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19 de dezembro de 2009 às 9:15 - Envie para o twitter

Um pouco de passado

Por Carlos de Souza

lokiMeus amigos, esta semana ganhei dois presentes de fim de ano, ambos simplesmente sem preço. O primeiro, o documentário sobre Arnaldo Baptista, intitulado Lóki, de Paulo Fontenelle, no Canal Brasil. Eu sei, eu sei, todo mundo já viu no cinema. Mas eu sou um dinossauro que não vai mais ao cinema. Ali eu tracei uma linha imaginária de minha própria existência. Calma, eu nunca experimentei LSD. Digo isso porque, a primeira vez que ouvi falar em Arnaldo Baptista eu era um menino em Areia Branca e cheguei na casa de um amigo certa manhã e o cara estava escutando Panis et Circenses, dos Mutantes. A partir deste dia, nunca mais fui a mesma pessoa. Fiquei ali ouvindo aquele som, aquelas palavras e disse, meu Deus, preciso sair daqui. Era o ano de 1973 e os Mutantes talvez nem existissem mais, não importa. O que interessa é que certas canções, certas sonoridades têm este poder de mudar a gente. Depois ficamos, eu e minha mulher, mudos de emoção, enxugando lágrimas furtivas (que coisa mais Almodóvar) no sofá da sala. A trajetória de Arnaldo é a coisa mais brasileira que eu conheço, tipo Torquato Neto e similares. Pessoas que têm alma de criança, esbarram no sucesso, nas drogas, perdem tudo e ficam sem saber para onde ir. Quando Arnaldo diz que quando acordou depois da tentativa de suicídio, e “estava na casa de minha menina”, o choro rolou solto na sala. Puta merda, como diriam meus amigos da Volta da Tripa em Areia Branca. Tudo bem, a gente segue em frente. Depois de alguns anos, vim para Natal e aqui conheci um camarada chamado Moura Neto que era louco por Arnaldo Baptista e foi ele que me apresentou no toca-fitas de uma velha Variant, numa viagem idílica para Jardim do Seridó, o disco impagável do cara. Sim, era Lóki, e a partir desse dia nunca mais deixei de ouvir o bardo paulistano. Sempre que posso compro algum disco dele. Porém, notei uma falha no documentário. Não falaram do disco Sanguinho Novo, um LP que Arnaldo lançou nos anos 90. Eu tinha, mas perdi. Se alguém tiver aí me arranje uma cópia, por favor. O outro presente foi o documentário intitulado O Sol – Caminhando Contra o Vento, de Tetê Moares e Martha Alencar. Cara, eu nasci em 1959. Então em 1968, pelo amor de Deus, eu só tinha 9 anos, porra. Nunca entendi os versos da canção de Caetano que dizia “o sol nas bancas de revista/ me enche de alegria e preguiça…”. Eu achava que ele estava falando do sol mesmo. Não, ele estava falando do jornal carioca mais influente na onda da contracultura daqueles tempos: O Sol. Pai do Pasquim, Opinião e similares. Quando cheguei em Natal em 1975, uma das grandes alegrias de minha vida era poder ler o Pasquim na casa de um amigo. Eu não podia comprar jornais. Mas eu não sabia da existência de O Sol, desculpem minha burrice. E olha que passei boa parte de minha vida me considerando jornalista… Ora me poupe! Passei pelo curso de Comunicação Social e ninguém, ninguém mesmo, nunca me falou que no Brasil existiu um jornal chamado O Sol e que foi responsável pelo sopro mais legítimo de liberdade de expressão que este país já viu. Se vocês acham que Tribuna do Norte, Jornal de Hoje, Novo Jornal ou o caralho a quatro, é jornalismo, então está na hora de rever algumas coisas na suas vidas, meus caros. Pois bem, terminei a semana com uma idéia na cabeça e um computador apoiado nas pernas. Fazer um conto ou uma novela que começa dizendo assim: “Não tenho nenhum disco de Roberto Carlos em casa, mas tenho quase todos de Erasmo”. Aí começa a história de um assaltante de bancos que fez o curso de Filosofia. Beijos.

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