Um romance premiado de Ronaldo de Brito

12 de outubro de 2009 às 14:58 - Comentar
Por Nelson Patriota

Como o faraó do romance A Pirâmide, de Ismael Kadaré, o patriarca da família Rego Castro, de Galiléia, romance lançado em 2008 pelo cearense Ronaldo Correia de Brito, construiu seu túmulo e agora enfrenta um conflito: não se decide a morrer. Como os habitantes da vila de Comala, do romance Pedro Páramo de Juan Rulfo, os personagens de Galiléia falam com os mortos e sofrem interferências destes em suas vidas. Por essas e outras razões, o romance recebeu o Prêmio São Paulo de Literatura este ano.

Se ainda fizesse sentido falar de regionalismo, não faltaria quem apontasse as virtudes dessa suposta escola literária, embora reconhecendo que o gênero padeceria de limitações, quando comparadas aos seus congêneres não regionalistas. Felizmente esse tipo de discussão se provou estéril e não partimos mais do grau zero da análise sob o pressuposto de uma vantagem ou desvantagem de gênero.

Visto em sua totalidade, Galiléia é um romance ambicioso, na medida em que se fragmenta e se recompõe a cada capítulo, trazendo a cada vez um protagonista à cena, recurso posto em prática por Balzac em larga medida na sua Comédie Humaine. Com meios mais pragmáticos, Ronaldo pratica a recriação balzaquiana no corpo desse seu primeiro romance, após experiências bem-sucedidas em livros como As Noites e os Dias, Faca, Livro dos Homens, em que praticamente exauriu as possibilidades oferecidas pelo conto.

O núcleo narrativo de Galiléia é a viagem que três primos empreendem do Recife a Arneirós, interior do Ceará, para assistirem aos últimos momentos do avô Raimundo Caetano, um velho patriarca que mandou construir seu próprio túmulo e decide deixar de lutar pela vida. Isso não significa, porém, que a morte lhe chegará de imediato. Pelo contrário, há uma certa dissimulação do ancião por trás da sua aparente renúncia à vida, o que retarda sua morte para além das expectativas dos seus familiares.

É nesse cenário de nervos à flor da pele entre os familiares do patriarca que os dramas existenciais de cada um dos personagens de Galiléia começam a despontar. Adonias, o narrador, médico e, portanto, candidato natural à guarda dos últimos momentos do avô Caetano, torna-se como que o ponto de convergência de todas as tensões.

O fato de Ronaldo Correia de Brito ser também médico ajuda a entender a tensão que se opera sobre Adonias. A experiência com o sofrimento humano em suas inúmeras formas é captada e analisada primeiro por ele, fazendo dele o protagonista final que se apossa involuntariamente do papel que caberia ao velho Raimundo Caetano.

Nesse entremeio, o autor encontra espaço para tecer ácidas críticas aos fundamentos do movimento armorial e a seu patriarca Ariano Suassuna, através do personagem “tio Salomão”. Sobre ele, diz Ronaldo, entre outras coisas: “Tio Salomão preenche a falta de sexo com delírios míticos sobre a mistura dos ibéricos, índios e negros, dando origem ao povo do sertão. Julga-se um intérprete da cultura brasileira, porta-voz dos pobres e desvalidos, sem abrir mão de regalias de nobre. Recuei nas investidas que fez sobre mim, tentando converter-me ao seu movimento”.

Quanto à prosa de Ronaldo, cumpre reconhecer que ele consegue um fino equilíbrio entre a chamada norma culta da língua e a linguagem das ruas. Todavia, quando o narrador mergulha dentro de si em reflexões conflitantes, esse equilíbrio é rompido por termos como necrolepsia, peristaltismos, e um que outro similar que soa forçado num contexto rural. São faltas, porém, que não chegam a comprometer a urdidura do romance e seu desenlace em aberto.

De fato, são tão marcantes as experiências vividas por Adonias, persona do autor, a ponto de que sua vida burguesa pregressa, ou seja, a família e o trabalho, se esfumaçam pouco a pouco, deixando o protagonista num vazio existencial absoluto. Falta-lhe disposição para retomar a ordem protocolar do cotidiano, destituída agora de qualquer certeza. O desvario que encerra o romance dá uma boa medida da visão de mundo que Ronaldo Correia de Brito tem da vida, e o que isso representa como matéria romanesca.

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  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: eu faço do meu corpo o que quero foi conquista a greve do ventres vem desde os gregos quem possui o direito sobre o corpo feminino? voce, o estado, o papa, Deus"! todos falharam como inquisidores. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Roberta Aymar: Beleza e Proibição... coisas necessárias e, ao mesmo tempo, contingentes nas curvas dos "Plurais Substantivos"... Eu que agradeço, João. - A Viúva Negra
    • João da Mata: domingo é dia de fazer niente nem tente! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: O inquisidor Um dia ele organizou um livro e não selecionou Outro dia ele foi o júri de concurso de poesia e não entrei nem na menção honrosa. Outro dia eu quis abortar e ele disse não pode mas foi taõ bom!. Não pode! Depois disse que e eu não sou Outra vez disse conheço a lei Sou procurador. Como juiz ele errou Como cristo acho que não voga - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Marcos Silva: Alex: Faltou acrescentar que Maria engravidou sem contato sexual com José por vontade de Deus, não é? Dessacralização do coito, embora Deus deva ter pênis e bolsa escrotal pois Adão foi feito a sua imagem e semelhança, e Eva tenha recebido vagina por obra e graça de Quem a fez. Jesus não engravidou porque não quis. Nem precisaria ser inseminado por outro homem, Ele poderia inseminar-Se, se o quisesse, ou Deus poderia usar o mesmo procedimento ocorrido em relação a Maria. Nada disso se deu, pelo que se sabe e que vc, gentilmente, nos trouxe à lembrança. Quanto a Maria Madalena, nada sei. O conhecimento histórico sobre o tempo dela e de Jesus é muito limitado (alguma coisa a partir de Arqueologia), os Evangelhos são escritos de devoção, não propriamente fontes literais de informação (ou são informação sobre eles mesmos). De qualquer maneira, muito obrigado pelas preciosas informações. Aproveito para lembrar que uma coisa é o Cristianismo ideal (todos filhos de Deus etc.). Outra coisa é o Cristianismo histórico, como Cruzadas e Inquisição bem o demonstraram: ou os hereges não eram filhos de Deus (quer dizer: nem todos o são) ou, se o fossem, mereciam morrer por desagradarem aos representantes do Pai. Até Leonardo Boff, há poucos anos, foi punido pelo órgão que ocupou as funções da Inquisição na Igreja Católica, submetido a "Silêncio obsequioso", não é? E durante o Nazismo, o Vaticano manteve um silêncio nada obsequioso diante do Holocausto... Mas diga-se a favor de alguns membros da Igreja Católica (não do Papado) que muitos deles apoiaram os perseguidos pelo Nazismo e até morreram em campos de concentração, como Claudio Galvão estudou, a partir de um caso específico, no livro "Campo da esperança" (EDUSC). Mas Nietzsche já ensinou: a Morte de Deus não é papo para beira de piscina, é um acontecimento mais que gigantesco. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”