Um livro, para voltar a me sentir humano!

Paulo Benz
CrônicaDestaque

Não consigo imaginar a vida sem livros.

A bem da verdade, é preciso que eu reconheça que não sou o único, ao modo que, do outro lado da arquibancada, há uma infinidade de pessoas que simplesmente passa ao largo da compreensão dos motivos, quiçá da finalidade, desse negócio de gostar tanto de estar cercado dessas encadernações de capas e lombos coloridos.

De uma feita, um conhecido que me havia flagrado na varanda de casa degustando uma leitura de lombo largo, se não minto a mim mesmo, tantos anos passados, teria sido “O Último lugar da terra”, coisa pra perto de 700 páginas, perguntou-me espantado se eu pretendia ler aquele livro todinho. Ora pois, este e mais muitos outros. Recebi como resposta um olhar entre incrédulo e desenganado.

Há sempre uma leitura por perto e, se sou pego desprevenido, sem nada para ler, acomete a minha pessoa uma espécie de “delirium tremens” literário. Pior que “tomar uma para firmar o pulso”, preciso “ler algo para ver se a alma acalma”.

Daí, dessa necessidade imprescindível de afagar a fantasmada interior, as leituras são completamente assistemáticas e variadas, concomitantes e urgentes. Na minha mesa, duas torres de livros se erguem soberanas no canto esquerdo, junto à janela, motivo de infindáveis conversas com minha digníssima acerca da necessidade de arrumação. Assinei um TAC (aos leigos, Termo de Ajustamento de Conduta) de limitar o espalhamento de livros a estas torres gêmeas, porém, bivitelinas, tão díspares em forma e conteúdo.

O cenário se completa com três estantes de aço repletas de livros. Em que pese uma perda do ponto de vista estético, que empresta um ar de enfermaria ao meu escritório (poderia usar a desculpa de que livros são verdadeiros remédios contra a ignorância), a opção foi por conta de uma batalha vencida pelos cupins, que estragaram muitos livros meus em determinada época. Quero ver conseguirem comer a chapa metálica, seus brutos!

Biblioteca de Trinity College de Dublin do século 18

Biblioteca de Trinity College de Dublin do século 18

A casa de meus pais transbordava livros pelos corredores. Memória afetiva é algo muito forte, explico e replico como desculpa para acrescentar mais alguns exemplares às minhas abarrotadas estantes.

Pois, nesta toada da presença dos livros como elemento de iluminação mental e ambiental, deparei-me com uma narrativa que, para mim, foi extremamente significativa.

Gosto muito de uma coleção da Editora Contexto, que traz livros escritos por historiadores ou jornalistas que vivem, ou viveram, em outros países e falam sobre a nação e seu povo. A bola da vez é o livro “Os Argentinos”, do jornalista Ariel Palacios, correspondente de vários veículos nacionais na Argentina e nos países do Cone Sul.

Em uma das passagens, ele narra os efeitos devastadores da crise econômica ocorrida em meados de 2001 e 2002, por conta da qual a classe média portenha foi levada a um estado de miserabilidade jamais visto. A linha de pobreza abrangeu, naqueles anos, 53% da população de nossos vizinhos.

Librería Alberto Casares, em Buenos Aires, frequentada por Borges e Bioy Casares

Librería Alberto Casares, em Buenos Aires, frequentada por Borges e Bioy Casares

A despeito na nossa rivalidade futebolística, por ter convivido muito com os hermanos enquanto ainda vivia no RS, há uma característica admirável da parte deles, em relação à nosso povo pouco lido: estão sempre com um livro na mão. Na praia, é fácil demais reconhecer um argentino. É aquele sujeito que está tostando as córneas com um livro aberto em pleno solaço de verão.

A passagem que Ariel conta e que me tocou profundamente, foi a de um senhor, Francisco Meléndez, especialista em máquinas de impressão gráfica, ex-classe média, que havia perdido absolutamente tudo, tendo se instalado em um improvisado abrigo de plásticos e pedaços de tábuas em plena praça do Congresso de Buenos Aires, esquina da avenida de Mayo com a rua Santiago del Estero.

O jornalista narra que, quando o conheceu, deu-lhe dinheiro e comida. A resposta, que transcrevo literalmente, é o fio que vem trazendo o meu raciocínio faz alguns dias, até que me trouxesse ao teclado:

“Obrigado por isto. Mas poderia me trazer um livro para ler? Assim me sentiria de novo um ser humano”.

 

Paulo Benz (paulobenz@gmail.com; fb.me/paulobenzescritor)

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