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Veja porque ‘Campos Grandes Reunidos’ promete ser dos melhores álbuns do ano no RN

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Conselho: nunca mais citem Tolstoi e sua conhecida frase “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Não sem antes ouvirem o trabalho musical de Wescley J. Gama. Se o último álbum Seridolendas anunciava arcabouços de imagens sonoras de um Seridó surreal, sonhado em cenários onde o real puro e cotidiano ganhava auras de lenda, este novo disco, Campos Grandes Reunidos, mostra um Seridó possível e um tanto mais lírico. A poesia permeia todas as 11 faixas, mesmo nos instrumentais, quando os sons remetem a uma região de estética tão pronta e bela.

Este terceiro álbum da carreira de Wescley (o primeiro, “chuva estiagem água lampiões” foi lançado em 2007 mais como um experimento poético) soa ainda mais universal do que Seridolendas, também já livre do provincianismo matuto recorrente em alguns álbuns ditos regionalistas. Grandes Campos Reunidos vai além dos quadrantes geográficos onde a vista pode alcançar. Traz também comportamentos, saudades, amores. E tudo muito singularmente seridoense. É preciso muita sensibilidade, talento e poesia para traduzir tanta abrangência em canções de tão poucas palavras.

Uma vez, em entrevista para O Poti, entrevistei o diretor musical mineiro, radicado há bons anos em Natal, Zé Marcos. Perguntei qual o som característico do Clube da Esquina. Ele se mostrou surpreso talvez não com a pergunta, mas com a falta de resposta. Zé Marcos parou um bom tempo até responder algo mais ou menos assim: “São os sons das montanhas, dos paralelepípedos, das casas e dos papos da nossa infância”. E concluiu com o que achei emblemático: “Quem mora ou morou lá com certeza pode entender mais o que estou dizendo”.

Embora o seridoense possa assimilar melhor cada frase, casa nota das composições, tudo no álbum são verdades universais emergidas de qualquer aldeia, perfeitamente captadas por qualquer alma minimamente sensível, apenas com o recheio das lembranças e vivências do compositor, filho da riqueza de secas e poesias, de uma Currais Novos de tradições de aboio e repentes; do Seridó de Felinto, de Bembem Dantas, do Casarão da Poesia; de um Seridó pulsante e parte desse processo maluco de evolução, da modernidade líquida de Zygmunt Bauman, como se vê na canção Amanhecerá.

“no fim, tudo morre.
mas o fim ainda não chegou.

Uma maçã no escuro
vejo a vida líquida,
lírica, à espera de um aboio
que me amanheça
como o sol.

no tudo, o fim morre.
mas o tudo ainda não chegou.

Uma maça no escuro
vejo a vida lírica,
líquida, à espera de um aboio
que me amanheça
como o sol.

Essa é, sem dúvida, a canção mais bela do disco. Parceria íntima de Wescley e a poesia de Iara Maria Carvalho, com a participação aguda do vocal de Milena Carvalho. A parceria de Wescley e Iara se vê ainda na belíssima Olívia e o Oceano e em Tudo Vermelho. No Seridolendas, o duo dominou boa parte do disco. Neste, novos compositores se juntam à versatilidade de Wescley. Paula Érica inicia o disco com Toró, de boas metáforas, e também na singela Clarice Não Sabe Voar, amparada no piano – quase um conto curtíssimo de uma menina em eterna espera pelo que não viveu.

A faixa-título é a segunda canção. Uma introdução ao piano, permeada por cantos de pássaros antecipa um solo vigoroso de guitarra, até a volta das notas de piano, que servem de fundo para a poesia: “Campos grandes reunidos,/ abrem-se os travessantes/ pra passar os navegantes./ Pintadinho, pintinho entrou aqui,/ saiu lá na frente que eu vi./ Pau arriba, pau abaixo, terrendendengo./ Caem dos altos novos redondelos”. E aqui uma ressalva: Só vale mesmo ouvindo, na voz matuta de Zé Benedito, o autor.

O poeta Theo G. Alves também colabora com duas letras, sendo uma traduzida e lida em francês e outra para compor a canção As Noites de Dezembro. Mais uma Carvalho, Elina, divide a composição Origem com Wescley: “colho, cozinho, fervo, seco, pilo a secreta virtude do milharal voando amplo no terreiro, desmentindo da terra seu sal”. E na oitava música, a querida Michelle Ferret também empresta sua poesia, em uma aura infantil, adornada por solos de rabeca. “Sonho de quem não quer mais nada/ Já esqueceu que viver é verbo/ E sentir pode estar no infinito/ Nas noites claras em que o medo/ Vira casa.”

Campos Grandes Reunidos une uma plêiade de poetas reconhecidamente talentosos unidos à música e arranjos de Wescley J. Gama. Um casamento perfeito já visto no álbum anterior. Este novo trabalho promete ser dos melhores discos lançados em terras potiguares. Algo para ser ouvido para além da província, onde cosmopolitas de alma simples possam saborear o som numa varanda qualquer. Mas Wescley não é indie, não é pop, nem circula nos chãos dos que sabem elevar o que muitas vezes não tem peso. E sua música permanece ali, no Seridó, resistente como um cacto.

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Comentários

3 comments

  1. Wescley J. Gama 4 março, 2016 at 09:31

    Sérgio, quanta gentileza. Muito grato pelas palavras. A quem interessar o disco está à venda na Livraria Nobel Salgado Filho. Abraços seridoenses.

  2. Iara Carvalho
    Iara Maria Carvalho 4 março, 2016 at 11:52

    Sérgio, você mais uma vez com esse olhar agudo e sensível… muito obrigada!

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