Uma campanha presidencial radicalizada? Por que?

28 de julho de 2010 às 10:22 - Comentar

Por Bolívar Lamounier
Portal Exame

O que mais se ouve é que a campanha presidencial está radicalizada, tensa, agressiva. Estará mesmo? A questão é um pouco subjetiva, mas admitamos que sim. A campanha está radicalizada.

A que se deve isso? Talvez à personalidade dos dois principais contendores. José Serra e Dilma Roussef não são políticos tradicionais, se por esta expressão entendermos aquele político que nunca diz as coisas de maneira simples e direta. Aqueles que se empenham em aproximar as partes e conciliar interesses, quaisquer que sejam as partes e os interesses. Michel Temer, o vice da Dilma, é desse tipo. No limite, o político super-tradicional adora jogar conversa fora, dar e receber tapinhas nas costas, comparecer a não sei quantos batizados, aniversários e velórios etc. Para ele, o tempo é elástico, senão infinito. Serra e Dilma são o oposto disso.

Por mais que difiram – e diferem muito -, sua formação é de outro tipo. São gregários só no limite do necessário e concebem o tempo como um bem extremamente escasso. Imagine então o leitor como os dois se sentem e se comportam num momento como este : na condição de candidatos à presidência da República. Minha aposta é que se sentem limitados, que gostariam de dizer mais, e de maneira mais contundente . Querem advertir contra diversos riscos que ao ver deles o país está correndo, e contra oportunidades que não podem ser perdidas. Projetemos então tais sentimentos no mundo público, nesse mundo de comunicação quase instantânea de todos com todos em que vivemos. O mundo da TV e do rádio, mundo em que a fantasia predomina por larga margem, e atualmente muito mais regulamentado e acomodado num figurino de cordialidade do que aquele de cinqüenta anos atrás (remember Lacerda, Brizola e outros). O contraste é inevitável. A disputa eleitoral quebra esse biombo de vidro da fantasia e irrompe agressiva pelos lares adentro.

Mas não creio que a personalidade de Serra e Dilma seja o fator mais importante . Nem de longe. Antes dos boxeadores há o ringue, as regras do jogo, os sentimentos e as reações da platéia. A campanha parece polarizada, e está mesmo, porque Lula a quis polarizada. Lembram-se? Foi dele a decisão de empurrar a eleição para um caminho plebiscitário. Plebiscito, o que é? Ora, é opção contrastada entre duas alternativas. Dicotomia, simplificação. É bonito contra feio, preto contra branco. O bem contra o mal. Desde o início, Lula trabalhou para impedir terceiros. Não conseguiu barrar Marina, mas barrou Ciro Gomes e esmagou no ninho todos os outros possíveis candidatos que bicavam a casca de seus respectivos ovos partidários. Ciro, o mais atrevido, ele fez questão de barrar com requintes de humilhação.

E por que plebiscito? Por que Dilma contra Serra? Obviamente porque Lula pretendeu reduzir a campanha eleitoral a uma comparação ponto a ponto de sua presidência com a de Fernando Henrique Cardoso. E julgou que só aí já teria munição para abater uns vinte José Serras. Se o plebiscito era para ser sobre o seu governo, pode-se facilmente concluir que haveria de ser sobre a pessoa dele, Lula. A resposta deveria ser conhecida de antemão. A única diferença entre as pesquisas e a eleição seria esta : em vez do Ibope ir de casa em casa para saber quem aprova e quem reprova Lula, a massa de cidadãos é que iria às urnas. A pergunta e a resposta seriam as mesmas. É ou era este, no meu modo de ver, o cerne da estratégia eleitoral de Lula.

Vai dar certo? Dilma vai vencer de “lavada”, como ele mesmo disse várias vezes? Não faço a menor idéia ; o que sei é que, até agora, a disputa segue empatada. Meu interesse aqui não é tentar prever o resultado. A questão que me propus examinar é por que a campanha parece (está) radicalizada, e minha resposta é esta : em parte, porque Lula a empurrou para o caminho da radicalização. Ontem, neste mesmo espaço, eu argumentei que a interferência de Lula na campanha é um fato sem precedentes no Brasil. Sem precedentes mesmo pelos padrões de nosso presidencialismo, considerado “imperial”, como dizem alguns, ou autoritário, como eu prefiro dizer. Observe-se, porém, que autoritarismo e verticalidade são características do Executivo, não da totalidade de nosso sistema político. Nos demais aspectos – Legislativo, partidos políticos e federação, principalmente – , o nosso sistema foi montado para facilitar a moderação e o consenso. No primeiro turno, vários partidos; no segundo, maioria absoluta. O multi-partidarismo para permitir a expressão de muitos matizes de opinião. A federação para balancear regiões e impedir políticas arbitrárias em benefício (ou malefício) de uma ou algumas. O que está acontecendo,portanto, é fruto direto da estratégia de Lula. Foi para eleger sua criatura, de preferência de “lavada”, e dessa forma dar a mais ampla expressão à sua auto-imagem, a seus interesses políticos e a seus sentimentos, que Lula absolutizou (no sentido terminológico : soltou, fez descolar) uma das propensões do sistema político. Absolutizou, ou tentou absolutizar, o Executivo – e anulou o resto, os freios e contrapesos do sistema. Nada a estranhar, portanto, que a observação das leis eleitorais e da liturgia da presidência lhe pareçam questões relativamente secundárias. Não se trata de distração, nem de provocação. O que ocorre é que, antes destes pequenos fatos, Lula criou um mega-fato institucional, dando aparência de normalidade à virtual supressão dos contrapesos e propondo-se como objetivo passar de roldão sobre o que ao fim e ao cabo ainda restar de oposição.

UMAS E OUTRAS

• Meu amigo Leôncio Martins Rodrigues manda-me ler o livro de Daniel Pécaut, As Farcs, uma guerrilha sem fim ; diz que é leitura obrigatória e que as Farc, vistas de perto, como as viu Pécaut, são muito piores que vistas de longe.

• “Seja senhor de seus silêncios, para não ser escravos de suas palavras” (atribuído a Tancredo Neves).

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    NAN GOLDIN
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    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: eu faço do meu corpo o que quero foi conquista a greve do ventres vem desde os gregos quem possui o direito sobre o corpo feminino? voce, o estado, o papa, Deus"! todos falharam como inquisidores. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Roberta Aymar: Beleza e Proibição... coisas necessárias e, ao mesmo tempo, contingentes nas curvas dos "Plurais Substantivos"... Eu que agradeço, João. - A Viúva Negra
    • João da Mata: domingo é dia de fazer niente nem tente! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: O inquisidor Um dia ele organizou um livro e não selecionou Outro dia ele foi o júri de concurso de poesia e não entrei nem na menção honrosa. Outro dia eu quis abortar e ele disse não pode mas foi taõ bom!. Não pode! Depois disse que e eu não sou Outra vez disse conheço a lei Sou procurador. Como juiz ele errou Como cristo acho que não voga - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Marcos Silva: Alex: Faltou acrescentar que Maria engravidou sem contato sexual com José por vontade de Deus, não é? Dessacralização do coito, embora Deus deva ter pênis e bolsa escrotal pois Adão foi feito a sua imagem e semelhança, e Eva tenha recebido vagina por obra e graça de Quem a fez. Jesus não engravidou porque não quis. Nem precisaria ser inseminado por outro homem, Ele poderia inseminar-Se, se o quisesse, ou Deus poderia usar o mesmo procedimento ocorrido em relação a Maria. Nada disso se deu, pelo que se sabe e que vc, gentilmente, nos trouxe à lembrança. Quanto a Maria Madalena, nada sei. O conhecimento histórico sobre o tempo dela e de Jesus é muito limitado (alguma coisa a partir de Arqueologia), os Evangelhos são escritos de devoção, não propriamente fontes literais de informação (ou são informação sobre eles mesmos). De qualquer maneira, muito obrigado pelas preciosas informações. Aproveito para lembrar que uma coisa é o Cristianismo ideal (todos filhos de Deus etc.). Outra coisa é o Cristianismo histórico, como Cruzadas e Inquisição bem o demonstraram: ou os hereges não eram filhos de Deus (quer dizer: nem todos o são) ou, se o fossem, mereciam morrer por desagradarem aos representantes do Pai. Até Leonardo Boff, há poucos anos, foi punido pelo órgão que ocupou as funções da Inquisição na Igreja Católica, submetido a "Silêncio obsequioso", não é? E durante o Nazismo, o Vaticano manteve um silêncio nada obsequioso diante do Holocausto... Mas diga-se a favor de alguns membros da Igreja Católica (não do Papado) que muitos deles apoiaram os perseguidos pelo Nazismo e até morreram em campos de concentração, como Claudio Galvão estudou, a partir de um caso específico, no livro "Campo da esperança" (EDUSC). Mas Nietzsche já ensinou: a Morte de Deus não é papo para beira de piscina, é um acontecimento mais que gigantesco. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”