Viagem à tromba do elefante

5 de março de 2010 às 9:01 - Comentar
Por João da Mata

III- Viajante Contumaz

Vou em busca de procurar cidades, tardes e brisas de lugares antes só apreciados nos mapas e nomes. Belos nomes os da minha aldeia. Tangará, Santo Antonio do Salto da Onça, Jandaíra, Santana dos Matos, etc. Atravesso o elefante rio-grandense do norte. A margem é verde e frondosa. Muitas cruzes nas estradas lembram do reino de lete. Garças suspensas no ar suspendem a manhã tropical. Em Lajes a primeira parada para tomar café. Bolos e canjicas pesadas ao peso. O café aquece o peito dos quatro viajantes e um destino: A Serra do Martins (foto). Terra do meu amigo Junior, que enriquece de lembranças, amizades e sentidos o que a cidade esconde para viajantes apressados. Por sob as cores, sombras e monumentos da cidade escoa um rio de lembranças.

Dia de feira no interior é dia de festa e encontros. Na pequena feira da cidade o meu amigo Junior encontra pessoas da sua infância. Um senhor grisalho olha quase sem acreditar. – É o Junior? – Sim, é ele mesmo, O amigo conterrâneo e contemporâneo. Um milagre que só a vida pode proporcionar. Duas vidas que correm paralelas se encontram na cidade-infância. A professora Francisca encontra o aluno Junior e o abraça. Ali o local onde funcionou a loja onde foi comprado o primeiro livro. O homem volta a ser menino na sua Pasárgada antiga e nunca esquecida. A cidade e a Serra. Sinto como se estivesse lendo uma historia narrada com linhas vivas.

No sábado de feira um homem bêbado vai pelas ruas fazendo discursos. No mercado recém inaugurado muitas frutas, panelas de flandres, chocalhos, tiras, rodas e chapéus de couros. As roupas encontro em qualquer lugar. Em frente uma lan-house e na parede uma gaiola com passarinhos. Cachorros esparramados em plena rua repousam profundamente num silencio de pedras.

No museu histórico da cidade, antiga residência do senador Almino Afonso, muitas fotos de seus moradores mais ilustres. Em uma praça no centro da cidade, próximo à rua das pedras, esconde-se por entre folhas de uma árvore frondosa, o busto do escritor Raimundo Nonato, nascido em Martins a 18/07/1907. Bem próximo a capelinha mandada construir pelo pai que não queria que seus filhos fossem servir á sanguinária guerra do Paraguai.
Do mirante da Carranca uma vista deslumbrante dos açudes, cidades, serras e torreões. A centenária casa de pedra e suas estalactites no sopé da serra é visita obrigatória, com seus quartos, corredores e sala. Do promontório vê-se essa belíssima casa e sinto no ar o aroma do verde que embriaga. Sinto a presença do Rouxinol de Keats. A tarde vai embora com o seu crepúsculo e o manto da noite desce iluminando as cidades de pontos luminosos. Os vagalumes piscam. Lá longe os relâmpagos anunciam vendavais.

A casa de cultura estava fechada (elas estão sempre fechadas). Na Escola Estadual Almino Afonso que completa um século de existência, encontra-se o museu Demétrio Lemos. Além de uma bela coleção em bronze com as figuras ilustres de Dante, Galileu, Milton, Camões, Virgilio, etc; encontra-se uma preciosa coleção de livros raros, com destaque para as edições monumentais de Os Lusíadas, de Camões ( edição Biel dedicada a Dom Pedro II), O Orlando Furioso, de Ariosto e o Inferno, de Dante.

A cidade também abriga uma rica coleção de peças retiradas de escavações. Valiosa coleção arqueológica e paleológica que conta a pré- história da cidade.

Depois de nos despedir da cidade uma breve visita à cidade de Portalegre, também na tromba do elefante. No hotel muitas fruteiras. Depois de nos deliciarmos com as frutas retiradas do pé, resolvemos retornar à Natal via Caicó. Ao passar por Viçosa percebemos com alegria as benfeitorias na cidade do escritor François. Por entre árvores majestosas, vê-se a entrada do conjunto Dr. François Silvestre.

Depois Umarizal, Olho d´agua dos Borges, Patú, Belém e Brejo do Cruz. A fronteira Paraíba- Rio Grande do Norte é perigosa. O sopé da serra da Borborema pode esconder surpresas ruins. A estrada é péssima e nenhum dos dois estados assume esse trecho pouco trafegável.

Almoço em Patú com sobremesa de espécie. Visita ao belo santuário no cume da serra. Bela arquitetura, belas imagens e uma rica coleção de ex-votos. Na capela principal em Cone Prateado uma excelente acústica e iluminação natural. Obra de muito bom gosto de um padre arquiteto.
Chegada a Caicó. A cidade adormece depois da feira e da semana. Na praça da alimentação cerveja só depois das 18h. Uma visita obrigatória á ilha de Santana. Bela construção com uma capelinha e vários teatros e locais para eventos. Só não vimos movimento de gente e esperamos que esse belo equipamento seja melhor utilizado para além da necessária caminhada. Voltamos à noite e ninguém.

Na bela matriz da Santana acontece uma missa. Nessa igreja fui batizado e tenho por ela uma extrema devoção. São belas as imagens de Santana ensinando o menino Jesus.

Bela viagem de regresso ás nossas Ítacas e verdes que te quero. A companhia ilustradas e eruditas dos amigos D. Inácio, Manoel Onofre Jr, Homero e João da Mata fez dessa viagem uma festa de muitas cores, sabores e alegrias muitas. Não fora o prazer da viagem o prazer maior de contar para vocês.

Comentários fechados.

AGENDA

  • Pinacoteca está com Edital aberto para ocupação das Salas de Exposições

    Artistas plásticos e visuais ainda podem se inscrever no Edital de Ocupação das Salas de Exposição da Pinacoteca Potiguar para todo o ano de 2012.

    mais informações »

  • Rede Cinemark exibe direto de Londres a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House

    Espetáculos serão transmitidos em mais de 30 complexos espalhados pelo Brasil, sendo dois ao vivo. Natal-RN participa da programação e os ingressos já estão à venda

    A Rede Cinemark traz para o Brasil, com exclusividade, a temporada 2012 de óperas e balés do The Royal Opera House (ROH), de Londres, a partir do dia 25 de fevereiro.

    mais informações »

  • Museu de Arte Moderna do Rio abre mostra cancelada de Nan Goldin

    NAN GOLDIN
    QUANDO abre hoje, às 19h; de ter. a sex., das 12h às 18h; sáb. e dom., das 12h às 19h; até 8/4
    ONDE MAM-Rio (av. Infante Dom Henrique, 85, Rio; tel. 0/xx/21/2240-4944)
    QUANTO R$ 8
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

    aqui

  • OUTROS EVENTOS

POESIA

    “Je f’rai un domain où l’amour sera roi”
    12-02-2012 às 10:14 - 1 Comentário
    Por Bruno Costa

    Embora distante
    tua voz, teu cheiro, teu gosto
    permanecem aqui
    do nascer ao pôr do sol
    Continuo ouvindo as mesmas músicas
    que embalaram nosso encontro
    e às vezes sinto que se aproximas
    com sorriso leve e afeto ilimitado

    Encantados seres
    temos agora a ciência de sonhar acordados
    de conviver pacificamente com o medo
    e ludibriar o tempo

    Seres encantados
    transcendemos a história e a matéria
    alcançamos um plano metafísico
    que chamamos de deus, amor, beleza

    COMENTÁRIOS

    • João da Mata: Caro Juscio e estimada Roberta Belos links e comentários. Adorei. Que lindo, Roberta, seu blog proibido. Recomendo a todos Muito obrigado - A Viúva Negra
    • Roberta Aymar: A quem de interesse for... (inclusive há um link para o seu texto, João da Mata): http://quasiallegromanontroppo.blogspot.com/2012/02/aforismos-sobre-as-irrigacoes.html Roberta Aymar. - A Viúva Negra
    • Jóis Alberto: Poema muito bom! - "Je f'rai un domain où l'amour sera roi"
    • Eliane Dantas: Concordo, finalmente, com o senhor Jarbas Martins. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Alex de Souza: Cristo também nunca engravidou. Nem Maria Madalena (que eu saiba). - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Jarbas Martins: Muito bom, Bortolotto.Mas eu não trocaria um parágrafo de Adriano de Souza, ou um capítulo de um ciberfolhetim de Carlão, por tua prosa requentada. - Minha mãe sempre apagava a luz na hora de dormir
    • Anchieta Rolim: "Tá legal, eu aceito o argumento." Valeu Marcos. - À sombra da ditadura
    • chico m guedes: penso que quem acha que os valores em relação à vida introduzidos pelo cristianismo na civilização ocidental são só uma questão de crença pessoal, ou ignora brutalmente a história, ou, o que é pior, se auto-ignora enquanto fruto dessa civilização. sugiro um passeio imaginário ao coliseu romano num dia de espetáculo pagão. (em joguinho cyber ou seriado de tv não vale). claro que a sociedade ocidental moderna já abriu espaço para tornar o aborto uma questão de "foro íntimo das mulheres" (a mesma sociedade que vai em marcha batida pra nos transformar em mero 'produto', aliás). apois, apesar de toda essa mudernage, desconfio que entre nós filhos do cristianismo, pelo menos por mais um milênio, matar um feto (não venham com eufemismos que é disso que se trata) ainda será sentido e vivido como uma mancha moral (o que é o 'pecado', afinal?). mesmo que ele venha a ser descriminalizado. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • Fernando: Yuno, seu comentário rebaixando o cristianismo revela um preconceito fortíssimo. Nestes termos, é impossível realizar um 'debate amadurecido" que você diz querer. - A “defesa do direito ao aborto” e a “defesa do aborto”
    • João da Mata: Eu tacito, celina ,Abimael Noite de banda aluanda. Ribeira bordas navarro Quase carnaval amigos Maésia , Paulo, outros. Não naõ não lembro nome seca Elói. E tu andas estava. - Cena Aberta e transparente