Vergonha que dá
22 de julho de 2010 às 18:43 - 2 ComentáriosSe eu pudesse teria cavado um buraco para me enterrar, de tanta vergonha. Quer dizer, ainda estaria lá, no buraco, uma semana depois de ler a ótima entrevista feita pelo repórter Wagner Lopes, da Tribuna do Norte, com o neurocientista Miguel Nicolelis. As reclamações e os diagnósticos feitos pelo cientista mundialmente respeitado sobre o descaso em que tem padecido, à mercê dos vergonhosos políticos potiguares, é um troço desconcertante. A gente pode listar de várias maneiras as qualificações do que ele cita, a saber, o descumprimento reiterado de promessas que ajudariam a desenvolver um importante centro de estudos científicos no Rio Grande do Norte: falta de visão, falta de espírito público, falta de interesse. Mas, bem, eu fico com a opção que, penso, melhor resume tudo: falta de vergonha na cara. Geral, ampla e irrestrita, sem distinguir cor partidária ou mise en scène ideológico. Quando, no começo dessa década, Nicolelis, brasileiro radicado nos EUA e professor com todas as loas da Universidade de Duke, onde desenvolve pesquisas de neurociência que podem mudar a história da medicina e da ciência através de novos tratamentos para doenças hoje consideradas incuráveis, como as degenerativas, decidiu estabelecer em Natal a sua filial de estudos brasileira, o mundo acadêmico voltou seus holofotes para este torrão de terra sem norte. Era uma luz, uma iniciativa esplêndida, tão maravilhosa que só podia ter partido de alguém de fora. As primeiras moscas foram engolidas pela imprensa local e pelos políticos, quando na inauguração do centro de estudos deu-se a presença de Henrique Meirelles, presidente do Banco Central do Brasil, e da milionária Lily Safra, que doou como pessoa física estimados um milhão de dólares para o fomento das pesquisas e assistência educacional que o cientista promove em Macaíba e em Natal. De última hora, à guisa de reparar o descaso, correram aos pés de Nicolelis prometendo mundos, fundos e tudo que até então, e até aqui, não conseguiram cumprir. Uma estrada asfaltada, saneamento, apoio da iniciativa privada, em troca de ciência, conhecimento, saber, um novo futuro para uma geração de crianças e jovens que deveriam ser atendidos numa parceria entre o poder público e o centro de neurociências. O resultado disso tudo? A desilusão estampada no rosto do cientista, que qualquer dia desses sai da Suécia com um Prêmio Nobel, mas não consegue arrancar do governo do estado e do município uma ação em prol do que se propõe. É uma vergonha avassaladora e, digo mais, é inútil que sejam reclamados e cobrados Wilma, Iberê, Micarla, Carlos Eduardo, Rosalba, Garibaldi, Zé Agripino. A coisa continuará como está, porque é e sempre foi mais importante investir no pão e circo que em conhecimento. A lógica do voto de cabresto pouco crítico permanece sendo levada adiante a ferro, fogo e muita enrolação, cujo saldo será o pior possível nos próximos anos, com todos os maganos acima citados desfrutando as benesses do poder e mamando nas tetas gordas do governo enquanto este pobre Rio Grande sem norte segue na rabeira da educação, do conhecimento, do progresso e, em resumo, da civilização.
Vergonha que dá II
Do ponto de vista jornalístico, a entrevista de Nicolelis é um dos achados do ano na imprensa potiguar. Pelo timing, pela pauta, pelas perguntas corajosas. Expôs, de maneira límpida e sem precisar recorrer a expedientes meramente declaratórios entre contendentes da disputa eleitoral, o nível baixo e rebaixado de todos os que entraram na recente disputa tendo nas costas a responsabilidade pelo descaso com que o centro de estudos de Miguel Nicolelis vem sendo tratado desde que aqui se instalou. Do ponto de vista político, é sem dúvida o turning point, como dizem os americanos, dessa campanha política. Ou deve ser, a não ser que a imprensa, entre acoitados e xeleléus, decida calar e seguir adiante com suas orelhinhas e preás, fazendo vista grossa ao absurdo que foi revelado pela Tribuna do Norte. Se isso não for suficiente para pautar o debate (existe?) entre os candidatos no Rio Grande do Norte, o que haverá de ser? Quem se habilitará a reconhecer erros e comprometer-se a repará-los, imbuindo esforços para que a crítica de Nicolelis torne-se obsoleta? Haverá homem de coragem ou mulher de luta que se disponha a tal?
Vergonha que dá III
Um dos aspectos que mais me chamou a atenção no rosário de reclamações de Nicolelis foi a dificuldade em manter parcerias duradouras a longo prazo com a iniciativa privada local. Quer dizer, é uma questão cultural? Também. E é de se lamentar vivamente. É assombroso que uma brasileira morando na Europa que até então nunca tinha posto os pés em Natal se disponha a doar um milhão de dólares enquanto os que aqui se encontram e arrotam suas riquezas em caminhonetas 4×4 e festas promovendo o supra-sumo da breguice, incultos e incautos, não compreendam a oportunidade de vincular, mesmo que com interesses meramente mercantilistas, já que consciência é coisa rara por aqui, o nome físico ou jurídico à nata do conhecimento científico mundial. O que me faz pensar nas dezenas de bibliotecas e laboratórios científicos montados nos EUA com dinheiro de famílias abastadas, pelo simples prazer de colaborar com o conhecimento. Daí penso de volta na realidade potiguar e, de novo, se pudesse cavar um buraco e me enterrar, era o que fazia agora mesmo. Dá muita vergonha.



2 Comentários
O sistema não está deixando eu liberar alguns coments, pedi a Nicolau para vê o que está acontecendo.
Esse coment é de EDJANE LINHARES, que não consegui liberar:
“Levino, seu texto é de uma clareza arrepiante. Tenho também vergonha. Até agora eu não entendi a posição da UFRN (ou alguns professores) nessa história”.
Bravo. Compartilho da mesma vergonha e indignação com você. Resume a frustração de Nicolelis quando ele indagou sobre a preocupação dos governantes com o fomento da educação e cultura: “pobre Rio Grande sem norte segue na rabeira da educação, do conhecimento, do progresso e, em resumo, da civilização.”