Verão de dança no inverno potyguar
12 de junho de 2009 às 8:34 - Comentarhttp://hungaromania.wordpress.com/
Teatro Alberto Maranhão ontem (quinta) de noite. Platéia repleta de uma moçada bem jovem − eu era dos pouquíssimos com mais de 50 − que acudiu pra conferir Tempo de Verão, espetáculo da Márcia Milhazes Companhia de Dança, que desde dia 9 andava pela cidade dando oficinas e palestras pros dançarinos e interessados locais.
Fico me perguntando o que significa a ausência de outros seres pensantes e amantes da arte de mais idade, sobretudo dos homens. Os 15 reais da inteira não me parecem um obstáculo intransponível. Terá alguma coisa a ver com um estigma ainda a cercar a dança entre os bofes intelectuais empedernidos da província?
Em todo caso, perdeu quem não viu. Porque a boa dança contemporânea tornou-se, sobretudo, uma reflexão relevante sobre o gesto. E, no caso do que apresentaram as duas mulheres e um homem coreografados por Márcia Milhazes, por mais de uma hora sem interrupção, tratou-se de uma reflexão aguda, perturbadora, até, mas também irônica e sutilmente divertida, sobre o que escondem, revelam ou podem ainda potencialmente dizer os nossos gestos, a “fala” dos nossos corpos no embate constante que opõe nossa individualidade fundamental de humanos e as forças coercitivas de sempre e sempre, que tentam impor padronização, a nossa amoldagem gestual às exigências quer sejam da máquina do consumo, da tradição, dos “bons costumes” burgueses, ou mesmo das novas vanguardinhas tribais supostamente liberadoras da “diversidade” sexual e de gênero, mas que geralmente não passam de novas armaduras prontas a nos encerrar em nichos comportamentais e, portanto, gestuais.
‘Tempo de verão’ nos regalou com uma trilha musical composta de um belíssimo colar de pérolas-valsas tradicionais brasileiras, de Villa-Lobos a Francisco Mignone, passando por Lamartine Babo (Eu sonhei que tu estavas tão linda), − que a coreógrafa explicou no final ser fruto de sua memória familiar, seu pai era um amante e colecionador da música brasileira dos meados do século passado −, iniciada, pontuada e finalizada, no entanto, com sons da natureza: passarinhos, silvos de uma macacada, coaxar de sapos no charco e, finalmente o chuá purificante de uma cachoeira. Fora isso, há silêncios, espaços mudos também, onde só os movimentos pontuam o tempo.
O contraponto da música de sabor nostálgico, sons de um tempo que, se era mais puro e espontâneo de um lado, era também de gestos ainda mais convencionais e bem-comportados, com uma coreografia que faz da desmontagem, da negação dos gestos de dança convencionais sua característica mais marcante é, na minha opinião, o aspecto mais interessante e provocador do espetáculo montado por Márcia Milhazes. Já que nenhum dos movimentos dos dançarinos obedece ou segue padrões de dança esperados, convencionalmente “agradáveis e harmônicos”.
Antes, os excelentes Fernanda Reis, Ana Amélia Vianna e Al Crisppinn (será que esse rapaz andou visitando um numerólogo?) fazem de seu tour de force no palco uma sequência perturbadora de movimentos “esquisitos”, “anti-dançantes”, explosões de gestos pontuados por aparentes quedas e desmaios, que ora lembram uma embriaguês, ou exaustão, ora o movimento de pássaros, ou de crianças que fossem surpreendidas sozinhas mexendo-se segundo uma música interior, e longe da visão repressora dos adultos.
No programa impresso (de boa qualidade, graças ao patrocínio da Petrobrás) a coreógrafa se refere, entre outras imagens, à sua procura por “gestos acumulados como territórios de desejos – silêncio. O olhar numa sucessiva narrativa de profunda emoção – solidão.”
Foi curioso e revelador dessa sua visão, ouvi-la contar na conversa pós-espetáculo que trabalhou com os dançarinos suas coreografias individuais separadamente uns dos outros, e que só após isso fez o encontro dos três, quando cada um já havia construído com ela o universo individual do movimento que ela procurava. Levou um ano até dar-se por satisfeita e estrear. E fez questão de sublinhar que não trabalha com improvisação.
Márcia Milhazes é irmã da excelente pintora Beatriz Milhazes, que produziu o bonito aparato cênico, uma espécie de chuva colorida de pingentes e bolas que paira sobre o centro do palco, e que a foto de capa do ‘Viver’, da TN de quarta-feira (por acaso a única que vi) soube valorizar devidamente. Com tudo isso, quem gosta da boa arte tem que comemorar a passagem desse povo talentoso por Natal.


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