Uma leoa faz anos

Tácito Costa
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As manas são umas leoas. Quem conhece a história da família sabe a linhagem delas. Mistura de Costa, Balbino e Guimarães. Foram moldadas em fôrma que não existe mais. Temperadas pelo sol, seca e calor de sertões ancestrais.

São seis. Mas valem por seiscentas. Multiplicam-se e se agigantam nas adversidades e aperreios da vida. Solidárias e pragmáticas, não temem problema ou tempo ruim. Nós somos cinco. E valemos somente pelos cinco mesmo.

Hoje, uma dessas leoas chega aos 60. Nasceu com uma grave deformação nos pés. Por muito pouco não ficou aleijada (tinha “pés de quenga”). Passou a infância com os pés metidos numas botas horrendas para tratar a má formação óssea. Graças a essas botas, idéia miraculosa do meu pai, que viu uma criança usando em uma das suas viagens, e muito sebo de carneiro passado pela tia Nenê, superou o grave problema.

Penso que ela sonhou em ser médica. Mas não era fácil passar no vestibular e nem naquela época nós podíamos nos dar ao luxo de não passar logo na primeira tentativa. Cursou enfermagem. Foi a primeira dos onze filhos que se “formou”. Para além do orgulho que isso representava para nossos pais, ter uma filha “formada”, significava, sobretudo, uma oportunidade de emprego, que nós precisávamos desesperadamente.

Não tivemos o médico, que tanto status dava às famílias, naquela geração. Acredito que era um sonho meio secreto dos velhos. Meu pai, sobretudo, teria amado essa possibilidade. Mas eles vieram na seguinte. Reparem como o destino é cheio de artimanhas. Um deles é justamente filho dessa mana, que nasceu com os pés deformados, e escolheu tornar-se… ortopedista.

Telminha chega bem aos 60. Aposentada, mas trabalhando mais do que quando dava plantão em vários hospitais. Ao som dos passarinhos do Carlinhos, seu marido e aficionado pelo canto dos bichinhos (nossos primos de Alagoas adoraram! rs), fazendo pilates, comendo seu franguinho, uma tripa ou carne de sol assados todos os sábados e aos domingos uma dobradinha ou galinha caipira, caminha firme e forte rumo aos cem. Que assim seja porque terá muito idoso para cuidar pela frente e Carlinhos vai dar trabalho na velhice, segundo nossa mãe – rs. Não adianta querer fugir à responsabilidade.

As “ameaças” de que irá se mudar para Fortaleza, onde mora a filha, são prontamente rechaçadas. Se insistir os “nego veios” podem bater às portas do STF. Abandono de família é coisa séria. Mas acho que as chantagens benévolas de mãe funcionarão. Mãe já pediu pra ela se mudar pro Ceará só depois de sua partida definitiva deste vale de risos e lágrimas.

Parabéns mana. Você merece tudo de bom. Aproveite a vida. Mas também não precisa exagerar, esse negócio de viajar toda semana pra São Paulo não tá legal. “Por que isso cara”?

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Tácito Costa

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