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Um diálogo

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– E se tivéssemos nos conhecido há 10 anos?

– Não podemos prever o que é impossível, Clara. Nos conhecemos agora. É o que temos.

– Mas é como se eu me lembrasse de você há muito tempo. Tenho a impressão de que essas coisas todas, essa música, o seu toque, sua voz, você, tudo é tão familiar.

– Clarinha, você parece uma menina. Você é uma menina.

– Não pormenorize minhas sensações, João. O que falo não é coisa de criança. Eu queria que você tivesse aqui mais cedo. Poderíamos já ter uma casa. Mesmo que dormíssemos em quartos separados. Sabe que prefiro assim. Dividiríamos o mesmo escritório. Do lado das suas árvores, eu poria minha jardineira com as minhas flores preferidas. Uma roseira, uma cravina de várias cores e até quem sabe pudéssemos ter uma orquídea no jardim. E nossos filhos poderiam estar no jardim da infância. Se o tempo tivesse sido generoso conosco, talvez até mesmo um deles já estaria na quarta série.

– Não vamos apressar o rio, Clara. Está tão bom assim, vivemos os minutos, as horas e os dias com intensidade e delicadeza. Não somos estranhos um ao outro. Você sabe disso. Embora o tempo seja sempre curto e incerto, quando nos damos conta dos nossos desejos e fantasias.

– Você tem razão, meu querido. Vamos tomar mais uma taça de vinho? Gosto muito desse.

– Antes de mim você tomou com mais alguém esse vinho?

– Que pergunta é essa agora?

– Sei lá. Às vezes fico pensando se foi alguém especial que te apresentou esse vinho. Sei tão pouco dos seus outros amores. Não que eu queira saber de fato.

– E se tivesse sido dessa maneira? Que diferença faria, João? Vão-se as garrafas, fica a embriaguez, o enlevo, a sublimação das ressacas.

– Tá vendo? Eu tinha razão.

– Razão do quê, meu Deus? Do que você está falando agora?

– Você já quis ter filhos com alguém? Já fez planos? Já plantou uma árvore ou pensou em escrever um livro a quatro mãos?

– Quantas perguntas! Era só uma pequena taça de vinho.

– Você já amou alguém, Clara?

– Sim. Acho que sim. Já fiz planos. Já quis ter filhos, plantar árvores. Escrever poemas. E How I Wish You’re Here, do Pink Floyd, era nossa música preferida. E também tinha uma outra que o Ed Motta gravou que começa assim, “Areia, manhã…”

– Eu não quero saber, Clara.

– Joaquim, eu não acabei de nascer sabia? Já tenho 38 anos.

– Você sabia que existem mais de 30 tipos de orquídeas?

– Eu pensava que tinha mais que isso.

– Depois a gente poderia pesquisar as que são mais resistentes. E as mais apropriadas para um jardim pequeno, mas de terra fértil.

– Claro, que sim. Mais vinho?

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Sheyla Azevedo

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