Um carnaval por dentro

16 de fevereiro de 2010 às 18:07 - Comentar

Por Pablo Capistrano
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Domingo de carnaval fui até Baía Formosa, uma das últimas praias do Rio Grande do Norte, já perto da fronteira com a Paraíba. Minha intenção era encontrar um lugar mais ou menos calmo para tomar um banho de mar com as a crianças.

A maré estava cheia, os bares lotados, e a praia acossada por aquela procissão de idiotas com seus carros ouvindo a toda altura um misto bizarro de funk com axé e música sertaneja que a rapaziada daqui por algum motivo misterioso chama de Forró. Já na hora da saída, quando nos preparávamos para pegar a estrada de volta à Natal, vi um senhor de idade avançada. Estava sozinho, completamente embriagado, com a cara pintada de branco e com uma sombrinha daquelas de frevo, dançando pelo meio da rua, como se estivesse em uma viagem de ácido ou como se viesse ainda chapado, de um antigo ritual religioso em homenagem as potências naturais.

Lembrei imediatamente de Jaadiel, um amigo que é professor de filosofia em Santa Cruz. Quando eu perguntei: “E ai velho? Vai curtir o carnaval em Natal?” – ele me respondeu: “Curtir não, vou descansar”. Emendando quis saber se ele não estava pensando em “cair na fuzaca” em alguma praia do litoral norte ou sul e ele me respondeu: “No carnaval o natalense vai para a beira da praia, fica olhando o mar, tomando cerveja e comendo peixe frito. Ele faz no carnaval, aquilo que faz todo fim de semana, não tem diferença”.

Pois é amigo velho, já fui a alguns carnavais nessa vida: Salvador, Recife e muitos pelas praias do litoral potiguar. Sempre que o carnaval se aproxima minha vontade é de buscar um paraíso entre as dunas e o mar, perto de algum coqueiral para me chapar com qualquer coisa enquanto ouço ao longe, levado pelo vento, os ruídos de alguma troça fantasmagórica com seus metais espectrais e sua percussão primitiva a me lembrar que em algum lugar das eras arcaicas ocorre uma grande festa.

Não adianta. O modo como o potiguar encara o carnaval é absolutamente diferente do modo como o pernambucano e o baiano encaram. Mesmo onde há alguma concentração de pessoas (Touros, Macau, Caicó, Pirangi, Redinha), mesmo nesses locais, o carnaval não é, no nosso estado, um fenômeno de massas.

Quem já foi na Avenida 7 perto do Campo Grande em Salvador, ou mesmo nas ladeiras de Olinda ou no Recife Antigo, quem assistiu um desfile de escola de samba na Marquês de Sapucaí, ou mesmo correu atrás dos blocos de rua do Rio, sabe que um carnaval é um fenômeno de dissolução do ego, uma experiência selvagem de ruptura com o nosso princípio de individuação. Nosso Eu desaparece na turba alucinada, no deleite da exuberância estética, junto ao álcool, a música tribal e o cheiro de sexo e suor que corre pelos corpos das multidões. Onde há carnaval há um delírio dionisíaco que atravessa o imaginário, expandindo os desejos, ampliando as possibilidades do corpo até a exaustão, transformando a linguagem e construindo uma conexão poderosa, como se uma imensa suruba telepática pusesse uns dentro dos outros (em todos os sentidos).

O potiguar, por mais que tente, não nasceu para esse tipo de coisa. Sua viagem é interna, seu devaneio é privado, sua loucura é particular. Nas casas de praia, nas barracas do litoral ou nos balneários na beira dos açudes, o potiguar enlouquece solitariamente, contemplativamente. As fuzacas e as fuleragens típicas do carnaval são experimentadas em família, ou em pequenas troças que só de muito longe lembram as incontestáveis multidões das metrópoles dominadas pela influência do rei louco.

Somos, especialmente em Natal, uma nação de sertanejos que moram diante do mar. Um povo que se esconde. Que passa o ano todo disfarçado. Em uma terra de marranos, tararius e quilombolas acostumados a camuflagem e ao esconderijo das identidades, os abismos sempre são profundos e estreitos. Até o nosso Carnatal (o momento Bahia do natalense) por mais que tente, não consegue se aproximar da força catártica do original (quem foi a Salvador sabe o que eu digo). Por isso eu adoro passar o carnaval no Rio Grande do Norte.

Nós, os apolíneos, curtimos mesmo é essa inviolável solidão. Esse poderoso êxtase de reter nossa loucura. Esse devaneio de dissolver-se sem explodir. Aqui o carnaval acontece por dentro, na psicodélica e violenta troça de nossa imaginação.

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    COMENTÁRIOS

    • Fernando Monteiro: Belo hai-cai, Poeta -- obrigado! -- com essa certeza, sempre, de haver sido LIDO, sim, quando o ouvido apuradíssimo da LEITURA (raridade rara - tautologia necessária) é não menos que o do Poeta que sucedeu, aí, em grandeza lírica, o querido (saudade!) Luís Carlos Guimarães: JARBAS MARTINS. - As asas da noite que surgem (1)
    • Daniel Menezes: O direito autoral é a apropriação individual de conhecimento coletivo. Tipo assim, a sociedade trabalha para promover a cultura objetiva e depois, alguém, por um impulso social, produz algo. Afinal, uma sociedade sempre gera as questões que pode responder, já dizia o barbudo. Este "inventor" (expressão burguesa) não produz a "novidade" sozinho e nunca partindo do zero. Depois de feito, diz que aquilo é dele. Só muito aparato estatal para empurrar isso pela goela. - Pirataria
    • Ednar Andrade: Boa noite, Marcos, amigo, querido. Também acho maravilhoso reencontrá-lo. Já sentia a tua falta aqui neste espaço. Saudades. Eu sou, tu és, Rio corrente. Não demores. Beijos, querido. - Fio de luz
    • Regiane de Paiva: Não sei dizer o quanto este texto me emocionou. Aqui sinto a literatura e a vida. Cada metáfora ou descrição de um recorte da memória provoca uma sensação de nostalgia e de melancolia. Llosa afirma que nada ensina melhor que a literatura a ver a riqueza do patrimônio humano e a valorizá-la como uma manifestação da sua múltipla criatividade. Desta forma, entendo que este texto é literatura pura! Literariedade, primor e encanto! Beijos in..... marido! - Da solidão
    • Regiane de Paiva: O título é a extensão do texto. A fala pueril dentro de um contexto como a política remeteu a uma bela reflexão. À medida que eu ia lendo o texto, ouvia uma voz de menino atrás dos meus olhos, parece que o menino conversa fitando o leitor... Texto maravilhoso! - Política de menino
    • Jarbas Martins: UM HAI-CAI PARA FERNANDO MONTEIRO A noite, com gesto brusco,/ roubou um naco da tarde/ e se esgueira pelo subúrbio. - As asas da noite que surgem (1)
    • Jarbas Martins: Fernando Monteiro, sim. E o pouco que li de António Lobo Antunes. - As asas da noite que surgem (1)
    • Jarbas Martins: Juan Ramón Jiménez, sim. E a boa tradução de Antonio Cícero. - Juan Ramón Jiménez: "Soledad" / "Solidão"
    • Marcos Silva: Não assisti à montagem de Roda Viva, eu morava em Natal na época. Li o texto, vi fotografias, ouvi depoimentos (inclusive de Anna Maria Martinez Correa, historiadora e irmã de José Celso, que acompanhou os debates sobre a agressão aos atores da peça). A peça foi recuperada na auto-vitimização de Marília Pera como justificativa para seu apoio à candidatura de Fernando Collor... Na época da encenação, atribuía-se a agressividade da peça ao diretor José Celso. Chico Buarque, com muita dignidade, declarou que o texto era integralmente dele. É difícil dizer para um autor o que ele deve ou não autorizar fazer em relação a sua obra. Roda viva existe como memória. Talvez seja legal pensar, hoje, numa peça sobre Roda viva (que tal uma peça sobre a invasão do teatro pelos terroristas de direita, que contavam com apoio de estado?). En passant, discordo de Alonso sobre a peça criticar APENAS a Jovem Guarda. É claro que ela aborda toda a indústria cultural, que lançou inclusive... Chico Buarque de Hollanda! Nesse sentido, é preciso explorar em profundidade as ligações entre a peça e canções posteriores, como "Agora falando sério" e "Essa moça tá diferente". - Zé Celso questiona decisão de Chico de vetar encenação de 'Roda Viva'
    • carlos de souza: devia liberar a biografia, que não tem uma sequer revelação que já não tenha em sua discografia e reportagens jornalísticas. punir um escritor sério por pura babaquice diminui sua aura de "rei", isso sim. - Roberto Carlos autoriza relançamento de seu disco "proibido"