Uma antologia da epopeia do sertão

27 de agosto de 2009 às 9:54 - Comentar
Por Nelson Patriota

Fiel ao espírito sistematizador do seu tempo, o poeta Carlos Newton Júnior não resistiu à tentação de se aventurar nos meandros da tradição literária para dela extrair uma síntese. O resultado é uma antologia. Seu nome é O Cangaço na poesia brasileira (Escrituras, SP: 2009).          Não custa lembrar que esse pernambucano, que lecionou por vários anos na UFRN e deixou contribuições à poesia norte-rio-grandense é, antes de tudo, um pesquisador da cultura nordestina, sobretudo nas questões ligadas à poesia popular e ao movimento armorial. Por isso, cotejar poesia popular e poesia culta (ou erudita, como ele prefere) no terreno daquilo que ele denomina de “epopeia do sertão”, seria uma motivação difícil de resistir por muito tempo. Mas talvez o tenha surpreendido no percurso a quantidade dos poetas “eruditos” que se deixaram atrair pelo drama do cangaço, embora com resultados irregulares. Aliás, essa parece ser uma fatalidade da poesia: todos os temas parecem estar abertos a todos os poetas, mas, de fato, poucos o estão, ao menos para a grande maioria deles. Quando esse limite não é respeitado, o resultado é poesia irregular, geralmente inferior à que o poeta produz quando trata de seus temas próprios.

Como era de esperar, a figura de Virgulino Ferreira, o Lampião, preside o cangaço, em torno do qual, direta ou indiretamente, gravitam os 35 poetas coletados, dos quais quatro norte-rio-grandenses: Dorian Gray Caldas, Márcio de Lima Dantas, Newton Navarro e Homero Homem.

É uma participação seguramente modesta, não obstante ter sucedido em solo potiguar o ataque de Lampião e seu bando a Mossoró, seguramente um dos episódios mais dramáticos dessa saga. A centralidade dessa página é, aliás, sublinhada pelo próprio autor, no curto ensaio intitulado “O cangaço na poesia brasileira”, que escreveu a título de apresentação.

Uma provável explicação para a singela participação, na obra, de poetas potiguares e, especificamente, do tratamento poético do tema do ataque a Mossoró seria a pressa natural que aflige todo antologista, o que costuma se traduzir em omissões e lacunas. A alternativa seria simplesmente admitir que, embora de grande apelo poético, a grande maioria dos poetas potiguares passou ao largo do episódio.

Quanto àqueles poetas que ouviram os ecos da contenda, assinalamos, entre os antologiados, o nome de Dorian Gray Caldas, no poema O ataque de Lampião a Mossoró, e o de Homero Homem, em Conversa de cangaceiros a cavalo no dia em que atacaram Mossoró.

A controversa figura de Lampião não poderia aparece unânime na antologia. De fato, se, em alguns poemas, é transfigurado como um herói nietzschiano, situado acima do bem e do mal, como no inspirado poema “Um capitão chamado Virgulino”, do cearense Francisco Carvalho, o pernambucano Carlos Pena Filho, em seu poema “Episódio sinistro de Virgulino Ferreira” evita incensar os feitos do temido cangaceiro, preferindo retratá-lo como um personagem fadado a cumprir um destino trágico. Esta, portanto, é uma vertente oposta àquela praticada por um Leandro Gomes de Barros, João Martins de Athayde, Francisco das Chagas Batista, entre outros mestres do cordel cujas produções costumeiramente abstraem os malefícios do cangaço para palmilhar o caminho que conduz seus protagonistas ao Parnaso.

Na rubrica das curiosidades da antologia, o soneto de Alexei Bueno, explicando porque recusou o convite do autor para escrever sobre o cangaço, é digno de registro (ao menos em parte). O poeta carioca argumenta: “Para entrar, Carlos Newton, nesta obra/ só pela negação. Posso eu, um reles/ ser urbano e livresco falar deles?/ [...]”.

No mais, poemas de Ariano Suassuna, Walmir Ayala, João Cabral de Melo Neto, Ascenso Ferreira, Sérgio de Castro Pinto, Jorge de Lima, Marcus Accioly, Murilo Mendes, Virgílio Maia e do próprio antologista, entre outros.

Às vezes é preciso apontar o óbvio, que passa despercebido justamente por ser demasiadamente visível. Um dos méritos da antologia de Carlos Newton Júnior reside nisso: mostrar que a grande poesia brasileira também ouviu o apelo dramático-poético do cangaço e nele encontrou motivos para enquadrá-lo sob metro e rima, em alguns casos, à altura de suas melhores realizações.

Comentários fechados.

AGENDA

  • Pinacoteca está com Edital aberto para ocupação das Salas de Exposições

    Artistas plásticos e visuais ainda podem se inscrever no Edital de Ocupação das Salas de Exposição da Pinacoteca Potiguar para todo o ano de 2012.

    mais informações »

  • Rede Cinemark exibe direto de Londres a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House

    Espetáculos serão transmitidos em mais de 30 complexos espalhados pelo Brasil, sendo dois ao vivo. Natal-RN participa da programação e os ingressos já estão à venda

    A Rede Cinemark traz para o Brasil, com exclusividade, a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House (ROH), de Londres, a partir do dia 25 de fevereiro.

    mais informações »

  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

    aqui

  • OUTROS EVENTOS

POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: eu faço do meu corpo o que quero foi conquista a greve do ventres vem desde os gregos quem possui o direito sobre o corpo feminino? voce, o estado, o papa, Deus"! todos falharam como inquisidores. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Roberta Aymar: Beleza e Proibição... coisas necessárias e, ao mesmo tempo, contingentes nas curvas dos "Plurais Substantivos"... Eu que agradeço, João. - A Viúva Negra
    • João da Mata: domingo é dia de fazer niente nem tente! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: O inquisidor Um dia ele organizou um livro e não selecionou Outro dia ele foi o júri de concurso de poesia e não entrei nem na menção honrosa. Outro dia eu quis abortar e ele disse não pode mas foi taõ bom!. Não pode! Depois disse que e eu não sou Outra vez disse conheço a lei Sou procurador. Como juiz ele errou Como cristo acho que não voga - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Marcos Silva: Alex: Faltou acrescentar que Maria engravidou sem contato sexual com José por vontade de Deus, não é? Dessacralização do coito, embora Deus deva ter pênis e bolsa escrotal pois Adão foi feito a sua imagem e semelhança, e Eva tenha recebido vagina por obra e graça de Quem a fez. Jesus não engravidou porque não quis. Nem precisaria ser inseminado por outro homem, Ele poderia inseminar-Se, se o quisesse, ou Deus poderia usar o mesmo procedimento ocorrido em relação a Maria. Nada disso se deu, pelo que se sabe e que vc, gentilmente, nos trouxe à lembrança. Quanto a Maria Madalena, nada sei. O conhecimento histórico sobre o tempo dela e de Jesus é muito limitado (alguma coisa a partir de Arqueologia), os Evangelhos são escritos de devoção, não propriamente fontes literais de informação (ou são informação sobre eles mesmos). De qualquer maneira, muito obrigado pelas preciosas informações. Aproveito para lembrar que uma coisa é o Cristianismo ideal (todos filhos de Deus etc.). Outra coisa é o Cristianismo histórico, como Cruzadas e Inquisição bem o demonstraram: ou os hereges não eram filhos de Deus (quer dizer: nem todos o são) ou, se o fossem, mereciam morrer por desagradarem aos representantes do Pai. Até Leonardo Boff, há poucos anos, foi punido pelo órgão que ocupou as funções da Inquisição na Igreja Católica, submetido a "Silêncio obsequioso", não é? E durante o Nazismo, o Vaticano manteve um silêncio nada obsequioso diante do Holocausto... Mas diga-se a favor de alguns membros da Igreja Católica (não do Papado) que muitos deles apoiaram os perseguidos pelo Nazismo e até morreram em campos de concentração, como Claudio Galvão estudou, a partir de um caso específico, no livro "Campo da esperança" (EDUSC). Mas Nietzsche já ensinou: a Morte de Deus não é papo para beira de piscina, é um acontecimento mais que gigantesco. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”