CrônicaMais

Um encontro oportuno

Há algum tempo venho pensando em escrever sobre o complexo tema do suicídio, no entanto, sob a justificativa de que preciso ler mais sobre o assunto, refletir melhor sob que ponto(s) de vista irei utilizar para abordar o tema, acabo sempre adiando a crônica, que, inclusive, já foi cobrada por alguns leitores. Sei que esse não é um assunto fácil, mas também sei que precisamos conversar a seu respeito, especialmente numa época em que milhares de pessoas são acometidas de depressão e outros problemas psíquicos que podem levar um indivíduo a acabar com a própria vida.

Uma época em que estamos superfragilizados emocionalmente e mergulhados numa cultura de opressão. Sim, pois não sei que outro nome eu poderia dar a comportamentos insanos que vemos a todo o momento nas redes sociais, essa pressão constante para estarmos sempre bonitos, felizes, viajando, praticando esporte, ostentando um corpo perfeito. Vivemos sob uma espécie de ditadura da (in)felicidade.

Não sou especialista no assunto, e decidi escrever sobre o tema por dois motivos essenciais: além de tentar expor meu ponto de vista sobre a questão, pretendo refletir sobre as formas de ajudar, dentro das nossas limitações de leigos, pessoas que demonstram estar muito fragilizadas, mesmo que a gente não consiga sondar as motivações mais profundas que as perturbam. Sim, porque essas pessoas muitas vezes pedem ajuda, seja através de palavras, seja por meio de atitudes, ou mesmo pelo silêncio e/ou isolamento social. E não podemos ficar indiferentes à dor alheia, porque ela também é nossa. Se pudermos fazer algo para amenizar o sofrimento dessas pessoas, por que vamos ficar de braços cruzados?

Apesar da insegurança para escrever sobre um assunto tão delicado, resolvi dedicar esta crônica ao tema do suicídio por causa de uma experiência vivenciada há alguns dias. Uma experiência que me causou angústia, solidariedade, mas, sobretudo, uma enorme sensação de impotência. Sim, foi esse o sentimento dominante após uma conversa com uma amiga que tem o suicídio como uma possibilidade de “resolução” de suas questões existenciais e outras angústias que a atormentam desde a adolescência.

Nossa conversa aconteceu por acaso. Eu a encontrei em um daqueles dias em que você não pretende sair de casa e vai a um determinado lugar somente para resolver algo urgente e volta logo para o conforto do seu lar. Fui ao shopping comprar um livro para um amigo que faria aniversário no dia seguinte. Comprei o livro rapidamente e, ao chegar à parada de ônibus, eu a vi e logo me aproximei para cumprimentá-la. Depois de um abraço demorado e algumas palavras triviais, logo percebi em sua feição um ar de angústia, como se quisesse chorar ou externar algo que a estava incomodando profundamente. Quando perguntei como estava se sentindo, ela foi logo dizendo: “Acordei muito angustiada hoje, amiga. Passei o dia inteiro com vontade de chorar”. Perguntei se havia acontecido alguma coisa naquele dia, e ela simplesmente disse: “Desde que acordei estou assim. Não sei o que tenho, é uma tristeza muito grande”.

Mesmo já estando de saída, eu a convidei para entrar no shopping novamente, assim conversaríamos com mais tranquilidade. Tomamos um sorvete enquanto ela me contava alguns fatos de sua vida e tentava, de alguma forma, encontrar uma razão para aquela angústia que lhe corroía a alma (para usar suas próprias palavras) e lhe tirava o desejo de seguir em frente, apesar do apoio da família, do namorado e dos amigos.

Lúcia tem 25 anos e está no último período de jornalismo. Nos conhecemos em um curso de francês e desde então nos tornamos amigas. O amor pela literatura foi o que nos uniu inicialmente. Depois, a paixão pela revisão de textos, atividade em que ela pretende atuar assim que terminar sua graduação. Veio morar em Natal ainda no ensino médio e divide um apartamento com sua única irmã. Os pais vivem no interior, mas frequentemente as visitam. Vez por outra, elas também fazem o mesmo.

Ao comentar sobre a vida acadêmica, os preparativos para a formatura, mesmo sem muita empolgação (está insegura em relação ao futuro profissional), contou-me que está preparando um artigo para apresentar num colóquio de filosofia no Chile, caso consiga apoio financeiro da universidade, já que os custos da viagem são elevados. Ela conta com a ajuda dos pais e o dinheiro proveniente de uma bolsa de pesquisa para manter-se em Natal.

Preocupada com sua situação, e querendo ajudá-la de alguma forma, perguntei-lhe sem rodeios se era atormentada por pensamentos suicidas. Com espantosa naturalidade, ela disse que sim, que já havia pensado nisso e certamente essa seria sua forma de deixar o mundo. Após essa confissão, dada a angústia e a insatisfação existencial com que convive, perguntei se ela não tinha vontade de procurar um psicólogo e partilhar com ele suas inquietações. “Prefiro encarar esse momento sozinha, quero ver até onde consigo suportar essa dor. Talvez eu procure ajuda algum dia”.

O que me deixa preocupada é esse suposto limite que ela impôs para si e o perigo que isso representa para alguém já fragilizado por dificuldades crescentes. Respeitei sua decisão e não toquei mais no assunto. Terminamos a noite falando de poesia, um tema sobre o qual sempre conversamos. Lúcia me apresentou alguns poemas que escreveu recentemente, que me causaram uma ótima impressão, e falou do seu processo de criação. Ela me disse algo bastante surpreendente sobre tal processo: “Cada vez que termino um poema é como se eu morresse um pouco. Um pedaço de mim esvai-se a cada novo poema”.

No dia seguinte, recebi uma mensagem de agradecimento de Lúcia, e fiquei mais tranquila quando ela disse que estava se sentindo melhor e mais confiante. Respondi o torpedo de forma carinhosa, afirmando que estava a sua disposição sempre que precisasse conversar.

Desejo que ela consiga terminar seu curso e tenha sucesso em sua nova atividade profissional. Também desejo que publique logo seu livro de poemas. Aliás, um projeto como esse é um bom motivo para seguir acreditando em dias melhores. Afinal, escrever é também uma forma de diálogo, uma maneira de externar nossos sentimentos e partilhar com outros as nossas dores, as nossas alegrias, os nossos sonhos, enfim.

Lúcia prometeu me enviar alguns poemas por e-mail. Ela pensa em organizar seu livro quando tiver certa estabilidade financeira; está aguardando o resultado de um concurso para tomar algumas decisões. Ficamos de marcar um café (ou uma cerveja), para colocar o assunto em dia e falar dos nossos projetos acadêmicos e literários.

Mas, quem sabe, esse encontro também pode ser obra do acaso. Afinal, como diria o poetinha, “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”.

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Andreia Braz

Comentários

2 comments

  1. Maria tereza 7 novembro, 2017 at 05:20

    Vivemos fragilizados e somos flagelados ! Quem não tem suporte psicológico é mais fácil adoecer . Triste dias! Crônica suave sobre assunto difícil. Parabéns Andreia.

  2. Mara Nogueira de Castro 11 novembro, 2017 at 15:40

    Muito bom falar um pouco sobre esse assunto! Não imaginamos quantas Lúcias existem por ai! Parabéns!

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