Uma aula diferente

Andreia Braz
LiteraturaMais

Quando convidada pela professora Margareth Pereira Dias para um bate-papo sobre a crônica, passada aquela alegria inicial pela possibilidade de falar de um assunto que me é tão caro, surgiu uma grande questão: por onde começar? Sim, por onde começar?

Afinal, falar de um gênero cujos mestres são ninguém menos que Machado de Assis, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, não deve ser tarefa simples, pensei. Passados alguns dias, elaborei um roteiro para nortear minha fala e sistematizar melhor as informações que gostaria de partilhar com os alunos do 8º período da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Escola Estadual Djalma Aranha Marinho, localizada no bairro Pitimbu, zona sul de Natal.

Na elaboração da atividade, priorizei a importância da crônica para a literatura brasileira, abordando também um pouco do trabalho dos nossos principais cronistas, especialmente os cronistas do Rio Grande do Norte. Entre outros nomes, destacamos: Câmara Cascudo, Edgar Barbosa, Luís Carlos Guimarães, Berilo Wanderley, Newton Navarro, Zila Mamede, Vicente Serejo, Sanderson Negreiros, Woden Madruga.

Após essa explanação inicial, intercalada com perguntas e observações dos alunos e da professora Margareth, li uma crônica de Zila Mamede intitulada “O menino da autolotação”, a qual foi publicada no jornal Tribuna do Norte, em 1952. Além disso, abordei a importância de Zila como poeta, bibliotecária e falei um pouco de sua amizade com grandes intelectuais brasileiros, como Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, e a troca de correspondência com esses escritores, a qual está registrada em livros.

Quando falei do concurso literário Cartas para Zila Mamede, idealizado pela poeta Marize Castro (Editora da UFRN), em 2015, como forma de homenagear os 30 anos da partida da nossa querida bibliotecária, um dos alunos, Anderson, disse ter assistido a um documentário exibido pela televisão sobre Zila Mamede. Falei que eu também havia assistido, dois ou três anos atrás, a um programa em que Zila aparecia ao vivo. Isso me permitiu ouvir sua voz pela primeira vez, pois até então eu só a conhecia por fotografias. Foi uma grata surpresa assistir, também nesse filme, parte de sua entrevista no Programa Memória Viva, programa da TV Universitária apresentado pelo jornalista e escritor Tarcísio Gurgel. Ouvi-la recitar seu famoso poema “Mar Morto” foi outro momento de êxtase.

Dando prosseguimento ao evento, falei rapidamente sobre o trabalho de outros cronistas do RN, como Berilo Wanderley, Newton Navarro, Luís Carlos Guimarães, observando que todos têm em comum a preocupação com a linguagem elegante e poética, e um senso de observação apurado para os pequenos acontecimentos do dia a dia, deles extraindo histórias saborosas sob a forma da crônica.

Sobre os cronistas contemporâneos, mencionei que Woden Madruga, do jornal Tribuna do Norte, continua imbatível quando se trata de fazer uma crítica sutil e ácida, ao mesmo tempo. Com estilo único, Woden escreve na imprensa potiguar desde os anos 1950, década em que foi inaugurado o jornal Tribuna do Norte, no qual ele é colunista.

Depois dessa explanação, ainda li um trecho de um outro texto, para mostrar o estilo de um escritor contemporâneo. Dessa vez, um trecho da crônica “O sentido da vida”, de Martha Medeiros. Na ocasião, citei outros cronistas modernos, tais como Rubem Alves, Lya Luft, Fabrício Carpinejar.

E o que posso dizer dessa experiência? Posso dizer que aquele nosso bate-papo sobre crônica foi muito mais que uma aula extra para os alunos de Margareth. Aquela nossa conversa foi, acima de tudo, um momento de grande emoção e aprendizado. Sim, porque muito mais importante do que falar sobre os maiores cronistas brasileiros, teorizar sobre a importância desse gênero, citar trechos de crônicas famosas etc., foi escutar o que os alunos tinham a dizer, conhecer um pouco da história de cada um deles. A riqueza de seus depoimentos foi o ponto alto do nosso evento, e é exatamente por isso que estou a escrever, na tentativa de registrar/eternizar um pouco do que ficou em mim após uma noite de encantamento com a literatura.

Dentre as histórias da noite, destaco duas. Andreza, 25 anos, afastada da escola há algum tempo porque foi mãe na adolescência, voltou a estudar este ano e está muito confiante no seu futuro, especialmente com a possibilidade de cursar uma faculdade. Ela começou a estudar por influência de sua patroa, que “exigiu” que voltasse à escola no início do ano. Andreza pretende ser um exemplo para as filhas Luana e Laura (oito e dez anos). Eduardo, outro aluno que partilhou conosco a alegria de ter voltado aos bancos escolares, relatou a alegria de ter conseguido um emprego de carteira assinada e, especialmente, ter tirado a carteira de motorista, após a volta à escola.

Rememorando essa noite tão especial, e feliz por ter aprendido tantas coisas importantes, cheguei a uma conclusão: quando se está numa situação difícil, tudo o que uma pessoa mais precisa, para mudar essa realidade, é de alguém que chegue com uma palavra e/ou uma atitude positiva, que demonstre acreditar no seu potencial e a faça crer que pode mudar aquela realidade. E foi exatamente isso que fez a professora Margareth, ao propor essa atividade em que seus alunos podem se (re)descobrir através da leitura. Para eles, deixo meu afeto e gratidão e, sobretudo, meu desejo de sucesso. E assim como cantou o eterno Gonzaguinha, lhes digo: “Não se desespere não, nem pare de sonhar / Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs… / Fé na vida / Fé no homem, fé no que virá!”. Afinal, “somos nós que fazemos a vida / como der, ou puder, ou quiser”.

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Andreia Braz

Comentários

2 comments

  1. Ana Cláudia Trigueiro
    Ana Cláudia 15 setembro, 2017 at 21:52

    Nossa, que experiência gratificante! Mais alunos da rede de ensino precisam conhecer o seu trabalho, amiga! Vc que é cronista das boas e está se revelando também uma divulgadora dos grande nomes da literatura potiguar. Parabéns!

  2. José de Castro 15 setembro, 2017 at 23:36

    Gostei do jeito que você conduziu a “aula”. Muito bom… Imagino a sua alegria em poder falar de tantos autores tão significativos dentro do gênero. Imagino que a maior dificuldade é o tempo muito escasso para se abordar um tema tão rico. Penso que você deve ter ficado pensando que deixou de falar muita coisa que queria, mas que não foi possível… Mas é sempre assim… Por outro lado isso é bom, porque a professora deles poderá te convidar de novo para ampliar um pouco mais o seu discurso e aprofundar um pouco mais sobre a crônica, esse gênero tão fascinante… Parabéns, amiga… Grande abraço…

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