UFRN – 60 Anos – Parabéns

João da Mata
Destaque

Parabéns UFRN nos seus 60 anos de grandes contribuições cientificas, tecnológicas, educacionais e transformadoras do estado do RN. A universidade é o nosso maior patrimônio cultural e foi fundamental para o nosso desenvolvimento.

Desses 60 anos vivi 45 como aluno e professor. Das antigas faculdades isoladas e Institutos construímos um belo Campus Universitário. Vi pedra a pedra ser montada e convivi com grandes amigos nos mais diferentes ramos do conhecimento.

Faço parte do Departamento de Física Teórica e Experimental (DFTE) da UFRN, pioneiro em pesquisas na UFRN. Trabalhei em Geofísica, Astronomia e História das Ciências.

Vi muitos professores aposentaram e outros faleceram. Aproveito a efeméride para dizer da minha alegria em fazer parte dessa bela história que hoje comemora 60 anos.

Saudações Universitárias

Eleições na UFRN

Aproxima-se a data onde a UFRN escolherá o seu novo reitor. Participarão do pleito Estudantes, Funcionários e Professores. Uma votação da maior importância que vai gerir o segundo orçamento do estado. É assim com preocupação que presencio mais uma eleição para a Reitoria da UFRN. Alegria por ter sido um dos protagonistas que lutaram pelas eleições diretas na UFRN, num tempo em que os reitores eram indicados em listas escolhidas lá em cima. Lembro ainda do tempo de manifestações em que clamávamos por um processo democrático com ou sem paridades. Essas coisas levavam muito tempo para serem decididas. As discussões eram acaloradas. Participei certa vez de um protesto com uma mordaça para reivindicar eleições diretas.

Passado sessenta anos a universidade feita por nós cresceu em todos os aspectos. Só não cresceu na humanização e no processo de formação dos seus colegiados e eleição para reitor. O que vemos com muita tristeza é um processo viciado e enviesado, que em muitos aspectos assemelham-se aos processos eleitoreiros que se observam extramuros universitários.

Como democrata e republicano sinto falta nesse processo sucessório de um debate mais qualificado e neutro, por parte dos dirigentes atuais. É claro o envolvimento da atual reitoria e de entidades em prol de uma chapa. Isso tudo me deixa muito triste e penso que esse processo de escolha de reitor se exauriu e precisamos de outros mecanismos.

Em universidades européias o reitor não tem a visibilidade que tem entre nós. Muitos não conhecem o reitor da sua universidade e a academia funciona quase que independente do reitor que tem um cargo simbólico.

Male verum examinat omnis corruptus judex. A chapa única e o fato consumado engana aqueles menos passados na casca do alho. Quem sou eu para questionar Komolgorov, mas questiono esse processo viciado. A nossa universidade cresceu muito, mas perdemos em qualidade e vitalidade. A universidade inchou e perdeu saúde. O Ensino é ruim e a cultura vai de mal a pior. Há muita coisa para além dos números que nos coloca como uma das melhores universidades do norte e nordeste. Os conselhos universitários estão esvaziados. Os professores sobrecarregados e vigiados. Vigiar e Punir podia ser o lema empregado hoje nas universidades.

O nosso modelo de eleição é muito ruim para os nossos alunos e sociedade de modo geral. Praticamos os mesmos erros de outras eleições quando devíamos como academia dar o exemplo. Na doce fala de alguns esconde-se as garras adamantinas pela busca do poder e da vaidade.

A UFRN é vital para o desenvolvimento do nosso estado e a comunidade potiguar precisa participar mais e cobrar da instituição.
Ad multos annos

Ab imo corde

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Nos 60 anos da UFRN lembro-me de alguns colegas que fizeram parte de sua história e já não estão entre nós para comemorar essa efeméride de muitas conquistas e desafios. O DFTE completa 53 anos com uma grande produção acadêmica e grupos de pesquisas bem consolidados. O Departamento de Física foi pioneiro em pesquisas nas UFRN. Muitos professores já aposentaram e outros faleceram. Lembro de alguns colegas que conviveram comigo nesses quase quarenta e cinco anos de formado em Bacharel em Física na UFRN.

– Professor Juarez Pascoal de Azevedo foi um dos fundadores do nosso Departamento de Física e um grande intelectual autor de muitos livros. Alguns religiosos e com medo do comunismo. Foi meu professor de História da Ciência, quando aprendi muito e depois passei a lecionar essa disciplina. Um professor eclético da linhagem dos grandes de antigamente, como os professores Malef, Pinho, Milton e outros. Religioso. Quando me formei em 1976, tivemos que assistir um culto na sua igreja. Foi um dos dias mais felizes para papai. Deixa saudades e o exemplo. Brincalhão e bem humorado. Quando não tinha apagador tirava as meias dos pés e limpava o quadro. Juarez escreveu os livros Ateu Já era, Histórias que nunca foram escritas, A Bíblia falou tá falado, Histórias pra rir e pra chorar e, juntamente com o prof. Timichak, escreveu um manual de estratégias de missões. Além de muitos artigos pra revistas científicas e evangélicas.

– Professor Remarque Fernandes da Silva era um homem magro, tímido e reservado. Nunca deixou de usar sua camisa de linho, tecido que comprava em peças para confeccionar suas roupas. O carrinho antigo e bem conservado era o seu meio de transporte. Mesmo depois de comprar um carro novo não abandonou o seu corcel velhinho. Como morador antigo da cidade, conhecia a ribeira e suas alfaiatarias e botecos, mas nunca foi boêmio. Solteirão vivia para o trabalho e a companhia das irmãs. Formado em Engenharia Civil. Trabalhou durante muito tempo na Faculdade de Engenharia (gérmen do DFTE) e no Departamento de Física da UFRN. Participou do grupo de Ionosfera, um projeto pioneiro de pesquisas na UFRN. Professor Remarque lecionou durante muito tempo as disciplinas de Física Geral e de Mecânica. Fui seu aluno de mecânica e guardo grandes lembranças de suas aulas muito bem ministradas. A Vida do professor Remarque era a universidade. Depois de aposentar, aparecia sempre na Física para conversar com os amigos. Nos últimos anos antes de falecer não saia de casa. A doença o consumia. Palmeirense doente, também gostava de conversar comigo sobre a música popular brasileira da época de ouro. Um dia ele me doou alguns discos antigos em 10 polegadas. Guardo-os como relíquia. E guardo do amigo a dedicação, a simplicidade e o amor ao ensino e aos amigos.

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– Janúncio Bezerra de Melo (Juba) foi um dos alunos formados no DFTE e depois professor do CERES – Caicó. Uma lição de vida. Grande amigo meu e do Departamento de Física da UFRN, onde ele foi professor. No vestibular de 1974, foi o primeiro lugar em medicina e o primeiro na classificação geral. Mudou para o curso de Física devido ao acidente que lhe deixou na condição de paralítico, após um mergulho em um açude, na sua cidade de Caicó (RN) em 1963. Sertanejo legítimo da família Bezerra de Melo, possuia a inteligência e sagacidade do povo seridoense. Persistente e estudioso, estava concluindo o doutorado em Campina Grande, em meteorologia. Tinha trabalhos sobre as secas históricas no nordeste brasileiro e fez mestrado no INPE, São José dos Campos (SP). Nesse período teve a ajuda inestimável de muitos colegas, particularmente do prof Rui Tertuliano, ex-chefe do Departamento de Física da UFRN. Um prosador como já não existe mais. Conversava sobre todos os assuntos e tinha um conhecimento profundo das coisas e personagens do sertão. Gostava de escrever sobre os “causos” do sertão do nunca mais. Deixou muitos escritos e livros inéditos. Cheguei a ler alguns desses contos e histórias nas muitas idas ao Seridó, quando ia trabalhar na estação Ssmográfica de Caicó. A estação ficava na fazenda dos seus familiares, num terreno gentilmente doado a UFRN para abrigar a estação Ssmográfica. Durante toda a operação de transferência da estação de Natal para Caicó, manutenção e operação diária da estação, o prof Janúncio teve um papel decisivo. Chico foi o operador da estação e uma pessoa fundamental na vida de Juba. Durante muitos anos foi seu secretário e o transportava para todos os lugares. Tive o prazer de conhecer seus pais e manos. A estação fazia parte de uma rede mundial de sismógrafos padronizados. Hoje está desativada e encontra-se do Departamento de Física da UFRN. A ultima vez mais demorada que estive com o amigo Janúncio foi como diretor da ADURN, numa reunião do sindicato no Ceres, e uma festa dos professores na APUC. Conversamos bastante, tiramos muitas fotos e ouvimos muitos discursos no velho estilo seridoense. Como seridoense de nascimento e sangue fiquei muito emocionado. Como físicos, observávamos as interferências das plácidas ondas no belo açude do ITANS. Foi uma bela reunião e a minha despedida do grande e saudoso amigo Janúncio. Um grande professor da UFRN, e uma grande figura humana que tive o prazer de privar da amizade durante tantos e tantos anos. Descansa em paz meu irmão, sabendo que deixastes muitos amigos e um exemplo de vida que honra a família seridoense e a garra dos que não se sujeitam com as adversidades da vida.

Meus sentimentos e saudades, caríssimos colegas.

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A Biblioteca de UFRN e a Editora

– Zila Mamede

Ali na esquina uma poetisa sonha grande um rio do Norte. A cada gesto seu um tijolo na formação de uma cidadela. A associação de Zila Mamede ceifando a Terra Árida com um Arado é correta. “Zila sentiu a voz irresistível da Terra… Todos os poemas nasceram do chão sagrado… “, escreve Cascudo na introdução ao Arado de 1959. O açude “redorme na vazante a solidão”, o banho (rural), um dos maiores poemas em língua portuguesa (reproduzido em anexo).

Zila não brincava em serviço. Pensava construir uma biblioteca robusta com fundações sólidas para poder crescer. O seu exemplo de dedicação para além da grande poetisa há que ser lembrado. Quando ainda hoje poucos valorizam uma biblioteca, Zila há mais de meio século sabia de seu inestimável valor. Muitos professores e alunos só conhecem os livros de sua área de estudo e pesquisa. Possuem suas bibliotecas particulares e setoriais. Os professores não frequentam a Biblioteca Zila Mamede (BZM) como um laboratório de pesquisa para trabalhar junto com seus alunos. Há muita conexão entre as várias áreas do saber e frequentar uma boa biblioteca é um prazer inestimável. Como vou indicar o material bibliográfico se não conheço o acervo?

A Biblioteca Zila Mamede completa 60 anos e tem um rico acervo de 142.624 livros e 273.931 volumes. Atende uma média duas mil pessoas, diariamente. Suas instalações físicas foram ampliadas para uma área de 8.525,29 m2, entre os quais 3.587,97 m2 foram inauguradas em 2011. Ao visitar a BZM você ainda pode ter acesso aos livros que pertenceram à poetisa e grande bibliotecária Zila Mamede.

A Biblioteca Central da Universidade Federal do Rio grande do Norte recebe o nome da poetisa Zila Mamede. Nada mais justo. Ela que sonhou e lutou muito para a construção dessa biblioteca. Uma visionária sabia que sem uma boa biblioteca não pode haver uma grande universidade e instituição de pesquisa. Natal e seus professores precisam conhecer melhor esse espaço sagrado. Um laboratório de pesquisa sonhado por Zila Mamede que juntou tijolo por tijolo para construir a melhor biblioteca do estado do RN. Em um tempo onde todos os livros estavam dispersos, Zila reuni-os muitas vezes com os seus próprios músculos e garra. Sempre trabalhou muito. Cobrava seriedade e algumas vezes foi acusada de antipática e durona. Quando, o que ela pedia, era seriedade por uma justa causa. Pela causa do livro que mais que ninguém ela sabia o valor na construção do saber e de liberdade. A Biblioteca da UFRN no início estava situada em duas minúsculas salas. Zila lutou para reunir os livros que estavam dispersos nas várias unidades localizadas em diferentes pontos da cidade, num tempo em que muitos professores achavam que não precisava ser cadastrado para retirar o livro. Zila disse não pode e foi acusada de autoritária. A poetisa Zila Mamede nasceu na Paraíba e viveu no RN. Amou esse estado e fez um dos melhores r trabalhos já feito em honra de seu filho mais ilustre – Luis da Câmara Cascudo: Luís da Câmara Cascudo: 50 anos de vida intelectual, 1918-1968: bibliografia anotada, 3v.

– Pedro Vicente Sobrinho

No dia 19 de outubro de 2015 o amigo e amante dos livros Pedro Vicente completaria 70 anos se vivo fosse. Norte-rio-grandense de Macau, viveu no mundo. Morando muito tempo no Recife, também fincou raízes na Amazônia ( Acre) e União Soviética. Foi professor e editor da UFRN, quando aposentado faleceu no dia 05 de Setembro de 2013. Por onde passou deixou sua marca. Qual aquele que ao se despedir não nos faz morrer um pouquinho mais?

Mais que as palavras que dizem pouco nesse momento o sentimento do dever cumprido. Das amizades que não acabam. O exemplo. O mestre que deixou a sua marca em gestos, ações, livros e contradições.

E assim como barcos separam-se quando estavam ancorados no mesmo cais. ASSIM vamos encontrar o amigo Pedro Vicente muitas vezes nas falas dos amigos, nos gestos e saudades.

Podemos encontrar quem sabe num outro plano mais elevado e digno.

Pedro Vicente da Costa, PVC para umas línguas ferinas. Tinha muitas conexões e juntou muito rincões em sua profícua vida.
Ninguém sabia direito onde Pedro Vicente nasceu. Ele não costumava falar do seu estado Natal, ele que foi um cidadão do mundo. Talvez uma proteção sua quando precisou viver exilado.

Amigos de muitos livreiros e escritores. Organizou muitas feiras de livros. Trouxe muitos escritores a Natal. Por seu intermédio conheci Hildeberto Barbosa Filho, Alberto da Cunha Melo, Fernando Monteiro e outros. Ele juntou a todos nós e era referência nacional em se tratando de livros. Editou e organizou muitos.

Estava sempre recomeçando e organizando algo. Organizava uma Galeria de Artes no Acre um pouco ante de morrer precocemente. Montou várias bibliotecas e era um grande leitor e conhecedor de livros e autores.

Imortal da Academia de Letras Norte-Rio – Grandense e do Conselho Estadual de Cultura.

Montou um sebo de curta duração com os amigos Vicente Serejo e Homero Costa. Era sempre assim: começando algo para recomeçar depois. O livro sempre presente. Sem nunca esquecer o grande sedutor.

Um bom enólogo e gourmet. Apreciava um bom prato e tinha uma bela biblioteca específica.

A vida que passa como o movimento dos barcos, e dizer: valeu amigo Pedro Vicente da Costa Sobrinho.

Saudades

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João da Mata

Comentários

2 comments

  1. Maria Aparecida Anunciata Bacci 26 junho, 2018 at 16:50

    Parabéns pelo belíssimo artigo,quantas história vividas na construções desse templo do saber, que bela homenagem aos amigos,minhas felicitações Prof. João da Mata por ter feito parte dessa maravilha.

  2. Joao da Mata 28 junho, 2018 at 16:52

    Brasão da UFRN

    O Brasão da UFRN foi elaborado em Julho de 1959 pelo grande escritor cearense e estudioso da heráldica, Gustavo Barroso. É bom lembrar também que Gustavo Barroso foi um grande integralista, assim também como Câmara Cascudo, que discursou por ocasião da instalação da UFRN

    Simbologia:

    A forma eliptica serve de sinete e a árvore de Minerva e o jardim de academusselo. A cor verde a mocidade e a esperança. A estrela que orientou os Reis Magos em direção a Belém. A águia representa a liberdade. O ramo de oliveira representa a Árvore de Minerva e o Jardim de Academus, indicação do saber. O louro, a árvore de Apolo, das letras, artes e glória.

    A DIVISA ACCIPIT UT DET, recebe para dar

    João da Mata

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