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Um amigo em dificuldade

Tenho um amigo para quem o nível máximo de ostentação é poder ir ao cinema na segunda-feira à tarde. Ele me disse que uma vez esteve de férias no Rio de Janeiro e viu a socialite Narcisa Tamborindeguy saindo de um cinema em plena segunda, à tarde. Por isso, realizar esse desejo virou seu sonho de consumo quando o assunto é férias. Até hoje, no entanto, ainda não conseguiu realizar tal desejo. Mas não desiste. Todas as vezes que entra de férias, Cláudio lembra daquela viagem ao Rio e do bendito filme na segunda à tarde…

Lembrei dessa história porque estava querendo assistir a um filme nacional que entrou em cartaz há poucos dias, mas não deu certo porque ele só é exibido à tarde, justamente no horário em que estou trabalhando. Decidi, então, escolher um filme que fosse exibido à noite, de preferência uma comédia. Era o melhor a fazer. Não combinei nada com ninguém porque era segunda-feira e a ideia surgiu de repente, pouco antes de sair do trabalho. Na verdade, estava querendo mesmo ficar sozinha e aproveitar um pouco o primeiro dia de “liberdade” depois de dois meses assistindo aula, de segunda a sexta, em um cursinho preparatório para concursos.

Voltando ao assunto, apesar de gostar muito de filmes, raramente vou ao cinema. Embora vá no shopping com certa frequência, com o propósito de fazer refeições e/ou encontrar amigos para tomar café e jogar conversa fora, ir ao cinema é algo que sempre vou deixando para depois. Aí, quando me dou conta, o filme que gostaria de ver já saiu de cartaz. Não conto as vezes em que isso me ocorreu.

Apesar de estar quase sempre rodeada de amigos, não faço drama quando preciso ir sozinha ao shopping, para resolver alguma coisa no banco, comprar um presente ou algo de que necessite, por exemplo. E foi o que fiz hoje, após sair do trabalho. Não estava a fim de ir para casa logo depois do expediente e por isso decidi jantar no shopping e ficar um pouco na livraria. Estava sozinha e queria mesmo era sentar em algum lugar onde pudesse ler alguma coisa tranquilamente, refletir um pouco… Bem, esse era o plano. Antes de entrar no shopping, porém, encontrei Manoel, um amigo poeta que vende folhetos de cordel na passarela em frente ao shopping e o convidei para um café na praça de alimentação do shopping, que ele aceitou de pronto.

Assim que entramos no shopping, dei de cara com uma amiga que ia ao cinema e foi logo me indicando o filme que seria exibido às 19h, uma comédia romântica com dois atores de quem gosto muito, o que significava dizer que eu teria uma hora para jantar e conversar com Manoel. Enquanto caminhávamos até a praça de alimentação, conversando sobre uma situação desagradável que ele vivenciara pela manhã, em um posto de saúde onde tentou, sem sucesso, marcar o retorno de uma consulta, eu refletia sobre as fragilidades da condição humana, especialmente sobre a temida solidão. Apesar da nossa diferença de idade, Manoel tem 66 anos e eu, 35, percebi que estávamos vivenciando uma situação análoga naquela noite, e isso de alguma forma nos aproximou ainda mais e me fez sentir a necessidade de lhe oferecer algum conforto.

Entre os assuntos financeiros e preocupações com o futuro, algumas confissões amorosas e coisas do gênero tornaram a conversa um pouco mais leve. Aos poucos, aquele semblante de aflição do meu amigo foi dando lugar a uma expressão mais tranquila. Naquele dia, especialmente, ele estava um pouco desanimado não só com o que ocorrera pela manhã no posto de saúde, mas também por alguns percalços financeiros e outros problemas de ordem particular que vinha enfrentando há alguns meses. Vez por outra, no entanto, expressava sua gratidão pelo apoio de alguns amigos e a esperança de que tudo poderia melhorar. Aliás, a gratidão pelo apoio dos amigos e a esperança em dias melhores é o que faz de Manoel uma pessoa ímpar. Não obstante as dificuldades, mantém a crença de que tudo pode e vai melhorar. Não se deixa abater facilmente pelas adversidades, o que credita ao apoio dos amigos que, vez por outra, dedicam algum tempo para conversar com ele ali mesmo, na passarela, onde chega no final da tarde e fica até as 8 ou 9 h da noite, entre uma venda e outra de um folheto de cordel. Foi tão bom vê-lo sorrir outra vez, um riso maroto, como se tivesse contando a um amigo como fora sua primeira noite de amor com a namorada de adolescência, tamanha a delicadeza com que fala dos seus dramas amorosos.

Por alguns minutos, até esqueci que não estava nos meus melhores dias, que desejava ficar sozinha por algum tempo… Naquele momento, a vida e os problemas do meu amigo eram as únicas coisas com que me preocupava. O que eu desejava era poder lhe oferecer um pouco de alegria, afeto e proteção. Por mais que pareça pouco para alguns, um olhar afetuoso, um abraço, uma palavra de conforto, pode fazer a diferença para quem está fragilizado emocionalmente e não vê saída para determinadas situações. Foi isso que senti quando nos despedimos, após o café. Ele voltaria a vender seus folhetos, enquanto eu me dirigia à sala do cinema. Percebi que ele estava mais leve, e eu também. Nos abraçamos e, como sempre, reforcei minha alegria por tê-lo encontrado e meus desejos de que as coisas melhorassem. Naquele momento, percebi que ter ido ao cinema sozinha foi a melhor coisa que poderia ter feito em plena segunda-feira.

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Andreia Braz

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