Escreva, clique aqui. Usuário cadastrado clique aqui.

13 de julho de 2009 às 8:27 - Envie para o twitter

Um romance à rédea solta

Por Nelson Patriota

Uma rara combinação de memória e imaginação urde a tessitura de “A fortaleza dos vencidos” (edições Arx da Saraiva), quarto título ficcional e 16ª obra do poeta e romancista norte-rio-grandense Nei Leandro de Castro, cujo lançamento aconteceu na quinta-feira passada.

A memória domina a maior parte da narrativa, haja vista que esta trata de fatos reais da história política brasileira, na qual age o par de protagonistas formado por Esmeraldino e Marionalda, cujas histórias de vida jamais os deveriam ter aproximado. Quando o destino contraria essa norma – e é o que acontece nessa nova história de Nei Leandro –, o resultado é sempre o mesmo: ódios tempestuosos dão lugar às veleidades sentimentais que violaram a fronteira da lógica das relações humanas.

Alternando capítulos, Nei Leandro vai tecendo uma trama que se revela a cada passo mais e mais complexa, terminando por envolver debaixo de si de meio século de história brasileira e trazendo ao centro do palco atores que protagonizaram acontecimentos capitais dessa história. Em âmbito local, assomam ao proscênio do romance os nomes de Luís Ignacio Maranhão, Djalma Maranhão, Vulpiano Cavalcanti e Câmara Cascudo, entre outros, os quais exercem um papel decisivo junto a Esmeraldino, direcionando-o para a política e a poesia, o que finda por refletir também sobre a história de vida de Marionalda.

E, contrariando um dos corolários da Escola dos Annales, que prega que a história nada ensina, Nei Leandro pinta com tal realismo as sessões de tortura a que Esmeraldino é submetido nas celas do DOI-Codi, no Rio de Janeiro, que voltamos a ter diante de nós esse pesadelo da nossa história recente e toda a gama de acontecimentos odiosos que infelicitaram a vida brasileira desde aquele 1º de abril de triste memória.

Embora a política conduza as linhas subliminares da trama de “A Fortaleza dos vencidos”, ela não exaure seu rico material novelesco. Nele há lugar para idílios amorosos porque, afinal, Esmeraldino é poeta. Mas essa condição infelizmente não garante relacionamentos felizes, como demonstram seus amores com Daisy e Laura, sem falar na execrável Marionalda.

Outras vias do romance se abrem para releituras de acontecimentos marcantes da história potiguar, como os massacres de Cunhaú e Uruaçu, quando o Autor dá voz ao estigmatizado Jacó Rabbi, ouvindo, por assim dizer, sua versão daqueles fatos.

Essa revisão inclui passagens pela vida e martírio de André de Albuquerque Maranhão, pelo massacre do Castelo Keulen, em Natal, e pelo suposto heroísmo do soldado Luís Gonzaga no entrevero de 1935 com os comunistas. O bandido Antônio Baracho, famigerado protagonista da crônica policial natalense dos anos 1960, desfila sob novas roupagens ante os olhos de espanto do leitor…

Para trazer tantos fatos díspares e meio fora do script à sua trama, Nei Leandro se vale de artifício engenhoso, que rivaliza com o que empregou, anos atrás, na transformação do caixeiro-viajante José Araújo em Ojuara: um delírio alcoólico que acomete Marionalda/madame Cibele durante uma tenebrosa chuvarada que se abate sobre Natal.

De repente, a ex-cartomante se encontra no interior da Fortaleza dos Reis Magos e tem diante de si os espectros de Antônio Baracho, do soldado Luís Gonzaga, de Jacó Rabbi, de André de Albuquerque Maranhão, de Zé Limeira Filho e do ex-marido Esmeraldino, os quais a submetem a julgamento pelo crime de traição.

O julgamento é longo e dramático, dividindo as opiniões dos jurados e reiterando opiniões que guardam coerência com suas vidas pregressas. Logo que é proferido o veredicto, e enquanto pouco a pouco a ré torna a si, os mesmos maçaricos que, no início do livro, riscavam o céu da manhã natalense (como o fizeram com igual indiferença na saga dos Cançado, em O dia das moscas), tornam a riscar esse mesmo céu (mas que agora é outro), enquanto a alegoria se recolhe ao lugar que lhe reservou o escritor para quando a concluísse.

Algum tempo transcorrerá até que “A fortaleza dos vencidos” seja assimilada pelos seus leitores. Então será possível dizer se nele Nei Leandro de Castro realizou com engenho e arte o romance-síntese de uma geração.

Os comentários estão fechados.