Que fazer se a paloma voou e soprou nos meus ouvidos essa bela poesia abaixo da Adélia Prado? Ofereço-a para todas nós. É verdade que hoje não amanheci mais mulher, mas nesta tarde de um torpor caloroso, penso o que seria de mim se não vivesse mulher. Apesar disto, ser macho ou fêmea não é o dominante. Nem mesmo discutir ser o alfa ou não tem importância. O importante é que aceitem-me ser. Independente do que seja. Sou e preciso ser alguém sem mais ou menos. Se ser mulher na prática implica ser mais difícil, então aceito esse fardo que não me dói. Já venci por ter nascido. Venci novamente por ter vingado em meio cada vez mais hostil ao humano. Quando adolescente, sobrevivi às confusões existenciais. Quando adulta, sustentei família e fiz instrução com coturno molhado. Diante disto, não negarei a identidade. Sou prêmio de mim. Permanecerei assim amanhecendo…
COM LICENÇA POÉTICA
Adélia Prado
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
(dor não é amargura).
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.