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Um tweet com mais de 140 caracteres

Por @jotamombaca_

Achei bonito à beça quando vi nascer, mais cedo hoje (03/11), no twitter, de forma quase espontânea – com o empurrãozinho de @Quiteriakelly -, o movimento para o #baixodenatal, uma potência de contracultura que parece abranger muito mais do que a rixa de quase todos os artistas da cidade com a Capitania das Artes, mas também uma pulsão subversiva, de contra-mola, de canção para segurar a primavera entre os dentes.

Enchi o peito de esperança e de beleza, fui arrebatado pela força da idéia e confesso que me senti feliz por ser artista aqui e agora. Depois de passada a turbulência do nascimento da idéia, pus-me a pensar (quase) racionalmente na idéia e surgiram-me coisas a dizer. Para isso, estou reunindo estas palavras minhas e direcionando-as a todos os que pretendem engrossar este caldo subversivo, como forma de contribuir com o movimento e de fomentar esta iniciativa tão cara, tão linda, tão arretada, que nos há de alimentar mais a alma que a pança nestes tempos (novos) que virão. Seguem-se a este parágrafo as tais coisas a dizer que tenho.

Para começo de conversa, penso na necessidade de criar circuitos. Ou seja, fazer do #baixodenatal mais que o evento teatral baseado na Ópera-coco de @bucadantas, abrindo-o para outros eventos que possam surgir, eventos que abranjam várias linguagens e que criem um trânsito de públicos pela cidade, fortalecendo a noção de movimento e criando circuitos de encontros que podem vir a proporcionar novos eventos espontâneos e mais: a constituição de uma nova pragmática mesmo, de uma forma diferente de ir-e-vir e de ser-e-estar. Criar estes circuitos para interferir nos circuitos pré-estabelecidos do cotidiano, para começar este processo político de colocar-se para o mundo, para o tempo, para as pessoas e para nós mesmos no espelho.

Gosto da idéia de, além dos eventos institucionais (possíveis mostras artísticas, a apresentação de um espetáculo em contraponto ao Auto de Natal), encorajar os artistas afeitos à intervenção urbana a ganhar as ruas neste período, com suas instalações, grafites, poemas visuais, etc e tal, para, deste modo, modificar os espaços e a forma de receber os espaços dos passantes, dos viventes urbanos. Não adianta manter uma potência como esta enclausurada nas velhas instituições (galerias, teatros, meio artístico), o caso é de encher os corações e as praças com nosso material simbólico, com nossa força criativa, com nossas pulsões artísticas. Quero reforçar também a natureza totalmente democrática do #baixodenatal, que é mais que uma obra estática, ou mesmo que um protesto (que como disse @Quitériakelly no twitter pode ser algo pontual), é um movimento sem dono, que começa agora uma trajetória que pode nos levar às redenções que buscamos.

O bonito é que isso nasce do nosso principal processo de identificação, que é a arte, e por isso mesmo é, antes de político, um movimento artístico com desdobramentos políticos que devem ser considerados também. Para pôr fim a este artigo, digo que, mesmo que alguns não se dêem conta disso, o #baixodenatal já está acontecendo agora, mesmo que não queiram, mesmo que queiram guardá-lo para quando o carnaval chegar. É assim que funcionam as coisas na web, oras… É assim que funcionam as coisas na contemporaneidade. As coisas existem por si só depois de lançadas ao mundo, anarquicamente, sem ícones, sem líderes… O #baixodenatal é uma potência-cachorro-louco de contracultura na nossa cidadela, seus desdobramentos já começaram: vejam meu peito pulando!

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Tácito Costa

Comentários

5 comments

  1. Titina 4 novembro, 2010 at 11:32

    Desde muito tempo que uma minoria da classe teatral da cidade se coloca contra os autos de Natal, o problema é que tem alguns que só se colocam contra quando não são chamados ou quando não estão fazendo parte. Isso é o que acontece de fato. Muitos que se colocam contra os autos hoje foram diretores ou assistentes no auto até ano passado. Me parecem contraditórias essas colocações.

  2. Simona Talma 4 novembro, 2010 at 15:52

    Ti leia a matéria do NATAL AÇÃO pra entender, não tem ninguém se colocando contra não.. É muito melhor que isso, mas se estivesse era legítimo tb. Nós fazemos muitas vezes pra trabalhar com certo diretor, por dinheiro, pra tentar fazer melhor. Eu adorei participar de todos! Não nego! Mas pq eu gostei de trabalhar vou ignorar os problemas que existem em relação a esses eventos? Vou deixar de contestar? Acho que não, mas não é o caso.

    http://natalacao.com/?p=10961

  3. Henrique 4 novembro, 2010 at 19:37

    Concordo Simona. Acredito que o que nasceu ontem no twitter e parabens Jota pelo belo texto, muito bem colocado, nasceu por indignação, inclusive de ver companheiros que, ano passado deram a cara ‘a tapa, protestando e tentando lutar por direitos em busca de respeito e de uma possivel visao profissional, este ano, os mesmos, buscaram de novo o auto. Não porque se esqueçam dos desrespeitos vividos, mas porque como Simona colocou, estão buscando de alguma forma fazer diferente, trabalhar com artistas que admiram, querendo gahar algum dinheiro para sobreviver os meses de janeiro,fevereiro e março, tao dificeis para artistas nesta cidade.
    No entanto, o fato aconteceu. Já nasceu o #baixodeNatal e já começa a se constituir não como um protesto contra autos, mas para que os que desejarem, um lugar para fazer um ATO de Natal, com o que têm de mais forte a mostrar das suas artes.
    Viva este desejo! Viva a possibilidade da Arte! Evoé!

  4. Aurélia Tâmisa 4 novembro, 2010 at 22:18

    Perfeito Titina! O sujo falando do mal lavado e a cidade como cenário dessa pobreza de espírito.

  5. Alex de Souza 4 novembro, 2010 at 23:22

    Vou repetir aqui comentário que fiz no twitter, mas com mais caracteres de folga para melhores explicações. Acho interessante a existência de um movimento artístico para criar alternativas ao Auto de Natal. É um evento que tem seus adeptos e defensores mas que soa ofensivo e pornográfico para os artistas da cidade se compararmos a verba alocada para o Auto com os investimentos diretos da prefeitura com cultura. Só acho a escolha do nome para o movimento, ‘Baixo de Natal’, um horror. Há que se perdoar a verve iconoclasta dos artistas natalenses (eu mesmo me valho dessa verve aqui, acolá e alhures), mas a escolha soa como revanchismo bobo (foram essas as palavras que usei no microblog).

    Como bem frisou Quitéria Kelly, a iniciativa não tem nada de revanchista. E acredito nisso, dadas as pessoas que estão à frente da história. Mas aí é que está a questão: não é, mas parece – por causa do nome. E isso é péssimo. Primeiro, mas menos importante, porque alimenta animosidades com a prefeitura, onde o povo já vive pisando em ovos. Depois, porque uma parcela significativa da população que acompanha o evento há quase uma década gosta do auto, e pode antipatizar a iniciativa. E, por último, mas como consequência do primeiro motivo, afasta o empresariado e possíveis patrocinadores. Se já é difícil arrancar apoio dessa ‘gente da terra da gente’, imagine aí se alguém vai querer comprar uma ‘briga’ com a prefeitura…

    No mais, quero mesmo é que a bagaça dê certo. Podem contar comigo na platéia.

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