Um café com Dandara
29 de outubro de 2009 às 16:40 - ComentarLá estava Dandara sentada num café, ensimesmada até me ver, mas depois, toda derramada em abraços e beijos, chamando-me para sentar-se com ela.
Há quem ame perdidamente. O amor de perdição é o mesmo amor de salvação, sem tirar, nem pôr, dizia Dandara. Não sei se salvar-se depende de nós, não sei se é possível escolher entre as duas coisas, se “tão contrário a si é o mesmo amor”. Às vezes, a gente escolhe, ponderei. A vida escolhe por nós, disse a profusão de nome Dandara. Transbordando de tanta escassez, de tanta necessidade de amor, desse amor demais dentro dela, platônica e atávica como ela só. Não quero mais passar tanto tempo sem vê-la!
E “tão contrário a si é o mesmo amor.” O amor é o mesmo, e nosso, nós é que o projetamos nos outros. E eu entreguei o meu ouvir à voz roliça dela, e entreguei o meu olhar aos seus acesos olhos: amei perdidamente uma pessoa, você sabe, não? Amava tanto que nem percebia quão pouco vinha em retorno. Passei anos nisso, lembra? Pois é, e aí um belo dia, porque o coração dele desocupado estava, arranjou ocupação. Ocupadinho de outra, chegava a transbordar, que nem o meu de sofrer por ele. E você sabe o quanto eu sofri, o quanto passei a detestar aquela que me surrupiara a felicidade imaginária na qual eu vivia. Eu digo imaginária porque era uma felicidade pelo meio, minguada, feita só de amor meu, com um tempero forte de angústia. Você se lembra de todas essas coisas.
Eu lembrava. Ela amou perdidamente certa pessoa e não foi correspondida. O rapaz andou de namorico com ela enquanto não tinha algo mais interessante para fazer, e depois, deixou Dandara à perdição. Fazia uns anos, já. Dandara, 44 anos. Não digo a idade para explicar a mulher, nem sua história, que poderia ter acontecido aos 15, 20, 30, 50 e demais. Digo é só para me ajudar a descrever Dandara, contemporânea da minha primeira faculdade e pertencente à raça dos que amam demais.
O amor de perdição é o mesmo amor de salvação. A intensa Dandara está de novo apaixonada e, desta vez, feliz. Correspondência eleita pelo destino, ou pelo acaso, ou seja que nome se queira dar a esse bicho que arruma as coincidências. O outro amor, aquele acabara, como uma libertação. Mas libertação mesmo, diziam os acesos olhos da minha amiga junto com a fala roliça dela, fora deixar de odiar a antiga rival. Porque acabar um amor na gente, dizia ela muito dizendo, é também perder sentimentos bons desperdiçados. Alivia, mas dá uma nostalgia também. Já quando a gente acaba a raiva, só desaparece coisa ruim, que fazia mal para nós, unicamente para nós, porque a outra estava lá, feliz, vivendo sua muita história.
Eu só não concordei com isso de nostalgia por sentimentos bons desperdiçados. Desperdiçados eles eram quando direcionados para o alguém errado. Como disse ela mesma, o sentimento é nosso e nós o projetamos. Livramo-nos, então, somente do erro de direção. Daí para a frente, é acertar o arco. “Não quero saber de Lirismo que não é libertação”*. Quanto ao mais, Dandara, gosto de ouvir você dizer que o porquê da sua vida é “ir além”. Gosto mais ainda de saber que o significado desse “ir além” só os deuses e você conhecem. Só você e os deuses ditam.
*verso de Manoel Bandeira


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