Uma madrugada com Clarice

Andreia Braz
CrônicaDestaque

Superestimulada após uma xícara de café, tomada no início da noite durante uma reunião de trabalho, acordei no meio da noite e fiz tapioca, chá de hortelã e iniciei a leitura de crônicas de Clarice Lispector.

Morar sozinho tem lá suas vantagens, e acordar no meio da noite e ficar à vontade em casa é uma delas. Sabia o motivo de ter despertado naquela madrugada: café. Tive uma reunião de trabalho no início da noite e não resisti a um expresso. Eu só preciso de uma boa desculpa para tomar café, e naquele dia não foi diferente: a conversa sobre projetos envolvendo literatura e revisão de textos com o jornalista e escritor Conrado Carlos, meu amigo e futuro parceiro de trabalho.

café2Uma noite marcada por outro acontecimento especial: conheci seu filho Ernesto, um garotinho adorável de um ano e dez meses com quem partilhei momentos de alegria e afeto. Ternura e paz o definem. Ele é só tranquilidade. Foi a primeira vez que participei de uma reunião de trabalho com uma criança e fiquei deslumbrada com a serenidade daquele menino.

Enquanto conversávamos, Ernesto saboreava um sorvete e se distraía com uma miniatura de rinoceronte (ele adora rinocerontes!) e dois livros cujas capas coloridas estampavam dinossauros de olhos bem vivos.

Algo que também me deixou encantada foi a relação de afeto e cumplicidade entre pai e filho, amigos e parceiros de aventuras com “Totontes, Popótuns e Duílas” (é assim que Ernesto chama os rinocerontes, hipopótamos e gorilas, seus animais prediletos).

Aliás, “Rinocerontes, hipopótamos e gorilas estão bem presentes em minha rotina, de um ano e pouco para cá. São animais queridos por Ernesto, mesmo que exemplares ‘naturais’ ou reais estejam a milhares de quilômetros de distância. Raros são os banhos em que não preciso lavar um menino e um boneco do mamífero gordão”, diz Conrado Carlos em sua crônica “Meu Amigo Totonte”, publicada neste Substantivo Plural.

A beleza do momento que nunca mais será

Voltando ao expresso e à reunião. Normalmente, evito café à noite, substituindo-o por chá (de preferência, maçã e canela ou hortelã). Mas, uma vez ou outra, cedo à tentação, e o resultado é quase sempre uma noite em claro, ou boa parte dela.

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“[…] Normalmente, evito café à noite […] Mas, uma vez ou outra, cedo à tentação”

Não sei como é o fenômeno em outras pessoas, mas comigo a cafeína consumida no final da tarde ou no início da noite age da seguinte forma: durmo um pedaço da noite (três ou quatro horas, no máximo), e passo a madrugada acordada. Costumo aproveitar para ler e escrever.

Quando percebi que o sono não chegaria tão cedo, resolvi conversar com um amigo pelo WhatsApp e, em seguida, fui até a cozinha. Preparei uma tapioca e um chá de hortelã, e iniciei a leitura de um livro de crônicas de Clarice Lispector. Detalhe: estava nos primeiros capítulos de “A lição final” (Agir, 2008), livro de memórias do professor norte-americano Handy Pausch.

Com um câncer avançado no pâncreas, ele tinha poucos meses de vida e queria deixar uma mensagem aos filhos. “Se eu fosse pintor, teria pintado para eles. Se fosse músico, teria composto uma música. Mas, como sou professor, dei uma aula”, confessa na introdução.

O livro é resultado de sua palestra de despedida na Carnegie Mellon University. O evento foi um sucesso estrondoso, graças à internet, e chamou a atenção de um jornalista com quem Handy fez uma parceria para realizar tal projeto. Dividido em 43 lições, o livro é um tratado sobre a vida, e nos ensina que devemos aproveitar da melhor forma possível o tempo que nos resta.

Afinal, “Quem sabe que o tempo está fugindo descobre, subitamente, a beleza do momento que nunca mais será”, como nos ensina Rubem Alves.

OlindaDo silêncio da madrugada às ruas de Olinda

Não consigo ler apenas um livro de cada vez. Geralmente, a leitura de um romance é alternada com a de um livro de contos ou de crônicas. Naquela madrugada, comecei a ler “Clarice na cabeceira: crônicas” (Rocco, 2010), reunião de vinte textos escolhidos por leitores famosos e por eles comentados. Além de comentar a crônica em si, falam de sua relação com a escrita peculiar de Clarice Lispector.

Os textos fazem parte de duas obras: “A descoberta do mundo” e “Para não esquecer”. Caetano Veloso, Ferreira Gullar e Lygia Fagundes Telles, são alguns dos autores que partilham impressões sobre a escrita desconcertante e ousada de Clarice Lispector, que estreou na literatura em 1943, com o romance “Perto do coração selvagem”

A primeira crônica que li de Clarice foi “Banhos de mar”, num exemplar velhinho de “A descoberta do mundo”, adquirido em um sebo. Impossível descrever a sensação de reler essa crônica no silêncio da madrugada e ser transportada para as ruas escuras de Olinda, rumo ao tão esperado banho de mar. Que delícia fazer aquele passeio de bonde com a família de Clarice! Seu pai acreditava que o banho de mar saudável era tomado antes do nascer do sol e também que não se devia tomar logo banho de água doce, pois o mar deveria ficar na pele por algumas horas.

Ao rememorar a meninice, ela diz: “Eu não sei da infância alheia. Mas essa viagem diária me tornava uma criança completa de alegria. E me serviu como promessa de felicidade para o futuro. Minha capacidade de ser feliz se revelava. Eu me agarrava, dentro de uma infância muito infeliz, a essa ilha encantada que era a viagem diária”.

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Fotografia: Cláudia Andujar

Felicidade clandestina

Anos depois, fui arrebatada por “Felicidade Clandestina”, conto do livro homônimo. Naquela madrugada, tive a sensação de viver as mesmas emoções da menina que escondia um livro para sentir a alegria de encontrá-lo: “[…] fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim”. O livro em pauta era “As reinações de Narizinho”, de Monteiro Lobato.

E assim será com mais duas obras de Clarice que estão à minha espera: “Crônicas para jovens: de amor e amizade” e “Crônicas para jovens: de escrita e vida”, ambos lançados pela Rocco, em 2010, que reeditou toda a obra da autora.

E tem mais: no meu aniversário do ano passado, ganhei do meu amigo Cláudio Henrique “Todos os contos” (Rocco, 2016), organizado por Benjamin Moser, que também me presenteou com “A hora da estrela”. Isso sem falar nas biografias de Elis Regina, Frida Kahlo, Rita Lee e Rubem Alves.

Voltando à insônia e ao chá de hortelã. Após a leitura de algumas crônicas, pensei: “até que não foi uma má ideia ter tomado aquele café”. Além do mais, o papo com meu amigo Conrado Carlos foi superestimulante e creio que nossos projetos se concretizarão em pouco tempo.

A insônia não foi de todo ruim, serviu para algumas reflexões e me permitiu desfrutar de um bom livro. E melhor: rendeu assunto para a crônica da semana. Nada mal passar a madrugada na companhia de Clarice Lispector, não é mesmo?

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Andreia Braz

Comentários

6 comments

  1. Denise Araujo Correia 22 março, 2018 at 16:55

    Sempre adoro suas crônicas, querida Andreia, e dessa vez não poderia ser diferente. Queria que todas as insônias fossem aproveitadas assim. Você poderia referenciar aqui quais as biografias que têm de Elis Regina, Frida Kahlo, Rita Lee e Rubem Alves?

    Beijos!

  2. Ednalva 22 março, 2018 at 20:15

    Parabéns. texto muito bom e estimulante… indo agora procurar um livro da clarice para ler.

  3. Damião Gomes 22 março, 2018 at 22:43

    Bela crônica, que nos estimula a ler mais. No momento, estou lendo a biografia de Clarisse Lispector. Abraços, Andreia.

  4. Jocyelli 23 março, 2018 at 06:56

    Essas suas crônicas, minha amiga, só me fazem querer voltar para as leituras sadias, que alimentam a alma. Um beijo pra você e saudades!!

  5. Zenilda Ribeiro 5 abril, 2018 at 10:09

    Andreia, minha querida Cronista,
    Seu texto sobre Clarice me levou a gastar, viu, rsrsrs Pois é, você falou de Clarice e de suas leituras de uma forma tão gostosa que não resisti. Fui ao site da Rocco e comprei 7 livros de Clarice. Tá vendo! rsrsrsrs.

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