Uma autobiografia sobre impermanências, ciência do concreto e subjetividades

Sheyla Azevedo
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Conheci, pessoalmente, professor Edgard de Assis Carvalho há pouco tempo.

Ele tinha vindo passar mais uma de suas boas estadas por Natal, onde é seu segundo lugar, durante parte do ano, quando sai dos seus domínios da PUC de São Paulo, onde é professor titular, e vem para cá dar aulas para os alunos do Grupo de Estudos da Complexidade (Grecom). Ele estava oferecendo uma série de palestras no Setor II, da UFRN, creio que para o mestrado e doutorado do curso de Ciências Sociais e eu estava lá por conta de um freela. A primeira impressão que ele passa é que estamos diante de um homem sabido, no bom sentido da palavra.

Um homem do mundo, nascido numa grande metrópole, mas que guarda certa semelhança com aqueles senhores do mato, que têm intimidade com saberes que nós nem sabemos que existia e, no entanto, quando estamos diante deles, do jeito como falam e explicam, é como se os saberes fossem sendo descobertos também dentro de nós. Seria uma espécie de erudição empírica. Daquelas que só acontecem quando se vive bem e intensamente. Aptos às dores e às delícias de viver.

Há poucos dias ele me pediu para ler sua autobiografia “não linear” Conexões da Vida – Uma Antropologia da Experiência (Editora Uma), que será lançado nesse sábado, 12 de agosto, no Restaurante Flor de Sálvia, na Avenida Afonso Pena, 507, em Petrópolis, a partir das 19h. Após a leitura e a observar as ilustrações botânicas contidas no livro, de Carl Ludwig Blume, reafirmei minhas primeiras impressões, senti como se tivesse diante de um semeador de histórias.

O livro tem uma trajetória que começa a partir dos anos 1950 até agora, anos 20 do século XXI. É um imenso jardim que foi semeado em seus diários da vida toda, das inúmeras conversas com seu psicanalista (ele faz análise há 35 anos), dos inúmeros amores, casos, noitadas, orgias, bebedeiras, do que viu, ouviu e aprendeu com gente como Sartre, Simone de Beauvoir, Che, Darcy Ribeiro, Edgar Morin, Roland Barthes, Ruth Cardoso (que fez parte da banca examinadora de seu doutorado), dos dez anos transcorridos até ele realmente conseguir se formar, tendo iniciado várias vezes o curso de Ciências Sociais – partido para Psicologia – depois voltado para Ciências Sociais; das relações profissionais com muita gente que a gente só conhece nos livros e de pessoas que às vezes ele só apresenta com o primeiro nome, ou até mesmo com codinomes, como é o caso do “doutor Jacarandá”, com quem ele teve um romance e em determinado período se considera um “garoto de programa”, já que não trabalhava e era sustentado por ele.

Conexões da Vida, difere do outro livro Virado do Avesso, escrito logo após um trágico acidente que ele sofreu em 2004, nas palavras do próprio Edgard porque é um pretexto para falar de suas subjetividades e entrelaçar com a vida acadêmica, a Universidade, os dissabores e a fragmentação. “Finalmente consegui entrelaçar vida e ideias, essa sábia recomendação de Edgar Morin, que carrego comigo como um talismã”, disse ele a mim, por e-mail.

O livro é permeado de “punctums”. Desde quando ainda muito jovem ele desiste de tocar acordeon – e era exímio músico – em parte motivada por uma relação nunca amistosa com o pai alcoolista, que empobreceu a família antes de deixar a mãe viúva; passando pela prisão durante a Ditadura militar, o julgamento, a decepção com os colegas que entregavam os outros, e se negavam a ajuda-lo na ocasião. Outro momento marcante é a morte de seu companheiro, vitimado em 1986 pelas agruras do vírus da AIDS, naquela época sob o manto do preconceito cruel contra os homossexuais.

“Quatro fuscas preto-abóbora entraram pelos corredores e conseguiram me pegar na saída do prédio, em plena Avenida Paulista. Olheiros da repressão estavam de campana numa agência dos correios, em frente ao extinto cine Astor, à espera do depósito do Resistência (um jornal universitário). Era eu o emissário” (p.77 do livro).

O episódio, óbvio, foi traumático. Mas, caminhante pelos meandros do inconsciente e pelas diversas possibilidades de elaboração e ressignificação da própria vida, Edgard acredita que não fosse aquele episódio, talvez não tivesse sentido vontade de passar um tempo na França, onde fez seu pós-doc, talvez não tivesse conhecido Edgar Morin, o “pai da Complexidade”, talvez não fosse quem é agora.

Falando tão abertamente sobre temas que ainda são considerados tabus, Edgard de Assis Carvalho sabe o preço que pagou para sustentar suas verdades. E disse que sua reputação foi consolidada a duras penas. “Não foi fácil bater de frente na fragmentação, imaginar uma Universidade polifônica, aberta a fluxos desejantes”, diz, acrescentando que dedica o livro a todos os seus amores, aqueles que já se foram, aos do presente e aos que ainda virão.

“No quarto capítulo, Ardores, há uma epígrafe do Philip Roth que sintetiza a pulsão que tomou conta de mim na escritura. Depois dos cinquenta – ele afirma – precisamos encontrar meios de tornar visíveis a nós mesmos. Foi exatamente isso que fiz. Não se trata de uma urgência, mas de uma necessidade que brota do fundo da alma. Como a memória é sempre lacunar, quando releio o texto, percebo que deixei de registrar fatos. Mas o essencial está lá”, me disse.

Bom, o essencial e indispensável para uma boa leitura.

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Sheyla Azevedo

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