUA.

Para meu choque, Donald Trump estava prestes a ganhá-la. Fico em frente à TV com a boca aberta, tentando compreender comentários políticos em francês.

Do sonho que tive horas atrás, acordei num pesadelo em um mundo cuja grande potência mundial será comandada por uma pessoa aparentemente inconsequente e egocêntrica.

Tomo meu café para depois caminhar pela cidade luz. Penso ela ser infalível para nos tirar de qualquer sonho ruim e nos fazer viajar na boa energia da beleza artística e exuberante de arquitetura magistral, padarias deliciosas, língua charmosa e cafés perfeitos para observar o mundo que passa.

Joseh Garcia_Emmett Tyrrell

Ilustração: Emmett Tyrrell

Porém, há menos de dois prédios de onde estava, vejo uma barraca azul na calçada com duas pessoas alojadas pedindo esmola.

Como qualquer cidadão de classe média vindo de um país como o Brasil, onde a desigualdade social grita na sua cara a qualquer esquina, aprendi a me defender da dor ignorando os mendigos, ou dando uma esmolinha aqui e acolá.

Defesas que talvez escondam nosso egoísmo que facilmente releva o que não nos parece ser diretamente pessoal.

Respirei fundo e foquei na beleza do lugar, continuei a explorar o bairro Le Marais. Lembrei de uma deliciosa padaria que conheço.

Lá fui eu, serelepe, pensando no pão e afastando o circo da política americana da minha consciência.

Cinco quadras além, vejo uma família sentada na calçada e ignorada pelos passantes bem-vestidos e apressados. A família aparenta origem islâmica e mendigava. Deduzi que eram refugiados. Senti um aperto no peito. Meio desnorteado, fui à padaria mesmo assim.

Joseh Garcia_foto_Vasco Gandra

“Havia sido a primeira manifestação de apoio aos refugiados que presenciei em minha estada em Paris. Em poucos dias se comemoraria um ano do terrível ataque terrorista ao Bataclan”. Fotografia: Vasco Gandra

Flanar para não chorar

Continuei meu passeio por outras bandas de Paris, mas a cena se repetia: numa esquina, um casal sentado, com olhar perdido e uma criança de cinco anos. Discretos, quase não pediam. Pareciam estar ali sem ter pra onde ir. Difícil ignorá-los.

Havia lido há alguns dias em um jornal que o centro de acolhimento da região de Calais, conhecido como a Floresta Calais, havia sido fechado. Os refugiados de lá foram redirecionados para alguns centros de acolhimento noutra região da França.

Com medo de deportação ou por ser perto do Reino Unido, milhares de refugiados escaparam de Calais e se dirigiram à Paris, mais especificamente ao redor da área externa da estação de metrô Stanligrad.

Em pouco tempo o número de refugiados alojados atingiu 3.000 e o governo resolveu desarmar as barracas com a transferências dos refugiados para centros específicos, impedindo que os mesmos ali se agrupassem.

Apesar da operação policial, ainda havia alguns refugiados presentes na estação Stalingrad. Tocado por tal situação, resolvi ir lá.

Ao chegar, percebi que a região ao redor da estação de metrô estava cercada por grades. Havia talvez umas 60 pessoas: a maioria eram homens com idade superior aos 30 anos e famílias.

A presença de jovens também era marcante. Alguns esperavam numa fila. Outros, estavam bem próximos da estação de metrô. A presença policial era evidente.

Me aproximei um pouco mais e vi pessoas fornecendo doações ansiosamente recebidas. Ao meu lado, um prédio cuja parede estava cheia de cartazes colados em apoio aos imigrantes. Alguns deles diziam: “Ninguém é ilegal”.

Joseh Garcia_2Em cada esquina, grupos de refugiados

Havia sido a primeira manifestação de apoio aos refugiados que presenciei em minha estada em Paris. Em poucos dias se comemoraria um ano do terrível ataque terrorista ao Bataclan.

A ferida ainda pulsa e, como reação ao horror, grande parte das pessoas tem escolhido o medo. O resultado é o crescimento da direita extremista, protestos contra refugiados e a proliferação do preconceito contra pessoas que possam parecer imigrantes.

Antes de voltar pra casa, passei por algumas lojas. Em shoppings, e até lojas de brinquedos, bolsas e mochilas são revistadas. Soldados com rifles eram comuns, pelas ruas.

Com essa tensão toda, quem sabe relaxar aos pés da Sacre Coeur e comer um crepe ao lado de quem se ama?!

Joseh Garcia_Selva de Calais

Cerca de 3 mil refugiados acamparam na Place Stalingrad

Dito e feito, porém não sem antes notar que Paris parece estar vazia de turistas. Seria impressão minha? Pergunto a uma vendedora de lojas de produtos turísticos próxima a tal igreja.

Ela me diz: “Você está certo. As pessoas não têm vindo à Paris. Este ano todo tem sido assim. Nem mesmo o verão trouxe muitos clientes”.

Repeti a pergunta a uma vendedora próxima à Catedral de Notre Dame. Confirmado. Paris não é mais a mesma.

Ao voltar pro apartamento, noto alguém deitado no meio da calçada em frente ao shopping center BHV. O corpo imóvel estava todo coberto. As pessoas caminhavam desviando-se do mesmo como se nada estivesse acontecendo.

A temperatura era perto dos 10 graus. Passados alguns minutos, nenhum sinal de vida. Fiquei preocupado com aquele mendigo. Achei que estava morto.

Duas francesas também não conseguiram ignorá-lo e telefonaram em busca de ajuda. Elas esperaram a ajuda chegar. Como diria minha mãe, anjos existem!

Descobrimos que, ainda bem, ele estava vivo. Ou sobrevivendo.

Joseh Garcia_Trump e os refugiadosA involução será televisionada

Já em casa, liguei a TV e, infelizmente, vi que a eleição de Trump não era fantasia, mas realidade.

Leio jornais e vejo que refugiados continuam a fugir da guerra ou da pobreza e se espalham pela Europa. Dentre eles, pessoas de bem e talvez alguns criminosos infiltrados (assim temem alguns).

Vejo o medo e a intolerância ganhando força no Velho Mundo e na América. E Paris ferida agora me parece uma mistura de Rio de Janeiro com área de segurança de aeroporto americano. Que pesadelo!

Volto destas lembranças do ano passado e ancoro na realidade que se desenrola frente aos nossos olhos. O que será pesadelo ou realidade nos dias que virão? E onde nos refugiaremos da realidade criada coletivamente?

Com Trump no poder, o mundo não será mais o mesmo. Suas ações atingirão o planeta, e no meio da nova realidade, novos sonhos terão que ser plantados e cultivados, para que alquimizemos o amargor da nossa atual realidade, espelho doloroso do que somos no momento.

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Joseh Garcia

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