Um tufão chamado Nina Rizzi

19 de março de 2010 às 8:48 - Comentar
Por Nelson Patriota

Nina Rizzi visitou Natal no fim da semana passada. Blogueira, militante de movimento reformista do campo, poetisa, Nina Rizzi andou pelo velho Centro, visitou o Sebo Vermelho, conheceu o Beco da Lama com seu corredor de bares repletos de boêmios, bebeu e proseou com um grupo de admiradores hipnotizados pela sua gama de adereços sedutores: juventude, espontaneidade, beleza, talento e uma isenção edênica para pecar sem pecar porque tem certeza de que esta é a sua estação e não está disposta a desperdiçá-la.

Moacy Cirne, Jarbas Martins, Abimael Silva, Francisco Sobreira, Nei Leandro, Inácio Magalhães… Todos se sentiram de repente mais joviais, mais vivos, mais recompensados das cobranças da vida, após a visita de Nina Rizzi. É bem verdade que foi uma visita meteórica (precisaria amanhecer em Fortaleza na segunda-feira), mas deixou impressões duradouras, como a sugerir que a beleza caminha sob pés alados (Diana) e é tão indescritível como a Helena disputada por gregos e troianos.

De nossa parte, confessamos com pesar que faltamos aos locais por onde transitou a sedutora Nina (nome é destino, então, e esse parece ser o das Ninas). Em compensação, ela nos deixou um exemplar do livro no qual verseja ao lado de outras iguais. Trata-se de Dedo de moça uma antologia das escritoras suicidas ― desde já o agradecemos ­― que, felizmente, é mesmo o que parece: uma rica metáfora poética de autoras, aliás, bem vivas.

Nina Rizzi aí é descrita, nos créditos finais, como “historiadora, escritora e militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST)”. Outra informação importante: Nina Rizzi é “sem raízes, vive atualmente em Fortaleza [...] edita o blog Ellenismos e escreve no Putas Resolutas. [ ninarizzi@gmail.com]”.

Meditemos nesta informação biográfica dada em boa hora pelo anônimo resenhista do livro: Nina Rizzi é “sem raízes”. Terá isso algo a ver com o fato de a poetisa vasculhar os campos, de quando em vez, junto com bandos de outros desenraizados? Ou se trataria de outra semântica, lapso de polissemia que escapou a quem escreveu? As origens italianas que o sobrenome denuncia talvez pesem para o seu atual (queremos crer, provisório) desenraizamento…

Esse dubitativo conflito botânico, aliás, comparece às primeiras linhas do seu poema “A valise” (antologizado em Dedo de moça: “se, esquerdatária, vivo tanto seca/ posso vender qualquer coisa/ pra que não sucumba, oh dona de adversidades.// uma faca de passar manteiga/ ― a espessa gordura que me cobre,/ me serve de chave, burra, nos pulsos.// se vivo de (me) ver-dura,/ quedo horrorizada ante as carnes mortas.// é nos entretantos, os mais sutis, que me escamo-teio”.

Visto assim de relance o poema, salta aos olhos que as palavras não chegam para o tanto que Nina (Rizzi) tem a dizer. Como se decidir por um único sentido, ante palavras-valise como esquerdatária, seca, ver-dura, gordura, escamo-teio, nessa poética de múltiplos dizeres?

Dedo de moça prossegue a luta de Nina Rizzi em outras trincheiras. Uma delas é nitidamente aquela que em nossos tempos se esforça para consumar a compatibilização entre sexo e gênero, em suas variadas e criativas possibilidades. Aí se destacam sobretudo os poemas ligeiros e precisos de Adelaide de Julinho (parente de um certo e caviloso Julinho de Adelaide). Outra questão lida com o tópico nunca resolvida sobre uma possível escrita de sexo feminino.

Cremos que essa seja uma questão atualmente esquecida das discussões de gênero, talvez devido às inúmeras dificuldades que surgem quando se tenta sexualizar a gramática e a semântica, razão pela qual os estudiosos da linguagem tradicionalmente a têm evitado.

As escritoras suicidas, tendo à frente a militante Nina Rizzi, tornaram-se agora uma referência poética entre nós. Com novos motivos na praça, não é exagero se afirmar que a poesia anda por aí de cara nova…

Comentários fechados.

AGENDA

  • Pinacoteca está com Edital aberto para ocupação das Salas de Exposições

    Artistas plásticos e visuais ainda podem se inscrever no Edital de Ocupação das Salas de Exposição da Pinacoteca Potiguar para todo o ano de 2012.

    mais informações »

  • Rede Cinemark exibe direto de Londres a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House

    Espetáculos serão transmitidos em mais de 30 complexos espalhados pelo Brasil, sendo dois ao vivo. Natal-RN participa da programação e os ingressos já estão à venda

    A Rede Cinemark traz para o Brasil, com exclusividade, a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House (ROH), de Londres, a partir do dia 25 de fevereiro.

    mais informações »

  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

    aqui

  • OUTROS EVENTOS

POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Jarbas Martins: Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente