Literatura

Um dia, dois zines

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O homem não é mais artista, tornou-se obra de arte.

Nietzsche

Antes de qualquer coisa, quero deixar claro que este texto não vai cair (ou pelo menos não é o que pretendo) na armadilha de classificar, rotular, carimbar, como por exemplo fazem esses memes Raiz x Nutella (tá, a gente se diverte, mas o foco aqui não é exatamente esse, embora diversão seja solução, sim!).

Estava eu nessa semana desfilando meu charme por aí, num dia que oscilava entre a chuva e o sol, bem a propósito do clima das considerações que quero aqui tecer sobre esse fenômeno chamado por uns de fanzine, ou apenas zine. Encontrei a amiga Lidiane Duarte, junto com Juscelino Brito, e fomos almoçar em Zé Reeira. Eis que lá encontramos um poeta andarilho divulgando sua arte por meio de um zine. Quem me conhece, sabe que tenho particular interesse por publicações alternativas. Gosto de pensar que, para além dos organismos oficiais e dos circuitos de maior visibilidade, outras escritas acontecem. Tanto que organizei e lancei um livro de artigos acadêmicos intitulado “Fanzines: subjetividade, autoria e invenção de si” (Fortaleza: UFC, 2010). Chamei o cara e indaguei pelo zine, o que ele me informou, com sotaque mineiro e com um copo de cachaça na mão, que solicitava a quantia de R$2,00 para contribuir com a “divulgação da poesia no mundo”.

Os puristas diriam, acho, que ali era um exemplar autêntico e genuíno de fanzine: assinado por Andrezito e Maikon, consistia numa folha A4 frente e verso, sem apuro formal, com diagramação caótica, de caráter libertário, sem pretensão de lucro, enfim, uma prova reatualizada dos libelos punks dos anos 70. Intitulado “Alfinete de ego e fardo”, um dos poemas que eu destacaria seria este:

AMOR

Não cobre amor
Que amor não é cobre
É ouro
Não peça amor
Que amor não é peça
É todo
Mas chama, chama amor
Que amor é chama
É fogo

Como eu dizia no começo, tento escapar das jaulas em que se tornam muitas vezes as definições. Aquela opinião formada sobre tudo me desespera um pouco. Então, quero ressaltar que não cabe aqui julgar se isso é poesia ou não ou se é poesia verdadeira ou falsa poesia. Evidentemente, há quem maneje recursos de linguagem mais habilmente que outros (ritmo, rimas, aliterações, metáforas etc.). Mas eu, com minhas leituras tacanhas, prefiro pensar que a questão pode ser pensada para além do bem e do mal e que o que interessa mais é observar a vontade de potência poética que mobiliza o surgimento de um texto como esse. Enfim, sigamos. O dia prosseguiu e à noite, acompanhada por Volonté, fui ao Bardallo´s, onde era lançado o zine “Liberdade, Palavra, Poesia”, de Aluízio Mathias.

O que me impressionou primeiro foi o evento em si: as mesas decoradas com lindos arranjos de flores, mesa de autógrafos, pose para fotografias e até caneca estampada com versos estava à venda. O zine de treze poemas e 18 páginas era o oposto do outro: bem diagramado, ilustrado, impresso na ServGráfica e com direitos reservados. Custava R$12,00, mas como os trocados que eu tinha ali no momento mal dariam para uma meladinha, tive que barganhar por R$10,00, o que pareceu não agradar muito ao autor, no que ele tinha lá sua razão. Do zine de Aluízio gostei particularmente desse poema:

LIBERTARDE

Mesmo que cortem
As asas dos meus sonhos
Irei irradiar
Amores medonhos
Para você sorrir
E, até mesmo, cantar…

Chegando em casa, fui reler os dois exemplares, tão díspares entre si mas denominados por seus autores como sendo um mesmo fenômeno: um zine.

Certa feita perguntaram a Mário de Andrade o que seria conto, ao que ele teria respondido: “conto é tudo aquilo que se queira chamar como conto”. Nesse parelho, por que não dizer que são sim, ambos, zines? A descontinuidade continua me parecendo a condição desse dispositivo enunciativo: sem delimitações quanto a modos de conceber, de editar, de compor, de fazer circular, de posicionamentos ideológicos, etc. Tem zine para tudo o que é gosto porque o mundo gira e nada é simples. As complexidades da vida não cabem nas gavetinhas dos “ismos”.

Então, ao contrário de cair nas generalizações implicadas na pergunta improdutiva “isto é um zine?”, melhor mesmo é celebrar a diversidade.

E viva a poesia! Viva os zines!

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Cellina Muniz

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