Numa entrevista recente dada a esta TN, o premiado escritor cearense Ronaldo Correia de Brito colocou em circulação uma das sentenças mais pertinentes ao ato de escrever: o momento de dar por terminado um livro, um ensaio, um texto qualquer. A máxima, de autoria de Jorge Luis Borges, diz: “Publico para não ter mais que corrigir”.
A atualidade da frase é de tal magnitude que, em casos extremos, produz quer um frenesi por publicar, quer uma barreira de escrúpulos e cautelas capazes de inibir de forma definitiva que certo projeto literário realize seu destino mallarmeniano: tornar-se livro.
Ronaldo está ciente de que se fosse atentar para todas as minudências que uma revisão autoral exige, não publicaria com a regularidade com que o faz. E nestes últimos anos ele tem podido se dar ao luxo de escolher entre continuar revisando textos que perigam envelhecer, e escrever novos trabalhos, dando aqueles ao prelo. Cumprindo à risca esse método, Ronaldo vem lançando livros com regular freqüência desde 1997, quando estreou com “As noites e os dias”. Seu primeiro romance, “Galileia”, lançado o ano passado pela Cosac Naify não foi selecionado para o prêmio Portugal Telecom, o qual, segundo notícia veiculada pela Folha esta semana, vem evitando os romances realistas, segundo a reportagem do jornal apurou ao analisar os dez finalistas à premiação. Isso transforma Ronaldo num escritor realista? Pena que Ronaldo não foi questionado se vê a si mesmo como um escritor realista.
Foi com essas credenciais que Ronaldo Correia de Brito se fez presente ao Festival Literário de Pipa, que começou na quinta-feira passada, retomando contato com escritores e leitores norte-rio-grandenses de sua obra, a qual está repercutindo fortemente nos principais meios literários do país. No mês passado, por exemplo, ganhou o 2º Prêmio São Paulo de Literatura, no valor de 200 mil, juntamente com o gaúcho Altair Martins (livro do ano e veterano).
Sua não indicação para o Portugal Telecom talvez se deva justamente ao fato de já ter sido contemplado com um importante prêmio literário este ano, levando os organizadores desse outro grande troféu literário binacional a dar oportunidade a outros autores ainda pouco ou não suficientemente bem conhecidos (ou premidos).
A entrevista de Ronaldo ao experiente jornalista Carlos de Souza explora assuntos controversos, como conflitos do tipo regional x universal, arcaico x globalizado, erudição x analfabetismo, mas é na relação escritor x internet que Ronaldo revela estar em boa sintonia com a modernidade. Desde que começou a escrever para uma revista da rede passou a cumprir algumas das recomendações de Italo Calvino feitas em seu livro “Seis propostas para o próximo milênio”: rapidez, multiplicidade, visibilidade. E confessa: “Desde que passei a escrever para uma revista da net, a Terra Magazine, me sinto mais corajoso, mais ousado e mais ágil”. Coragem, ousadia e agilidade são, de fato, requisitos indispensáveis para se levar adiante um trabalho intelectual, mas talvez na rede sejam vividos mais intensamente pelo imediatismo e volume das respostas que um escritor com o renome de um Ronaldo Correia de Brito é capaz de suscitar.
A morte também merece uma especial reflexão, quase uma reverência (Ronaldo é médico) por parte do autor de “Galiléia”: “Sem o tema da morte não existiria literatura. Sherazade narra para vencer a condenação à morte e manter-se viva”. Em última instância, portanto, a morte é uma aliada do escritor; o homem bicentenário da ficção científica não tem qualquer pendor para as letras…
O realismo de Ronaldo Correia de Brito também não poupa o fetiche dos livros. Para esse autor, o glamour que cerca os eventos literários é bom por uma única razão: ajudam a tirar a aura sobrenatural da literatura e dos livros. Por serem objetos de consumo, naturalmente concorrem no mercado com “cremes de pele, alisantes de cabelo, celulares e relógios”. Por isso, impõem dilemas do tipo: comprar livros ou tomar dez cervejas? Muitos jovens se veem obrigados a uma escolha dessa forma. Modestamente, Ronaldo os ajuda na decisão, ao dizer: “Sempre preferi comprar livros”.