Uma lacuna editorial brasileira (1)
2 de março de 2010 às 23:35 - Comentar
INTRODUÇÃO
Não se compreende, não faz nenhum sentido que pelo menos uma parte das 1064 páginas (digitadas de um só lado, em três cadernos) do Diário do pintor Francisco Brennand permaneçam nadando no mar da indiferença dos editores brasileiros.
Essas páginas contêm observações sobre a vida, a pintura, a literatura etc – desde o dia 10 de janeiro de 1949, no Rio de Janeiro, quando Brennand estava à espera de embarcar no navio Alcântara, rumo à Paris. O conjunto total das anotações – de toda ordem – progride até 11 de junho ano de 1999, data de aniversário do pintor-escritor. Na época, ele achou conveniente “parar de escrever, pois naquela data completava 50 anos de “Diário”. Entretanto, dados os acontecimentos a partir de 2001 (entrada do terceiro milênio) percebi a necessidade de ainda esclarecer uma centena de coisas que me afligiam, bastante mais diretas e menos literárias, é verdade. Cheguei a optar pela ficção, para dar vazão àquilo que muito justamente me indignava. De certo modo, como você costuma fazer ─ na sua boa literatura ─, dando os nomes aos bois”…
Nossos editores, historicamente, sempre alegaram cumprir, na profissão, uma espécie de “sacerdócio cultural”, desde os velhos José Olympio, Álvaro Machado e outros, até os atuais donos dos selos mais importantes, hoje impregnados de um pragmatismo, digamos, que ainda não dispensa, mesmo nos tempos pragmatíssimos que correm, as tinturas ou o rouge de um resquício daquele “mecenato” alegado pelos fundadores das nossas casas editoriais mais antigas.
Porém, será que as anotações desse escritor de primeira água que é Brennand (83 anos) – nosso mais importante pintor vivo – precisariam de uma ação no plano do “mecenato”, para virem à luz, editorialmente falando? Sabem, os nossos editores menos e mais “sacerdotes” (ainda), do que se trata, não só em termos de memorialística, esse vasto Diário? Ou, enfim, o que significaria publicar os escritos de Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennand?
Não importa que, muito recentemente, ele tenha quase ironizado o assunto: “É claro que me lisonjeia a idéia de publicação ao menos de parte dos três cadernos, embora, por conta de minhas confusões anteriores, jamais estivesse convicto da real necessidade dessa edição, desse ato de expor uma vida para o grande público”…
Apresentaremos um fragmento dessa parte “ficcional” do Diário de FB no próximo mês, na segunda parte deste “Fora de Seqüência” especial em que aqui se oferece uma amostra, apenas, daquilo que os editores brasileiros estão deixando passar debaixo dos seus narizes de muitos faros (alguns dos quais levados para a Feira de Frankfurt, anualmente, em busca de autores europeus de importância altamente duvidosa).
Velhinhos e meninos do mercado editorial tupiniquim, é mais ou menos isso – na parte francesa das 1064 páginas – o que vosmicês estão “perdendo”:
(FERNANDO MONTEIRO)
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Paris, começo do inverno de 1951
Nós fomos um diálogo. Hölderlin
No catálogo de uma exposição de Balthus no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, coloquei numa página em branco uma reprodução em cores do La Leçon de Guitare (1934). Essa pintura realizada pouco tempo depois da primeira versão de La Rue e de La Toilette de Cathy, ambas de 1933, é uma das menos conhecidas do pintor, em face do erotismo, mais que explícito, de sua figuração que, de uma certa maneira, torna proibitivo o seu registro. O próprio artista reconhece a natureza equívoca deste quadro, e, segundo me disseram, tentou destruí-lo, não o fazendo, porém, devido à sua precipitada venda a um anônimo colecionador americano, que, pasmem os incrédulos, depois de alguns anos foi descoberto como o grande crítico James Thrall Soby. Inclusive, já conhecia um dos inúmeros desenhos preparatórios reservados para a execução definitiva da pintura (publicado na revista Voir, em 1948) e posso dizer que este desenho é ─ sob todos os aspectos ─ mais terrível ainda do que o quadro. Veio-me à lembrança abordar este assunto pela enorme similitude da expressão facial (rictus) da “eventual professora” de guitarra (que manipula sexualmente sua ainda impúbere discípula) com as figuras só aparentemente risonhas, de Leonardo: aquele mesmo “insondável sorriso unido a algum funesto presságio”, de que nos fala Pater. Na sua expressão pervertida, a manipuladora parece retirar um especial prazer em conduzir (estranha orquestra!) a sua vítima, instrumentalizada, por mãos ávidas e dedos velozes, até o orgasmo final. A pintura revela (e o desenho, mais ainda) o supremo interesse desse ríctus, como máscara adequada aos condutores do êxtase. Perdoem-me a interpretação, mas este obscuro sorriso é leonardesco até a medula… E, certamente, o velho bruxo o aprovaria.As notas parisienses começam a escassear, embora mantenham ainda um sem número de pequenos lembretes. As noites insones em perseguição da pintura, o fervoroso empenho de acertar com aquilo que Gauguin aconselhava: (“o principal é saber se estamos no bom caminho…”), os nomes de quadros, registros de leituras, dúvidas e até revolta contra algumas opiniões de Lhote ─ como bom francês ─ sempre excessivamente cartesianas.
Em outras anotações, insossos relatos de passeios nos arredores de Paris, Bougival, os encantos do rio Sena e às vezes ─ só muito raramente ─ as tentativas de falar sobre a nossa situação emotiva. A distância e a separação da nossa pequena filha, que ficara no Brasil, era propiciadora de amplos tormentos, sobretudo em Deborah, bastante mais acentuados nela do que em mim.
Os raríssimos encontros com os bons amigos, amizades que devemos muito mais ao espírito social e solidário de Aloísio Magalhães do que propriamente à nossa sempre canhestra iniciativa de nos aproximar de pessoas estranhas… Devemos, portanto, ao Aloísio, o conhecimento do jovem físico Carlos de Lira, do designer Geraldo de Barros, de Leda e também de Radha Abramo (estudantes de arte) e Paulo Emílio Sales Gomes, ligado à cinemateca de Paris, do lendário Paulo Carneiro. Enfim, era este o círculo das relações de Aloísio de que ele, certamente, nos supondo isolados, tentava nos aproximar. Creio que os poucos que chegaram até ao meu atelier (ex-Picabia) devem ter, no mínimo, se surpreendido de que alguém pudesse viver em Paris, naqueles tempos, num tal isolamento. Até o excelente Baltazar da Câmara temia pela nossa sobrevivência e por várias vezes tentou catequizar Deborah para que se insurgisse contra uma tão insólita situação. Suponho que o mais surpreendido de todos seria eu, se algum dia minha mulher resolvesse escrever as suas memórias ou, se mesmo na época, secretamente, mantivesse um diário e falasse na sua versão dos fatos, enfim, revelando tão e simplesmente a sua quase crucificação…
Os dias caminhavam, as árvores perdiam as suas folhas, e o frio reinava por toda a parte. No interior do antigo atelier de Francis Picabia não existia lareira ─ luxo de gente rica. Resolvemos, sem consultar a concierge, acender o velho aquecedor de ferro fundido. Monsieur Bousquet, o marido da velhota, já havia consertado todos os condutos que levavam à chaminé, e, segundo o que pensamos, era o bastante para iniciarmos o ritual do fogo: acender no atelier a nossa fogueira particular.
Éramos “marinheiros de primeira viagem” e nada entendíamos de limpadores de chaminés, a não ser nos contos de Dickens e nos filmes cômicos americanos. No ano de 1949, chegamos a Paris no mês de fevereiro, portanto, em pleno inverno, mas acontece que atravessamos os períodos mais rigorosos num hotel, com calefação central e todas as comodidades modernas, daí porque idealizamos o frio; não sabíamos em profundidade o que era o frio. O vento gelado vindo do leste, o mistério das endiabradas “courant d’air”, que tanto assustava os franceses, as camas igualmente geladas, os cobertores e agasalhos insuficientes e, para completar, no começo das manhãs, a água gelada nas torneiras, anunciando no seu choque diário que a vida recomeça ou deve recomeçar. E deve recomeçar no frio. Não tínhamos, portanto, por onde apelar. Urgia corrigir o frio com o calor do fogo, e assim foi que, sem o saber, empreendemos nossa primeira aventura. O fogo não pegava de jeito nenhum, mesmo diante de toda a ortodoxia empregada correspondente aos iniciais conselhos da concierge. Queimamos todos os gravetos disponíveis, apenas para verificar que não havia nenhuma tiragem na chaminé. Uma nova carga de gravetos surtiu melhor efeito, e o fogo rugiu no velho aquecedor; enfim, chegara o momento de colocar as simpáticas bolas de carvão em seu interior, e assim o fizemos. Para nossa surpresa, também o carvão comportou-se como devia, e logo meia hora depois todo o atelier parecia aquecido. Era particularmente agradável ficar nas imediações do velho fogão, sentindo as suas ardências, quando, de repente, o quarto encheu-se de fumaça, como se não houvesse chaminé alguma para sugá-la. Abrimos, às pressas, a janela que dava para a Rua de Chateaubriand e a porta de entrada para fazer circular a fumaça. E, de fato, ela foi embora. Mas o frio e o vento gelado não nos permitiram esse luxo por muito tempo.
Novamente o fogo mostrou-se instável, para logo em seguida resfolegar e atirar cortinas de fumaça negra dentro do atelier. Eu não entendia de poêle, mas nascera praticamente dentro de uma cerâmica, não ignorando, portanto, o que vem a ser um forno e a indispensável complementação de uma chaminé. Um não podia existir sem o outro. Qualquer dona-de-casa ou cozinheira conhece esse mecanismo. A essa altura me preocupava com os vizinhos, pois a fumaceira que descia escada a baixo me fez descerrar a porta do andar térreo, justamente aquela que dava para o pátio, comum a todos os moradores. Esperava encabulado que a qualquer momento aparecessem bombeiros e curiosos para debelar um começo de “incêndio” na casa dos brasileiros.
Retornei ao serviço pesado, o rosto, mãos e roupas recobertos de fuligem, lembrando um desatento personagem de comédia. O fogo mais uma vez manteve-se estável e isto animou-me a prosseguir em novas tentativas. Já não havia fumaça, mas estranhamente notei que minha mulher parou de ajudar (ela sempre tão ativa), mantendo-se sentada à distância, numa atitude entre sonolenta e sonhadora. Perguntei-lhe se estava bem e ela com voz sumida disse que sim. Depois, levantou-se, dirigiu-se para a cama, onde permaneceu sentada na mesma atitude, indiferente. Parei o trabalho e, supondo que tudo aquilo não passava de cansaço, ajudei-a a deitar-se o mais comodamente possível, puxando a coberta e agasalhando-a como se fosse para dormir. Ora, ainda nem ao menos havíamos jantado e aquele sono repentino de Deborah começava a afligir-me e intrigar-me. Note-se que não foi por muito tempo, porque eu também demonstrava repentinamente carregar nas costas ou na altura do pescoço um peso de pelo menos cem quilos, com olhos lacrimejantes, gestos que se faziam cada vez mais lentos e um caminhar desigual ─ pernas muito abertas ─ lembrando aquele de certos marinheiros no momento da tempestade. Eu também estava prestes a desabar. Foi a minha vez de sentar-me na cadeira, amortecido por um vago torpor que não me atingia ainda a consciência, mas, seguramente, para quem me observasse de fora, me tomaria por um sonâmbulo ou por um ator que, representando gestos em câmara lenta, exagerava no seu papel.
Chamei Deborah. Nenhuma resposta. Chamei mais alto, mas mesmo assim ela não se moveu. Com um supremo esforço levantei-me da cadeira em direção à cama, quando ouvi batidas violentas na porta e o meu nome pronunciado em voz alterada. Não sei se demorei em atender, o fato é que o alarido e as batidas eram cada vez mais intensos ou seria o contrário, cada vez menos distintas…
A porta foi aberta e me deparei com a concierge e o monsieur Bousquet com ares espantadíssimos, a velhota sobretudo, que logo meteu-se sala a dentro correndo para as janelas e abrindo-as de par em par. Quando voltei, a velha já levantava Deborah, dando-lhe leves tapinhas no rosto e falando muito rápido como se pretendesse reanimá-la. O marido aproximou-se e igualmente passou a ajudá-las. Uma vez Deborah de pé, embora cambaleante, por recomendações expressas do casal que ainda gritava e gesticulava muito, saímos do quarto ainda aos tropeços e mal acertamos descer às escadas. O ar frio que entrara no atelier já nos fizera recuperar parte dos sentidos e o choque maior, em plena noite, ao caminharmos lentamente pelo pátio, nos fez entender o que acontecera ou o que poderia definitivamente ter acontecido: estávamos intoxicados pela fumaça, ou seja, pelos letais resíduos de monóxido de carbono.
Senti que a concierge não queria naquele momento ralhar conosco, antes nos admoestava para prosseguirmos caminhando e se possível, darmos uma volta pelo quarteirão. Encarregar-se-ia de extinguir o fogo e quanto a reacendê-lo, nem pensar antes do limpador de chaminés executar toda a revisão dos condutos e da chaminé externa. Resolvemos dormir num hotel das proximidades, o que fizemos logo depois que ela nos trouxe nossos agasalhos. Lá chegamos sem nenhuma bagagem, o que não foi impeditivo para conseguirmos um quarto onde pensávamos passar umas duas ou três noites até que o nosso problema de “aquecimento” estivesse plenamente resolvido.
Logo de início, achamos a idéia acertada, mas não sei se pela falta de hábito ou até pela suspeição da verdadeira finalidade do lugar e da “gerente” que nos atendeu, resolvemos bater em retirada e sorrateiramente entrar em casa ─ mesmo se morrêssemos de frio ─ sem que a concierge nos visse. Quanto à chave da porta, eu me encarregaria de dizer-lhe que voltáramos apenas para pegar objetos de toalete. Mas a velhota já dormia e a chave nos foi entregue pelo bom Monsieur Bousquet que, em parte, era nosso cúmplice. Devo a esse bonhomme da Provença grande parte da pronúncia do midi que adquiri ao aperfeiçoar meu francês, e não me arrependo que assim fosse. Ele devia se expressar com reminiscências da língua provençal que o poeta Frédéric Mistral tanto amou ou, talvez, com o mesmo sotaque com que o tímido Cézanne exigia inutilmente à Legion d’Honneur. No outro dia fomos dormir, de fato, num pequeno hotel bem mais familiar e bastante adequado para aguardarmos a nossa entrada solene nos portais do inverno. O serviço foi mais rápido do que pensávamos, e o nosso poêle, com a sua respectiva chaminé desobstruída, funcionou a contento até o final de nossa temporada, quando saímos de Paris nos últimos dias de fevereiro de 1952 em demanda aos trópicos úmidos do Recife.
Pintei este fogão, à noite, numa tela, não muito tempo depois, envolto pelas sombras do atelier, aceso no seu único ponto luminoso, ostentando orgulho e resistência às intempéries e pronto para atravessar muitos outros invernos. Recordo que o impulso de pintá-lo nasceu não só da gratidão pelo calor que nos proporcionava, como também pela sua indiscutível beleza plástica. Era uma peça antiga e o seu negror, disfarçado pelo tempo, acrescentava-lhe uma incomparável originalidade. Um outro detalhe contribuiu para esse quadro: Delacroix havia elaborado algo semelhante numa pequena tela, num canto de seu atelier, onde igualmente funcionava o seu velho, heróico e desmantelado poêle.
Reconhecidamente não sou homem de ação, e a esta altura dos acontecimentos já ficou bastante claro, neste diário, que os poucos ou quase nulos episódios, aos quais me dediquei com ímpeto narrativo, sempre estiveram visceralmente ligados à minha própria atividade de pintor, acontecendo, por assim dizer, como uma conseqüência lógica dessas atividades e não porque eu estivesse permeável às aventuras. Embora admire os aventureiros, decididamente, não sou um deles.
O frio foi suportável na noite seguinte e pude verificar que todos aqueles que habitavam o pátio fronteiriço não pensavam, nem remotamente, em acender os seus aquecedores. Suponho também que alguns daqueles apartamentos, dos dois lados simétricos do prédio, tinham sido modernizados e deveriam, com certeza, possuir calefação central e, quem sabe, muitas outras comodidades. Via-se por fora as fachadas mais bem tratadas do que a nossa, e de relance, pelas janelas entreabertas, de cortinas esvoaçantes, os interiores denunciando belos móveis lustrosos e paredes pintadas com as cores da moda como o bege, o grená, o grafite, etc. Contudo, nada invejava daquilo, abstraído que estava por diferentes impulsos que me distanciavam da realidade circundante e me colocavam imune num sítio qualquer, onde se caminha rotineiramente para alguma missão obscura, desprovido de qualquer interesse, senão, aquele da confirmação de um desígnio, talvez monstruoso mas que, mesmo assim, deve a todo custo prosseguir.
E prosseguia, quase numa rotina conceitual, eu com os meus intrincados afazeres ─ nem sempre tão silenciosos, desde que urgia igualmente defini-los com palavras e até com rugidos ─, enquanto Deborah, em perfeito silêncio, trabalhava como uma pequena abelha dourada, tentando transformar um chiqueiro numa colméia, cumprindo assim, com um rito, suas obrigações herdadas ainda de seus ancestrais nos engenhos de Pernambuco.
Na partilha dos pães, cabia-me sempre o maior pedaço e, mesmo nos mais pesados serviços domésticos, ela habitualmente evitava o meu compromisso, a não ser quando, despertando para o impossível, deixava a meio caminho das escadas um pesado saco de carvão, apelando então para o meu quase extinto cavalheirismo.
A peça que nós habitávamos não era pequena, talvez mais um salão do que um quarto; apenas com uma divisória de madeira que recriava ao mesmo tempo uma exíguo dormitório com duas camas, um vestíbulo ainda menor e um banheiro compartilhado com a cozinha. Lembro que pintei amorosamente uma tela, mostrando Deborah em pleno trabalho doméstico, com um ar sonhador de uma ninfeta de Balthus, diante de um fogão a gás.
Ainda hoje, lastimo que esse quadro não tenha permanecido em nossas mãos. Por onde andará? O restante da peça era o que sobrava do antigo atelier de Francis Picabia, naquele momento ainda marcando forte presença pelos seus inúmeros quadros, disseminados por toda grande parede que fazia face ao janelão de vidraças empoeiradas com sua grande cortina negra, típica dos ateliers de pintores. Esses quadros, na sua maior parte emoldurados, eram extremamente escuros e abstratizantes, revelando pertencer a uma fase mais ou menos recente do pintor, embora alguns deles recordasse períodos anteriores ─ nos seus reconhecidos processos de superposições de figuras, umas sobre as outras ─, reminiscências vagas das máquinas irônicas, cujo princípio elementar era a sua perfeita inutilidade. Pilhas de desenhos e guaches guardadas em gavetas de velhos móveis abandonados, e desenhos nos armários e até debaixo da cama, quando o formato excessivo não lhes permitia melhor esconderijo. E tudo isso sob a égide de um universo inviolável de poeira que não admitia revisão.
Alguns meses mais tarde, madame Gabrielle Buffet-Picabia nos ofereceria a coleção inteira por um preço irrisório e, diante de nosso ar atoleimado e possivelmente descrente, afirmou possuir documentos comprobatórios de que todo aquele acervo de trabalhos do ex-marido de fato lhe pertencia, desde um acerto de contas durante a separação.
Informei-lhe da necessidade de consultar o meu pai a propósito desta oferta (seguramente vantajosa), e que aguardasse em breve as notícias. Antes de mais nada, falei com o pintor Cícero Dias, que sendo artista e habitando o país há tantos anos (e, além de tudo ligado à nossa embaixada) poderia nos esclarecer, com precisão, sobre os preços correntes de quadros, cotação do próprio Picabia, e possíveis necessidades aduaneiras para retirar do território francês uma tão grande coleção. Cícero já conhecia a oferta e, segundo comentou, o preço era quase ridículo, dada a importância histórica de Picabia no movimento dadaísta e sua inegável qualidade de pintor, de resto, no fim de carreira. Quanto às dificuldades legais, enquadravam-se todas em dispositivos correntes de meras formalidades.
A carta foi escrita a meu pai com grande entusiasmo ─ talvez tenha sido este o pecado maior ─, prolixa, abarrotada de detalhes sobre a excelência desses trabalhos do pintor, a sua importância pessoal na França, Suíça e Estados Unidos, chegando a afirmar que no futuro a coleção valeria mais que uma usina de açúcar. Ademais, havia a possibilidade matemática de valorização dentro de muito pouco tempo, sem levar em conta a oportunidade do câmbio favorável desde que a nossa moeda estava bem situada em relação ao franco francês. Enfim, os argumentos não eram sequer meus (não sou homem de negócios e, naquela época, ainda muito menos), apenas o instinto me norteava, além do imenso desejo de ver algum dia todas aquelas telas tão estranhas incorporadas à coleção do meu pai. Não recebi resposta. Acredito que a carta deve ter despertado hilaridade, senão coisa pior.
Passados trinta dias, voltei a falar do assunto de uma maneira menos apaixonada, apenas indagando o recebimento da primeira missiva e reforçando a idéia com seus pontos fundamentais especificados, e tudo isto feito sem trair emoções, como quem apresenta uma proposta de negócios. Mesmo assim, silenciaram.
Mme. Picabia foi avisada, em tempo, da impossibilidade da transação, pelo menos não com a urgência que ela necessitava. “É pena”, ela disse. “A coleção é magnífica, sem mencionar o seu sentido histórico, e acredito que você poderia tirar um bom partido dela, aliás, você e sua mulher”. Dizendo isso, abraçou Deborah. Curiosamente, apesar da diferença de idade e da língua, as duas mulheres, embora pouco tenham se encontrado em todo esse período, se entendiam muitíssimo bem e poder-se-ia mesmo pensar numa antiga amizade. Gabrielle era poeta e, igualmente a Picabia, participou dos momentos heróicos do movimento Dadá; e quanto a Deborah, secretamente escondia os seus futuros poemas no fundo dos seus olhos claros. Ela já escrevia versos de há muito, e se eu não fosse tão obstruído pelo crescente narcisismo que me dominava, poderia vislumbrar aqui e ali, nas suas inocentes cartas, um certo tom só peculiar àqueles que vêem o mundo de olhos fechados e não necessitam de explicações e de inúteis prolixidades para dizer que uma galinha pôs um ovo na eternidade.
De qualquer forma, apesar do nosso desejo e das urgentes necessidades de Mme. Picabia, a coleção não foi vendida; pelo menos permaneceu no atelier até o nosso retorno ao Brasil. É bem provável que hoje faça parte de uma grande coleção dos Estados Unidos para onde vai, por força centrífuga do dinheiro, tudo o que há de melhor e mais raro no mundo. Aliás, as minhas frustradas relações comerciais com Gabrielle se estenderam ao próprio Picabia, quando nas vésperas do Natal, fui levado ao seu atelier na Place Vendôme para conhecê-lo. Ele já estava gravemente enfermo e não mais se levantava de uma cadeira de rodas, embora o seu rosto ainda permanecesse tocado pela antiga chama anárquica de um verdadeiro dadaísta, principalmente os olhos descrentes, que sobrenadavam o absurdo.
Logo de início chamou-me a atenção o violento contraste entre o antigo e o novo atelier do pintor ─ o moderno, mesmo sem grande luxo, mais parecia um apartamento burguês, não sinalizando a presença de um artista ─, incluindo nesta diferença a vivacidade natural, o espírito e a meiguice da velha Gabrielle. A presente madame Picabia, uma suíça de meia-idade que entre outras coisas lhe fazia também às vezes de enfermeira, perdia em todos os campos de luta no torneio da vida, com exceção apenas para a sua concupiscência, que ficou facilmente demonstrada em torno de um negócio que me foi proposto logo em seguida.
Picabia ilustrara, não há muito tempo, um magnífico livro de poemas do brasileiro Murilo Mendes e, desta edição assinada pelos dois artistas e numerada como convém a toda edição de luxo, restavam apenas alguns poucos exemplares nas mãos da atual madame Picabia. Esta, sabendo da minha existência através de Gabrielle e, supondo ─ tanto como Gabrielle supôs ─ tratar-se de um milliardaire sud-américain, muito graciosa tentou me empurrar goela a dentro dois ou mais exemplares dessa raríssima edição. Mais uma vez, em menos de um ano, o falso milionário brasileiro teria de bater em retirada e foi o que fiz esbaforido. Com justiça, essa família afirmará que brasileiros como eu podem até falar francês, mas, seguramente, lhes falta o principal: alguns escudos no bolso.
Poderia consumir um bom tempo me ocupando de acontecimentos como este ou similares que inundam a vida de todas as criaturas, e, de um certo modo, é moeda corrente bastante valorizada que costuma abrir com facilidade todas as portas do espírito. Uma vida aventurosa ou venturosa, grandes nomes em jogo, entrevistas, hotéis de luxo, conquistas e mulheres, saraus e intimidades outras, contas bancárias, rótulos de vinhos, iguarias, malas etiquetadas com nomes de conhecidas cidades e de exóticos países do oriente. Enfim, apenas “inglesar” a vida de falsos milionários à procura de sensações… Os caçadores de aventuras, à maneira de Hemingway, ou daqueles da “geração perdida”, como Fitzgerald. Há ainda o reverso da medalha, ou seja, chafurdar no caminho do vício, no gênero Henry Miller. Verificar a extrema miséria, as mansardas, a penúria, a namorada pobre, os equívocos jamais esclarecidos com o aparelho policial, a convivência com as pulgas e com os ratos, a suprema morbidez do espírito… Nestes opostos, poder-se-ia codificar um “diário” à altura e todos os gostos (ou desgostos) e é exatamente neste sacrílego território literário que eu jamais conseguirei penetrar. A mim não acontece nada, e se acontece, o “incidente” é de imediato desmascarado, tornando-se tão absolutamente corriqueiro que não mais merece o conto… Logo em seguida, coçando a cabeça, como um dos nossos encabulados ancestrais, retorno à pintura e aos museus. Longe de pretender, com essa absurda e sempre vazia severidade, criar um tipo de jovem escoteiro adestrado no combate aos maus pensamentos e às vilanias da existência. Não, não é nada disso. Como já expliquei reiteradas vezes, apenas vivo o meu inferno sem aparatos desnecessários. Não costumo arriscar o medo e, segundo nos convence o sábio Guimarães Rosa, “o medo tem sempre o tamanho que a gente deseja”. Não pode ser maior do que a medida certa, senão ele nos mata.
Quando me predisponho a contar, jamais ultrapasso a “mini tempestade”, na altura de Finisterra, ou o fogão entupido que provocou um falso incêndio no atelier de Picabia, o que me fez sair sujo e tonto à procura de ar puro, na noite gelada ou ainda o médico surrealista que trocou de mulher com o pintor Max Ernst ou, até, narrar a estranheza do episódio Lamaze (o nome até que soa bem). Como se sabe, em conjunto nada aconteceu que justificasse as narrativas que, com certeza, não chegarão a impressionar ninguém.
Voltando às minhas observações particulares, neste momento, chego ao mês de dezembro. Não preciso explicar o que era, ou tentava ser, este desatento equívoco. Aqui, sinto-me habilitado a fazer uma ou duas observações pessoais que posteriormente poderão ser de serventia àqueles em cujas mãos estes conselhos chegarem, caso venham a enfrentar um problema semelhante, ou seja, contar histórias sem pormenores influenciados pelos absurdos de um escritor famoso que costumava apelidar todos os seus personagens de K. ou de X., todos eles apátridas, sem relógio e habitando lugares estranhamente localizados entre duas fronteiras, portanto, território de ninguém, algo impossível de reconhecer. Sem denominação…
Vejam bem em que embrulho eu me encontro, só porque decidi enfeitar meu diário com “acontecidos”, quando na verdade é bem melhor deixar as coisas acontecerem sem meter-se por dentro dos acontecimentos. Propositadamente, como mencionei acima, fiz aparecer uma série de preâmbulos e acabei não narrando coisíssima alguma. Melhor assim. Mas não é mesmo possível que eu não tenha o dom de contar (ou o direito). Todos contam. Por que não perco os escrúpulos e narro o acontecimento da Rua Washington?… Assim tinha ficado estabelecido, e assim havia de cumprir-se. Qual não foi, portanto, a minha surpresa, quando, repentinamente, esse acordo entre damas e cavalheiro foi quebrado. Qual o motivo do rompimento dessa trégua? Quando foi a minha vez de falar, ou melhor, o momento exato em que me virei para encará-la face a face? Antes que eu pronunciasse uma palavra, ela disse: “Meu Deus, não o reconheci de todo. O que se passa? Por que está assim tão diferente… e este chapéu?” Nesse momento me dei cobro que depois de todo esse tempo decorrido, só naquela tarde eu saíra com o sobretudo diferente. Um bruto capote de pêlo de camelo, digno de um Akaki Akakief, que eu jamais tivera coragem (até aquele dia) de usar.
(PROSSEGUE NA PRIMEIRA SEMANA DE ABRIL PRÓXIMO)


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