Um nordestino em São Paulo

9 de julho de 2010 às 13:35 - 5 Comentários
Por Marcos Silva

Amigos e amigas:

Li o manifesto “São Paulo para os paulistas”. É assustador. Preconceito, preconceito – sabemos para onde o preconceito leva, da Klu-Klux-Klan aos campos de concentração, ovo da anaconda, vontade de destruição.
Nasci em Natal (RN, nordeste, Brasil, planeta Terra), 1950. Vim para São Paulo em 1970. Moro aqui, portanto, há mais tempo que o período que vivi em Natal. Sou nordestino e paulista. Tenho imensa ligação com Natal. Tenho imensa ligação com São Paulo. Não quero abrir mão de uma nem de outra.
Que são Natal e São Paulo, para mim?
1) Duas cidades.
2) Dois universos culturais.
3) Dois mitos de auto-identificação.
Nem Natal nem São Paulo estão prontas ou estiveram ou estarão prontas em algum momento: são fazeres em aberto, com diferenciações internas e gigantescas potencialidades.
Meu ser natalense dialoga com meu ser paulista. Para que exterminar um dos dois?
São Paulo já era uma grande metrópole antes de eu vir morar aqui. Como tal, ela se fez e continua a se fazer com a presença de múltiplas identidades. Por que os judeus, por exemplo, deixariam de ser judeus quando vieram para São Paulo? Por que os mesmos judeus não se tornariam também paulistas, morando aqui?
Discordo do mito de identidades fixas, eternas, imutáveis. As identidades se inventam (e se tornam realidades) a cada momento.
O referido manifesto “São Paulo para os paulistas” é apenas preconceito e desinformação. Ele não consegue enxergar que nordestinos (em seus estados de origem ou em São Paulo) não formam uma unidade, exceto pelo olhar do preconceito: nordestinos são homens, mulheres, idosos, crianças, ricos, pobres, brancos, pretos. Ele não consegue identificar como o mosaico paulista engloba cearenses que se tornam sushimen, nisseis que desfilam em escolas de samba, libaneses que praticam capoeira e poloneses que lutam sumô, comendo virado à paulista e caldeirada. Mais judeus ortodoxos que usam suas roupas específicas no Bom Retiro e em Higienópolis, dentre outros bairros. E mussulmanos que fazem ablações nos banheiros públicos da USP.
A beleza da pluralidade não se coaduna com a estreiteza do preconceito. O esplendor de São Paulo (Volpi, Lasar Segall, Orides Fontela, Teatro Oficina) se confunde com essa beleza. São Paulo não se formou apenas no período colonial. Bandeirantes eram pessoas pobres que matavam índios e escravos fugidos para sobreviverem.
As universidades, os museus, as bibliotecas e outras instituições culturais de São Paulo são Brasil, felizmente – pesquisadores, poetas e atrizes vêm para São Paulo do Brasil inteiro, do mundo inteiro, empregadas domésticas, carregadores e porteiros também.
Gosto muito de viver em São Paulo. Defendo a São Paulo cosmopolita que me formou na idade adulta. Combato a São Paulo excludente que alguns querem formar agora.
Abraços para todos e todas:

5 Comentários

  1. João da Mata
    9 de julho de 2010

    Marcos, um cabra não marcado para morrer e, sim, vicer em Sampa
    São São Paulo meu amor. São Paulo que tb é minha Terra, onde estudei, morei, tive filhos e namorei.
    Minha segunda cidade

    Penso, amigo Marcos, que o que acontece com Sampa é um fenomeno mundial

    É o que acontece com os imigrantes estrangeiros na Europa

    É Barcelona querendo cobrar dos turistas

    Tb sofri discriminação em São Paulo, como estudante nordestino. Venci, vencemos e mostramos que somos capazes. Que construímos Sampa, Brasília, a Amazonia e a alegria

  2. 9 de julho de 2010

    é lamentável que à essa altura do campeonato eu tenha ler linhas hediondas como a de stanley. isso beira ao fascismo, é nojento.

    aqui não, né: como somos (’sudestinos’) bem recebidos no nordeste. eu fico envergonhada.

    belo texto, marcos.

    um beijo.

  3. 9 de julho de 2010

    Nina, só esclarecendo: o Stanley apenas transcreveu os trechos que retirou do tal manifesto e de posts, para todos tomarem conhecimento e gerar a discussão. Eu acompanho o Vi o Mundo e ele tem posições que vão contra tudo o que está escrito no manifesto e nos comentários ao mesmo. Abs.

  4. 9 de julho de 2010

    Depois do comentário de Nina eu voltei ao Vi o Mundo, para checar a referência ao Stanley, e por curiosidade abri os comentários ao manifesto. Só aguentei ler os primeiros. Comecei a engulhar. Muitos ali são fascistas, com alguns neo-nazistas infiltrados, pelo teor dos comentários não há a menor dúvida. São os mesmos que batem em punks, nordestinos e homossexuais. Gente perigosa.

  5. 9 de julho de 2010

    tácito, obrigada pela correção.

    sabe que na minha sala, na unesp, tinha uma imbecil (eufemismo) que se achava neonazista. imagino esses tipos se encontrando com nazistas, lá na alemanha: seriam dos primeiros a minguar: latinos-miscigenados.

    e não adianta, não consigo entender de onde vem esse ódio/ repudio a nordestinos e outras ‘minorias’…

    beijos.

    beijos

    beijos.

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    No bar
    08-02-2012 às 22:17 - 7 Comentários
    Por Jairo Lima

    Chegaste a mim não como lume
    Mas como Pergunta exposta na toalha sobre a mesa
    E com olhos irônicos fitaste o Vazio dos meus olhos
    E nos meus olhos te atiraste como um predador na rota de sua presa

    Na boca um sorriso zombava de futuros e certezas

    E eu te vi.
    Te vi como se vê mares e dunas
    Como coisas que são sem oráculos nem seitas
    Que não se anunciam, nem aguardam, nem ficam, nem se vão:
    Ali estavas de pé em frente aos panos da noite
    E parecia que contigo aquela noite estava feita

    Te vi coxas, riso, ombros e mãos
    Perdidos entre afago e maldição

    Enquanto o sol ainda se esconde tua mão me marca a pele e impõe fronteiras de posse
    Num corpo que já não é mais o meu e se entrelaça no teu e se contorce

    Os lábios se encontram e vão em busca dos vapores quentes da alma
    Se colam, se penetram, se invadem;
    Não são asas de pássaros, são patas de cavalo
    Destruindo colheitas

    Aquela noite só prometia suores
    Conquistados a cada beijo
    Os latifúndios do desejo
    Eram cada vez maiores

    (———–)

    Vim de longe
    Em hora incerta
    Vim de lunas
    Vim de céus perfurados de estrelas
    Vim de amores submersos em dores e desfeitas
    Para que celebrasses a consagração bizarra
    Que faz a carne virar pão
    O sangue virar vinho
    E a cama virar mesa
    Onde a fome dispõe as suas facas
    Para cortar as carnes e sugar a seiva

    (—————–)

    ******

    Tácito, aqui vai um pequeno FAQ para explicar porque voltei a enviar poemas:
    1. Porque JL parou de mandar poemas para o SP?
    Não sei
    2. E porque voltou a envia-los agora.
    Sei lá.

    COMENTÁRIOS

    • Fernando: Nossa, nunca li um artigo tão fraco como esse, nunca vi tantas falácias coligidas em um artigo de um abortista (não nos parece um jornalista, já que demonstra nada ter lido efetivamente sobre o aborto). Vejamo-las: 1) Aborto não é questão de controle populacional: mentira. Basta ver a origem da defesa do aborto nos EUA e basta ver quem financia o aborto ainda hoje. Para quem nada sabe do assunto, estudar a história das fundações Rockefeller, MacArthur e Ford pode ajudar. 2) Aborto é "direito reprodutivo". Direito??? Que absurdo! Além do absurdo, o termo maldosamente forjado para induzir a erro é incoerente: como pode um "direito reprodutivo" tirar uma vida? Ah, tem dúvida se é vida humana? Por favor, dá uma olhadinha aqui: abort67.com.uk 3) Ó loucura... "atendimento de qualidade" e "sem preconceito" do Estado para ajudar uma mulher a matar o próprio filho. Quanto amor, quanta bondade! Quer saber? Chega de ironia, falemos a verdade: que nojo, quanta hipocrisia! Por que não propor educação sexual para valorização da mulher, do corpo, do próprio sexo, ao invés de louvar o sexo irresponsável que gera vida e que deve terminar em assassinato "de qualidade" e "sem preconceito"? Repito, gritando: QUANTA HIPOCRISIA, QUANTA HIPOCRISIA ASSASSINA MENTIROSA travestida de luz. Típico de quem quer fazer o mal. 4) Ah, o velho conceito da luta de classes para transformar o assassinato de bebês em "questão de saúde pública": mulher rica aborta com segurança, mulher pobre aborta e morre. MENTIRA HORROROSA!! Uma simples consulta ao SUS desmistifica essa mentira. O aborto como causa de morte de mulheres está LONGE, MUITO LOOOOOOOOOOONGE de ser questão de saúde pública. Mas é claro que este abortista (jornalista? Não... já não resta dúvida) está mal informado, lendo pesquisas financiadas pelas ONGs abortistas que sabidamente MENTEM para jornalistas divulgando números falsos que eles irresponsavelmente repassam para pressionar a opinião pública. Deem uma olhadinha aqui (é só uma das evidências...): http://boletimfedf.blogspot.com/2011/03/os-controversos-numeros-do-aborto-e.html 5) Como é fácil ter opinião diferente sobre o feto quando você não foi abortado, né japonesinho? Que lindo que soa aos ouvidos menos instruídos "direito sobre o próprio corpo". Que sorte a sua que sua mamãe (e seu papai, coitado! Não o reduza a nada! Ele também quis que você viesse ao mundo... Como você pode tirar dele o direito de amar você?) - que sorte que ela não pensou como você!! Afinal, seu corpinho não era nada, não é? Era uma unha encravada da mamãe, não é? Se você tem dúvida sobre "que corpo" é mutilado, se o da mamãe ou o do bebê, recomendo novamente este videozinho instrutivo: abort67.com.uk 6) Ave, e o que dizer da tese - histérica - de que "religiosos estão se intrometendo na questão!!! O Estado é laico!!" Será que não existe um ateuzinho que não concorde com a matança de bebês? Acho que existem sim. Muitos. Mas é mais fácil ser ignorante (ou maldoso) e criar uma guerra religiosa. Abjeta, como aliás têm sido todos os supostos "argumentos" até aqui para defender a matança de bebês gerados irresponsavelmente. 7) E o autor - que por sinal demonstra ter um elevadíssimo autoconceito, um amor-próprio no mínimo... doentio, para usar um eufemismo - ainda tem o fingimento de se apresentar aos leitores como alguém que está preocupado com a dignidade alheia, quando se acha no direito de decidir quais dos mais novos membros da espécie humana devem ou não viver. Como é triste a cegueira humana! É surpreendente até que ponto alguém ensimesmado consegue perder a noção da realidade! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: É, Alex de Souza... "seus corpos" - abort67.com.uk - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • chico m guedes: coisas de Jairo eu sempre me pego lendo em voz alta; é quase táctil (quase?) - No bar
    • Daniel Menezes: Ótima reflexão. - Yoani Sánchez, a direita e a esquerda
    • Jairo Lima: Brigado, Nina, sou leitor atento e empolgado de tua poesia. - No bar
    • Anchieta Rolim: Marcos Silva, caso tenha interesse dê uma olhada nesse blog: araguaiahistoriaemovimento.blogspot.com Um abraço! - Ai Hay Hai
    • Marcos Silva: Aprendi a sentir Anne como mais que irmã, pedaço de mim, essas coisas que uns e outros consideram sentimentais mas são apenas sentimentos que nos diferenciam dos computadores. Grande beijo. - Ai Hay Hai
    • Anchieta Rolim: Gostei muito da matéria. E pra quem interessar, segue o blog do meu amigo João Carlos Wisnesky que foi um dos guerrilheiros do Araguaia e que ainda continua sua luta para esclarecer esse fato histórico. araguaiahistoriaemovimento.blogspot.com - À sombra da ditadura
    • Nina Rizzi: Gosto muito. E o meu gostar tem a pretensão dos desejos mais pungentes. Um beijo :) - No bar
    • Anne Guimarães: Marcos meu menino... Na vida só a alegria embeleza a alma. Beijocas por estes versos! :) - Ai Hay Hai