Uma distopia bastante atual

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Estudante do Curso Superior de Tecnologia em Produção Cultural – IFRN Campus Natal Cidade Alta.

O Conto da Aia, escrito pela canadense Margaret Atwood, é uma distopia publicada em 1985, com o título original de The handmaid’s Tale. A escritora não costuma ligar essa obra ao feminismo, por não ter sido escrita com essa intenção, mas se tornou bastante comentada pela crítica que frequentemente faz a relação com o tema. Com esse livro, Atwood venceu os prêmios Arthur C. Clarke e Governor General’s Award, além de ser indicada ao Booker Prize e ao Nebula.

A história se passa em uma sociedade na qual o governo sofreu um golpe e um grupo denominado “Filhos de Jacó”, teocrático e totalitário, assume o controle, colocando abaixo a constituição, justificando a busca de ordem no país, agora chamado de Gilead, através de suas regras religiosas. Apesar de não ser mencionado, dá-se a entender que a história se passa nos Estados Unidos, em uma época na qual os níveis de poluição e radiação estão muito elevados, interferindo, inclusive, no nível de natalidade.

Nessa busca por ordem, os “Filhos de Jacó” dividem a sociedade entre homens e mulheres, limitando seus direitos gradativamente. O caso das mulheres se torna mais crítico, pois passam a ser divididas entre férteis e inférteis. As primeiras separadas em um grupo, as “aias”, obstinado a somente procriar com os comandantes de alta patente, já que suas esposas são inférteis. Além desses dois grupos, entre as inférteis, existem as “marthas”, que realizam trabalhos domésticos, e as “não-mulheres”, marginalizadas nesta sociedade, empregadas em locais de baixa salubridade.

Narrado em primeira pessoa, o leitor conhece a realidade através dos olhos de Offred, uma aia, que apresenta sua vida e relação com todos os personagens ao seu redor, incluindo as marthas de sua residência, o Comandante ao qual foi destinada, sua esposa, Selena Joy, e o motorista, empregado de confiança da casa, Nick. Além disso, pode-se perceber que esses grupos de mulheres são diferenciados pela cor de suas roupas, de acordo com a função que exercem.

A relação entre Offred e o Comandante, segundo as regras desse novo regime, deveria ser estritamente para procriação, acontecendo uma vez por mês durante o período fértil da aia; porém é criada um relacionamento proibido a pedido do Comandante com encontros às escondidas entre eles. Apesar de saber do perigo, ela não pode recusar ou ser descoberta, pois, em ambos casos, de acordo com o novo regime, será considerada culpada.

Offred narra a história em um tempo presente no qual ela está inserida, mas durante a sua fala recorda situações de seu passado, quando era uma mulher livre, fazendo com que o leitor possa entender mais facilmente o que está acontecendo no presente. Essas memórias aparecem de forma clara, contextualizam a história de maneira geral e contribuem para que o leitor fique ainda mais próximo da narradora.

Dessa maneira, a complicação é apresentada logo no início do livro a partir da perda de direitos das mulheres, principal dilema da protagonista. Durante a sua vivência como aia, o leitor tem conhecimento sobre o dia a dia da narradora e diversas situações as quais ela é submetida. Por sua falta de conhecimento em como se portar de fato diante de um regime teocrático ou até pela incerteza de seu futuro, a partir da narrativa em primeira pessoa, o leitor é submetido a diversos momentos de surpresa, descobrindo juntamente com a narradora os próximos acontecimentos.

Além do protagonismo de Offred, as personagens presentes em O Conto da Aia exercem papéis fundamentais na história. O antagonismo do Comandante juntamente com sua esposa, além das personagens secundárias Nick e algumas aias que convivem com a narradora permitem que a história se desenvolva de forma muito clara e todas as funções desse novo regime retratado no livro sejam muito bem entendidas.

capa

Um ponto interessante na leitura da narrativa é possibilidade de estabelecermos um paralelo com diversas características da situação política pela qual a sociedade atual está passando. Apesar do teor extremista da história, é possível relacioná-la a diversos grupos que estão surgindo pelo mundo e empregando um pensamento de superioridade, intolerância religiosa ou preconceito com grupos menores ou até mesmo de desigualdade de gênero, como é trazido no livro.

A situação que vivemos contemporaneamente, a observação de ditaduras e regimes totalitários que já passaram ou atuam na história do mundo e diversas passagens narradas por Offred na obra estimulam o leitor a refletir sobre a fragilidade de uma democracia, regime no qual seus direitos estão garantidos até não estarem mais. Isso também se dá ao fato extremamente violento com aqueles que, no livro, se mostraram contrários ao regime imposto, algo que já aconteceu e acontece em diversos países.

É esperado que exista alguma reação contrária a esse regime que pode ser notado por parte de alguns personagens e em alguns momentos até pela própria Offred. O desfecho da história é trazido em uma espécie de epílogo que reforça a ideia de distopia e esclarece algumas das questões levantadas ao longo da narrativa.

O Conto da Aia, apesar de ter sido escrito há mais de três décadas voltou a ser assunto principalmente após ser considerada uma espécie de premonição na eleição do presidente norte-americano Donald Trump. A partir de protestos que trouxeram referências ao livro e aumento considerável das vendas, a história voltou à tona, fazendo com que leitores por todo o mundo refletissem sobre os diversos assuntos abordados na obra.

Considerando o contexto de revolta ao redor do mundo, é possível fazer uma relação com toda a intolerância religiosa ainda muito presente em diversos países, nos quais, na maioria das vezes, há também uma diferença muito grande entre os gêneros e as mulheres são vistas como inferiores.

Em 2017, o livro foi adaptado em formato de série pelo site de vídeos por encomenda americano Hulu, ganhando destaque e conquistando diversas premiações com seus 10 episódios na primeira temporada. Aqui no Brasil, logo depois do lançamento da série, o livro foi relançado pela editora Rocco com nova edição e capa, conquistando novos leitores pelo país.

 

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