Vestígios visíveis pela ação do tempo

8 de março de 2010 às 17:36 - Comentar

Por Giovanna Bartucci
Estadão

Lillian Hellman olha para si e sua geração em Uma Mulher Inacabada, Pentimento e Caça às Bruxas, que voltam às livrarias

“Toda a minha vida acreditei nas modificações que podia fazer e algumas vezes fiz, num temperamento do qual muitas vezes não gostava, mas agora parece-me que o tempo só trouxe alterações e mutações, ao invés de reformas verdadeiras; e por isso resta-me tanto do passado, que não tenho o direito de pensar que é muito diferente do presente”, escreveu, em 1973, Lillian Hellman (1905- 1984), uma das mais importantes dramaturgas atuantes entre os anos 1930 e 1950 nos EUA. E talvez por isso mesmo tenha apresentado os três volumes de sua autobiografia – apesar de muito diferentes entre si – como pentimentos, ou seja, vestígios de composições anteriores, ou de alterações em quadros, tornadas visíveis com a passagem do tempo.

Relançado pela José Olympio, o primeiro deles, Uma Mulher Inacabada (1969), já disponível nas livrarias em tradução de Carlos Sussekind – segundo a editora, Pentimento (1973) chega na terceira semana de março e Caça às Bruxas (1976) em abril – é o retrato da menina que se transformou em uma mulher cuja natureza alternava “entre uma certa vagueza e exigências rígidas”. Com efeito, nascida em New Orleans, Lillian estava permanentemente dividida entre o apartamento nova-iorquino, pertencente à família materna da alta classe média originária do Alabama, sul dos Estados Unidos, e a família paterna, que se estabeleceu em New Orleans na imigração alemã de 1845-1848. Seu pai, entretanto, nunca seria considerado “um marido à altura de mocinha tão rica e bonita”, como refletiria a autora.

É claro que isso não seria significativo se a pequena Lillian não se visse, a cada seis meses, “transferida de uma escola de Nova York para uma escola de New Orleans, fosse qual fosse a etapa do ano letivo e qualidade do ensino numa e na outra”. É possível, escreveria mais tarde, que por meio dessa “necessidade constante de ajustar-me a dois mundos muito diferentes (…), descobrira muito cedo que (…) era capaz de pular um obstáculo com elegância e facilidade, e, em seguida, me esborrachar ao chão no esforço de correr para saltar o seguinte”.

Uma Mulher Inacabada, contemplado com o National Book Award, narra, então, os caminhos percorridos pela menina criada no sul do país pela babá negra Sophronia até os voos realizados pela dramaturga e roteirista de cinema. Diversas vezes premiada, duas vezes indicada para o Oscar de melhor roteiro – em 1942, com As Pequenas Raposas (1941), adaptação de sua peça homônima e, em 1944, por A Estrela do Norte (1943) -, Lillian recebeu também a medalha de ouro, na categoria de dramaturgia, do Instituto Nacional de Artes e Letras, em 1964.

O primeiro volume das memórias da autora retrata ainda a relação da dramaturga com Dashiell Hammett, escritor responsável pela renovação do gênero policial noir, com quem viveu por 30 anos pelo “puro prazer que tínhamos um no outro”, conforme registrou em 1973. O livro também nos aproxima, com bom humor, da ficcionista Dorothy Parker, dos romancistas F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway, do diretor de cinema William Wyler, do produtor Samuel Goldwyn, para quem trabalhou na Metro-Goldwyn-Mayer, e do cineasta russo Sergei Eisenstein.

Curiosamente, os cinco meses que Lillian passou na Rússia, de outubro de 1944 a fevereiro de 1945, com a intenção de escrever um filme sobre o país, o seu retorno para lá, 22 anos depois, e sua viagem à Espanha de Franco, em 1937, são temas sobre os quais Hellman se detém tendo sempre como referência os diários que escreveu à época – o que lhe permite pensar a sua história em termos geracionais.

Suas memórias do macarthismo, nos EUA dos anos 1950, seriam relatadas em profundidade, no entanto, no volume Caça às Bruxas. Em 1º de junho de 1952, Lillian Hellman, que fazia a narração de Regina, ópera de Marc Blitzstein baseada em As Pequenas Raposas, foi ovacionada pela plateia. Intimada a depor diante do Comitê de Atividades Antiamericanas do Senado, em 1952, sua resposta representou uma rajada de ar fresco em meio ao clima de terror instaurado sob a batuta do senador Joseph McCarthy: “Não posso e não desejo amoldar minha consciência à moda do ano (a delação), embora tenha chegado (…) à conclusão de que não tenho pendor político e não me sentiria bem militando num grupo político.”

O fato é que a sua obra foi a sua atuação política. Ainda que tendo sido contemporânea de dramaturgos como Eugene O”Neill, Tennessee Williams e Arthur Miller, e se mantido próxima dos preceitos clássicos do drama, a sua produção tratou de temas como o fascismo durante a Segunda Guerra e a omissão da classe média norte-americana em face da sua expansão; de questões sindicais e de ética política num contexto de lutas trabalhistas e de fura-greves; e também da erosão das relações familiares em decorrência da cobiça material (como se vê em As Pequenas Raposas).

É claro, vale lembrar que Pentimento contém um capítulo sobre a relação da escritora com a dramaturgia, ainda que não haja “como explicar o instinto para o teatro, embora os que o têm reconheçam-no uns nos outros, como um laço que os une”, escreveu ela.

Contudo, Pentimento se constitui, afinal, em um livro de retratos de alguns daqueles que lhe marcaram a existência. Como Bethe, a prima judia que se converteu ao catolicismo por amor a um mafioso, e cuja intensidade da experiência serviu de parâmetro para a relação amorosa entre Lillian e Dashiell Hammett. Ou Júlia, a amiga de infância que, enquanto estudava medicina em Viena, se analisava e estudava com Freud, “estava fazendo alguma coisa muito perigosa que se chamava trabalho antifascista”, e cujo relato foi posteriormente transformado no filme Júlia, com Jane Fonda e Vanessa Redgrave. Em outras palavras, um livro que, delicado, divertido, às vezes irônico, termina por – ao retratar outros – pintar um quadro, o da própria Lillian Hellman.

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POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: eu faço do meu corpo o que quero foi conquista a greve do ventres vem desde os gregos quem possui o direito sobre o corpo feminino? voce, o estado, o papa, Deus"! todos falharam como inquisidores. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Roberta Aymar: Beleza e Proibição... coisas necessárias e, ao mesmo tempo, contingentes nas curvas dos "Plurais Substantivos"... Eu que agradeço, João. - A Viúva Negra
    • João da Mata: domingo é dia de fazer niente nem tente! - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: O inquisidor Um dia ele organizou um livro e não selecionou Outro dia ele foi o júri de concurso de poesia e não entrei nem na menção honrosa. Outro dia eu quis abortar e ele disse não pode mas foi taõ bom!. Não pode! Depois disse que e eu não sou Outra vez disse conheço a lei Sou procurador. Como juiz ele errou Como cristo acho que não voga - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Marcos Silva: Alex: Faltou acrescentar que Maria engravidou sem contato sexual com José por vontade de Deus, não é? Dessacralização do coito, embora Deus deva ter pênis e bolsa escrotal pois Adão foi feito a sua imagem e semelhança, e Eva tenha recebido vagina por obra e graça de Quem a fez. Jesus não engravidou porque não quis. Nem precisaria ser inseminado por outro homem, Ele poderia inseminar-Se, se o quisesse, ou Deus poderia usar o mesmo procedimento ocorrido em relação a Maria. Nada disso se deu, pelo que se sabe e que vc, gentilmente, nos trouxe à lembrança. Quanto a Maria Madalena, nada sei. O conhecimento histórico sobre o tempo dela e de Jesus é muito limitado (alguma coisa a partir de Arqueologia), os Evangelhos são escritos de devoção, não propriamente fontes literais de informação (ou são informação sobre eles mesmos). De qualquer maneira, muito obrigado pelas preciosas informações. Aproveito para lembrar que uma coisa é o Cristianismo ideal (todos filhos de Deus etc.). Outra coisa é o Cristianismo histórico, como Cruzadas e Inquisição bem o demonstraram: ou os hereges não eram filhos de Deus (quer dizer: nem todos o são) ou, se o fossem, mereciam morrer por desagradarem aos representantes do Pai. Até Leonardo Boff, há poucos anos, foi punido pelo órgão que ocupou as funções da Inquisição na Igreja Católica, submetido a "Silêncio obsequioso", não é? E durante o Nazismo, o Vaticano manteve um silêncio nada obsequioso diante do Holocausto... Mas diga-se a favor de alguns membros da Igreja Católica (não do Papado) que muitos deles apoiaram os perseguidos pelo Nazismo e até morreram em campos de concentração, como Claudio Galvão estudou, a partir de um caso específico, no livro "Campo da esperança" (EDUSC). Mas Nietzsche já ensinou: a Morte de Deus não é papo para beira de piscina, é um acontecimento mais que gigantesco. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”