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Uma rua chamada pecado

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“No cinema americano não tem poetas”.
(Satyajit Ray – Diretor indiano)

“Não espere a forma antes da ideia, pois elas virão juntas”.
(Arnold Schoenberg – Compositor austríaco)

“Não quero realismo. Eu quero magia”.
(Blanche – Um Bonde Chamado Desejo)

Quando, na década de 50, o lendário diretor indiano Satyajit Ray chegou a Hollywood e disse a Billy Wilder que, no cinema americano, não havia poetas, certamente, ele desconhecia o cinema de Elia Kazan.

Se você tivesse chegado a Los Angeles, em 19 de setembro de 1951, teria visto Marlon Brando, bem no início da sua carreira de ator, em Uma Rua Chamada Pecado (1951), de Elia Kazan, interpretando o papel do jovem Stanley; e, nesse mesmo filme, assistiria Vivien Leigh incorporando a persona perturbadora de Blanche DuBois: uma mulher enigmática, sorrateira e dissimulada. Se tivesse chegado por esse período nos EUA, teria visto Kazan superando as formas teatrais de onde deriva o seu filme, que antecede outras duas obras suas, hoje clássicas, e que foram realizadas ainda naquela década crucial para Hollywood: Sindicato de Ladrões (1954) e Vidas Amargas (1955). Portanto, como Vidas Amargas, Uma Rua Chamada Pecado também é uma adaptação literária, baseada na peça Um Bonde Chamado Desejo (1947), de Tennessee Williams.

Como elemento estranho ao mundo que passa a integrar enquanto personagem, Blanche Dubois invade o núcleo familiar, ao qual pertencem o jovem mecânico, interpretado por Marlon Brando (Stanley Kolwaski), e a bela e recatada colocada em cena por Kim Hunter (Stella Kolwaski). Segundo o próprio Stanley, em um diálogo de um dado momento do filme, formavam um casal que vivia estável até a chegada de Blanche, irmã de Stella, do que duvido muito em função dos atos de violência perpetrados e da misoginia impregnada nas suas falas em diversos momentos. A invasão de Leigh, na verdade, vem desestruturar a dramaturgia de um romance popular, cujos personagens se refestelam em um cotidiano vulgar marcado por traços de uma vida dura em uma América, aparentemente, risonha e franca. Nesse sentido, mais uma vez, Elia Kazan faz sua câmera deter-se no seio de uma estrutura familiar, com seus dramas, traumas e cobranças e com todas as suas misérias e trapaças, a ponto de chegar a um estado de quase desagregação.

Desenhado por quadros escuros, onde imperam sombras, réstias de luzes e pessoas e, praticamente, onde todas as sequências são noturnas, a câmera de Kazan cria um campo de tensão constante, sobretudo na relação do casal Stanley e Stella. Paradoxalmente, desenvolve uma espécie de campo magnético, cuja desagregação iminente logo dá espaço ao reatamento dos personagens.

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Se você tivesse aportado em Los Angeles, em 1955, quatro anos depois do lançamento de Uma Rua Chamada Pecado, teria visto outro filme de Elia Kazan em cujo centro, como ponto de partida e de chegada, temos, mais uma vez, o drama de uma família americana desestruturada. Dois irmãos, diametralmente opostos aos olhos do pai, com uma mãe que os abandonara e vive em um saloon típico daqueles tempos e paisagens americanas. Com James Dean no papel de um jovem problemático (ou como a ovelha negra da família), Vidas Amargas move-se no formato scope 2.55: 1, que amplia o alcance da janela do cinema para olharmos aquele mundo de forma mais completa. Aliado ao sistema de cores, a opção pelo scope é o que envolve nosso olhar a todo instante, ao enlastecer as bordas para entrarmos de forma mais profunda naquele mundo americano de 1917, com as ruas ainda cheirando a cavalos e com a família, permanentemente, no limiar de suas questões. E nesse quadro mais aberto, as sequências, praticamente, ganham em teor dramático carregadas de sentimento, culpa, abandono, ódio, cobranças, perdão, fuga, redenção etc. Impossível dimensionar o impacto que é ver Vidas Amargas, de Elia Kazan, no cinema. Não deve ter preço assistir na telona todo o jogo ótico que se instala, com a alternância do foco – ora no filho, ora na mãe –, quando o personagem de James Dean reencontra a mulher que o gestara e desaparecera de sua vida ainda na infância. Um reencontro que acontece em um momento crucial para o filme.

Por outro lado, Sindicato de Ladrões (1954), que estreou um ano antes de Vidas Amargas e três de Uma Rua Chamada Pecado, não deixa de ser mais um trabalho de Elia Kazan sobre o universo familiar (a grande famiglia das máfias e gangsters que dominavam o submundo americano). No centro do conjunto de suas imagens, também, vemos uma família – fundida numa ética movida por códigos do mundo do crime – desestruturar-se à medida que o filme avança, sem esquecermos que Brando faz um personagem órfão, que vive, de certo modo, sob a tutela de um gangster, que controla a região e a massa de trabalhadores portuários. Ao contrário do que para Marlon Branco significa Sindicato de Ladrões, Uma Rua Chamada Pecado não é um filme em que ele reina de modo absoluto (ainda que aqui sua presença seja marcante como em quase tudo que atuou até Apocalypse Now, 1979). De forma magistral, quem dá o tom e espraia talento é Vivien Leigh, com uma interpretação que domina toda a cena, o quadro e a luz, os elementos e os objetos do cenário, os demais personagens, nossas ilusões diante da magia de uma interpretação espetacular.

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Por outro lado, Uma Rua Chamada Pecado é um filme que se desenvolve praticamente em locação única, com as situações dramáticas, essencialmente, inscrevendo-se na casa dos personagens de Brando e Kim Hunter. Há uma alternância na temporalidade das sequências, ora de curta duração (ao nível do instantâneo), ora de longa duração (estendendo a durabilidade das ações e relações entre personagens). Nesse limiar, Kazan apresenta uma América misógina, violenta, racista, carregada de preconceitos de classe, fracassos, trapaças, loucura, com amores que não se consolidam, com desilusões de toda ordem. Nessa obra, Elia Kazan constrói, portanto, um mundo bem distante do sonho americano, que moldou um certo imaginário sobre um país que sempre quer nos fazer acreditar que, entre suas fronteiras, os desejos se realizam. Em Uma Rua Chamada Pecado, desenvolve também momentos em que o mundo físico e real de Stanley e seus amigos opõe-se ao mundo irreal e fantasioso de Blanche Dubois, que vive uma espécie de personagem sobreposta à personagem, com seus desejos e delírios, a imaginar outra vida, como se estivesse em cena atuando e sendo intérprete de si – recusando um certo realismo, elegendo a magia como plataforma da sua atuação.

Em outras passagens, paralelo àquele mundo duro e real, cheio de graxa, cerveja e suor da personagem de Marlon Brando, Kazan ergue outro universo, com sequências com um certo teor coreográfico, como na que o casal interpretado por Brando e Hunter se reencontra na escadaria logo após os instantes anteriores de violência – um conjunto de planos de raro requinte em um andamento que nos tira do tablado teatral originário para o outro lado do espelho construído dentro da câmera –, um universo fílmico e visual particular, próprio e quase único. Essa mesma especificidade, que contribui para um maior distanciamento entre filme e peça teatral, pode, sobretudo, ser vista na sequência em que Blanche Dubois, como quem se movimenta a incorporar o anjo mau, torto e sorrateiro, tenta convencer sua irmã Stella a deixar o personagem de Brando. Nessa cadência de corpos se movendo pelo cenário, de gestualidade e expressões faciais, Kazan ergue um mundo que não teria forma, densidade e pulsação se não fosse construído com/a partir das lentes da ilusão e da magia da Sétima Arte.

FIM

[1] Elia Kazan, filho de pais gregos, nasceu em Constantinopla, Turquia, em 1909, e faleceu em Nova York, EUA, em 2003. Realizou cerca de 20(vinte) filmes, foi premiado por duas vezes, em 1948 e em 1955, com o Oscar de Melhor Diretor e, em 1999, recebeu o Oscar Honorário pelo conjunto da obra. O fato controverso que acompanhou toda a sua história foi sua participação como delator nos Comitês de Investigação de Atividades Anti-Americanas do Macartismo.

[2] Vivien Leigh (1913-1967) ganhou o Oscar de Melhor Atriz de 1952 pelo papel de Blanche DuBois, em Uma Rua Chamada Pecado. Kim Hunter, nessa mesma premiação, ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. O filme ainda recebeu o Oscar de Melhor Direção de Arte.

[3] A peça Um Bonde Chamado Desejo, que estreou na Broadway, em 1947, foi dirigida pelo próprio Elia Kazan e já tinha Marlon Brando e Kim Hunter no elenco. Vivien Leigh participou da montagem inglesa de 1949, dirigida por Laurence Olivier.

[4] A citação na epígrafe atribuída ao diretor indiano Satyajit Ray tem como fonte: Mark Cousins, História do Cinema – dos clássicos mudos ao cinema moderno, 2013

[5] A citação na epígrafe atribuída a Arnold Schoenberg consta no artigo: <http://www.fafich.ufmg.br/devires/index.php/Devires/article/viewFile/171/41>.

[6] A terceira epígrafe é um dos diálogos da peça Um Bonde Chamado Desejo.

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